
O piloto Bird Clemente e a "berlineta" Interlagos da equipe Willys, capa da revista Quatro Rodas, especializada em automobilismo, em 1965.
Os revolucionários anos 60 marcaram a chegada do kart ao Brasil e o surgimento das equipes de fábrica, que abriram espaço para a nova geração de pilotos do País.
Naquela época, a gente passava a noite no autódromo de Interlagos, acompanhado daquele frio cortante, só para “cobrir” para os jornais competições de longa duração, comuns naquela década, do tipo “Mil Milhas”, “500 Milhas”, “24 Horas” e “12 Horas”, em Interlagos, na Capital de São Paulo. Meu companheiro de trabalho costumava ser o saudoso repórter Cândido Garcia, outro que, como eu, sempre gostou de automobilismo.
Uma geração de pilotos, pouco conhecida nos dias de hoje, foi a grande responsável por uma mudança radical no automobilismo de competição. Isso no Brasil no início dos anos 60. Pilotos como Bird Clemente, Luís Pereira Bueno, Francisco Lameirão, Mário César de Camargo Filho, Lian Duarte, Anísio Campos, Jaime Silva e muitos outros participaram dessa verdadeira revolução estrutural e foram os grandes responsáveis pelo surgimento da geração que exportou seu talento para a Europa e cujo pioneiro e grande representante foi Émerson Fittipaldi.
Bird Clemente (em foto atual) e seus companheiros marcaram o início da profissionalização do automobilismo brasileiro, em 1962. “Fui procurado na minha casa pelo Luiz Antônio Greco, que trabalhava na Willys Overland do Brasil”, contava Bird, que competia em Interlagos com carros da categoria Turismo. “Acredito ter sido o primeiro piloto brasileiro a receber salário de uma fabrica para correr com seus carros”, vangloriava-se. “O surgimento de equipes de fábrica, como Vemag, Willys, Simca e Alfa Romeo, criou uma nova mentalidade no Brasil”.
ESSES HOMENS MARAVILHOSOS COM SUAS MÁQUINAS CORREDORAS - Anúncio em página dupla da Willys Overland do Brasil apresentando a equipe: Luiz Pereira Bueno, Luiz Antonio Grecco (chefe de equipe), Bird Clemente, Wilsinho Fittipaldi, Carol Figueiredo, Francisco Lameirão e José Carlos Pace.
A Willys Overland do Brasil, uma das primeiras montadoras do País, começou aqui a produzir alguns modelos da francesa Renault, entre os quais o Dauphine e o Gordini e a sua famosa “berlineta”, convenientemente denominada de “Interlagos” – seu principal modelo esportivo. A “berlineta” era destinada apenas às “feras”, caso específico de Bird Clemente e Luiz Pereira Bueno. Os novatos tinham de se contentar com o Gordini. E quais eram esses novatos? Pilotos jovens como Wilson Fittipaldi Júnior, José Carlos Pace, Émerson Fittipaldi, Carol Figueiredo, Marivaldo Fernandes, todos integrantes de uma geração que começou a pilotar karts e depois passou para o automobilismo. Acompanhei as corridas desse grupo de kartistas nos kartódromos e circuitos de rua na Capital e no Interior do Estado.
Da mesma forma como as equipes de fábrica foram fundamentais para o crescimento do automobilismo de competição no Brasil, o kartismo foi igualmente marcante na formação de pilotos. A modalidade esportiva chegou ao País em 1961, trazida por Cláudio Daniel Rodriguez, que passou a produzir karts e vendê-lo à nova geração de competidores. Era um carrinho baixo, equipado com motor de cortador de grama que foi inventado nos Estados Unidos. Virou “febre” e as competições se multiplicaram, em loteamentos da Zona Sul de São Paulo, em circuitos de rua da praia do Embaré, em Santos, e em cidades do Interior do Estado, como Limeira, Campinas, São José dos Campos, ou em Cotia – onde foi construído um kartódromo, no Santa Cruz Week End Club – e Ribeirão Preto, que também construiu um kartódromo e realizou a primeira prova internacional de kart no Brasil. As competições eram organizadas pelo Automóvel Clube do Estado de São Paulo. Abaixo, o kartista Émerson Fittipaldi.

“Comecei no kart, em que competi por três anos”, lembrava Wilsinho Fittipaldi. “Os que corriam de carro um pouco antes dessa época eram caras ricos e já com alguma idade, todos amadores”, recordava Wilsinho. Seu pai, Wilson Fittipaldi, narrava corridas pela Rádio Panamericana, que na década de 60 passou a ser chamada de Jovem Pan, devido ao movimento musical liderado pelos cantores Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Wanderléa & Cia. “O kart, além de servir como excelente escola, formou uma nova geração de pilotos com outra visão”, lembrava Wilsinho.
Antes das equipes de fábrica, as “carreteiras” – modelos Ford e Chevrolet dos anos 30 e 40, bastante modificados – dominavam as pistas do País com seus pilotos Camillo Cristófaro, Catarino Andreatta, Breno Fornari e tantos outros. Com a chegada dos DKWs, Gordinis e as incríveis “berlinetas” Interlagos, as velhas “carreteiras” foram sendo superadas, em meio a competições entre veteranos e jovens pilotos, todos arrojados, que varavam a noite e a forte neblina de Interlagos e lotavam o autódromo de fãs que vibravam com as provas e tentavam assistir as corridas de suas barracas, quando a visão era possível.
“Com as equipe
s de fábrica passamos a usar carros bem mais avançados, menores, mais baixos, mas também muito mais rápidos”, contava Wilsinho. Aos poucos, ele, Émerson, Bird, Luís Pereira Bueno (na foto recebendo a bandeirada de vencedor das "Mil Milhas Brasileiras" de 1967, seguido de Bird Clemente), Carol Figueiredo e José Carlos Pace, passaram a se repetir no pódium e a velha geração foi abrindo espaço para o novo grupo de pilotos. As categorias começaram a ser mais bem definidas e os calendários foram sendo adequados à nova realidade.Bem mais jovem do que Wilsinho, Pace, Bird e Bueno, Émerson estreou no automobilismo em 1966. Assustou o irmão e o pai ao capotar com um Gordini na Ilha do Fundão, no Rio. Mas, três anos após já era campeão inglês de Fórmula Ford e Fórmula 3. No dia 4 de outubro de 1970, nos Estados Unidos, Émerson chegou à sua primeira vitória na Fórmula-1. E em 1972 era campeão mundial de F-1, pela Lotus. O pioneiro Émerson serviu de modelo ou guia para Nelson Piquet, seguido logo após por Ayrton Senna. Os três, Émerson, Piquet e Senna, juntos conquistaram oito títulos mundiais para o Brasil entre 1972 e 1991 e são até hoje exemplos para várias gerações de pilotos brasileiros de sucesso.











