domingo, 21 de fevereiro de 2010

Heróis dos anos 60 abriram caminho para os campeões Émerson, Piquet e Senna





O piloto Bird Clemente e a "berlineta" Interlagos da equipe Willys, capa da revista Quatro Rodas, especializada em automobilismo, em 1965.






Os revolucionários anos 60 marcaram a chegada do kart ao Brasil e o surgimento das equipes de fábrica, que abriram espaço para a nova geração de pilotos do País.

Naquela época, a gente passava a noite no autódromo de Interlagos, acompanhado daquele frio cortante, só para “cobrir” para os jornais competições de longa duração, comuns naquela década, do tipo “Mil Milhas”, “500 Milhas”, “24 Horas” e “12 Horas”, em Interlagos, na Capital de São Paulo. Meu companheiro de trabalho costumava ser o saudoso repórter Cândido Garcia, outro que, como eu, sempre gostou de automobilismo.

Uma geração de pilotos, pouco conhecida nos dias de hoje, foi a grande responsável por uma mudança radical no automobilismo de competição. Isso no Brasil no início dos anos 60. Pilotos como Bird Clemente, Luís Pereira Bueno, Francisco Lameirão, Mário César de Camargo Filho, Lian Duarte, Anísio Campos, Jaime Silva e muitos outros participaram dessa verdadeira revolução estrutural e foram os grandes responsáveis pelo surgimento da geração que exportou seu talento para a Europa e cujo pioneiro e grande representante foi Émerson Fittipaldi.

Bird Clemente (em foto atual) e seus companheiros marcaram o início da profissionalização do automobilismo brasileiro, em 1962. “Fui procurado na minha casa pelo Luiz Antônio Greco, que trabalhava na Willys Overland do Brasil”, contava Bird, que competia em Interlagos com carros da categoria Turismo. “Acredito ter sido o primeiro piloto brasileiro a receber salário de uma fabrica para correr com seus carros”, vangloriava-se. “O surgimento de equipes de fábrica, como Vemag, Willys, Simca e Alfa Romeo, criou uma nova mentalidade no Brasil”.


ESSES HOMENS MARAVILHOSOS COM SUAS MÁQUINAS CORREDORAS - Anúncio em página dupla da Willys Overland do Brasil apresentando a equipe: Luiz Pereira Bueno, Luiz Antonio Grecco (chefe de equipe), Bird Clemente, Wilsinho Fittipaldi, Carol Figueiredo, Francisco Lameirão e José Carlos Pace.

A Willys Overland do Brasil, uma das primeiras montadoras do País, começou aqui a produzir alguns modelos da francesa Renault, entre os quais o Dauphine e o Gordini e a sua famosa “berlineta”, convenientemente denominada de “Interlagos” – seu principal modelo esportivo. A “berlineta” era destinada apenas às “feras”, caso específico de Bird Clemente e Luiz Pereira Bueno. Os novatos tinham de se contentar com o Gordini. E quais eram esses novatos? Pilotos jovens como Wilson Fittipaldi Júnior, José Carlos Pace, Émerson Fittipaldi, Carol Figueiredo, Marivaldo Fernandes, todos integrantes de uma geração que começou a pilotar karts e depois passou para o automobilismo. Acompanhei as corridas desse grupo de kartistas nos kartódromos e circuitos de rua na Capital e no Interior do Estado.

Da mesma forma como as equipes de fábrica foram fundamentais para o crescimento do automobilismo de competição no Brasil, o kartismo foi igualmente marcante na formação de pilotos. A modalidade esportiva chegou ao País em 1961, trazida por Cláudio Daniel Rodriguez, que passou a produzir karts e vendê-lo à nova geração de competidores. Era um carrinho baixo, equipado com motor de cortador de grama que foi inventado nos Estados Unidos. Virou “febre” e as competições se multiplicaram, em loteamentos da Zona Sul de São Paulo, em circuitos de rua da praia do Embaré, em Santos, e em cidades do Interior do Estado, como Limeira, Campinas, São José dos Campos, ou em Cotia – onde foi construído um kartódromo, no Santa Cruz Week End Club – e Ribeirão Preto, que também construiu um kartódromo e realizou a primeira prova internacional de kart no Brasil. As competições eram organizadas pelo Automóvel Clube do Estado de São Paulo. Abaixo, o kartista Émerson Fittipaldi.











“Comecei no kart, em que competi por três anos”, lembrava Wilsinho Fittipaldi. “Os que corriam de carro um pouco antes dessa época eram caras ricos e já com alguma idade, todos amadores”, recordava Wilsinho. Seu pai, Wilson Fittipaldi, narrava corridas pela Rádio Panamericana, que na década de 60 passou a ser chamada de Jovem Pan, devido ao movimento musical liderado pelos cantores Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Wanderléa & Cia. “O kart, além de servir como excelente escola, formou uma nova geração de pilotos com outra visão”, lembrava Wilsinho.

Antes das equipes de fábrica, as “carreteiras” – modelos Ford e Chevrolet dos anos 30 e 40, bastante modificados – dominavam as pistas do País com seus pilotos Camillo Cristófaro, Catarino Andreatta, Breno Fornari e tantos outros. Com a chegada dos DKWs, Gordinis e as incríveis “berlinetas” Interlagos, as velhas “carreteiras” foram sendo superadas, em meio a competições entre veteranos e jovens pilotos, todos arrojados, que varavam a noite e a forte neblina de Interlagos e lotavam o autódromo de fãs que vibravam com as provas e tentavam assistir as corridas de suas barracas, quando a visão era possível.

“Com as equipes de fábrica passamos a usar carros bem mais avançados, menores, mais baixos, mas também muito mais rápidos”, contava Wilsinho. Aos poucos, ele, Émerson, Bird, Luís Pereira Bueno (na foto recebendo a bandeirada de vencedor das "Mil Milhas Brasileiras" de 1967, seguido de Bird Clemente), Carol Figueiredo e José Carlos Pace, passaram a se repetir no pódium e a velha geração foi abrindo espaço para o novo grupo de pilotos. As categorias começaram a ser mais bem definidas e os calendários foram sendo adequados à nova realidade.

Bem mais jovem do que Wilsinho, Pace, Bird e Bueno, Émerson estreou no automobilismo em 1966. Assustou o irmão e o pai ao capotar com um Gordini na Ilha do Fundão, no Rio. Mas, três anos após já era campeão inglês de Fórmula Ford e Fórmula 3. No dia 4 de outubro de 1970, nos Estados Unidos, Émerson chegou à sua primeira vitória na Fórmula-1. E em 1972 era campeão mundial de F-1, pela Lotus. O pioneiro Émerson serviu de modelo ou guia para Nelson Piquet, seguido logo após por Ayrton Senna. Os três, Émerson, Piquet e Senna, juntos conquistaram oito títulos mundiais para o Brasil entre 1972 e 1991 e são até hoje exemplos para várias gerações de pilotos brasileiros de sucesso.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

O governador fica preso. Furo do repórter Fausto Macedo



Ano passado, neste mesmo espaço, dei destaque ao jornalista Reginaldo Leme, meu ex-companheiro de coberturas de automobilismo (ele pelo “Estado”, eu pela “Folha”), autor do furo mundial com a entrevista de Nelson Piquet sobre o incidente provocado pelo seu filho, o piloto Nelsinho Piquet, para beneficiar a equipe Renault e o seu companheiro, Fernando Alonso, a mando do seu chefe de equipe, o polêmico Flávio Briatore, assunto que revolucionou o circo da Fórmula-1 em 2009.

Outro furo merece destaque neste inicio de 2010. O do jornalista Fausto Macedo (foto), de “O Estado de S. Paulo”, também meu companheiro de redação na década de 90, quando trabalhei para o Grupo Estado. A informação de que o ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), negou hábeas corpus ao governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, chegou ao repórter Fausto Macedo por volta das 10h30 de 12 de fevereiro. Às 11h53, após confirmação, foi publicada no site estadao.com.br, e em seguida distribuída para os cerca de 15, 8 mil assinantes do Twitter do jornal.

Um rápido perfil de Fausto Macedo: está no jornalismo desde 73, inicialmente em um jornal de São Vicente (SP). Em 74 ele já estava no “Jornal da Tarde”. Encontrava-se, então, no primeiro ano da faculdade. Foi destacado para cobrir polícia, como setorista no antigo Deic (Departamento de Investigações Criminais). Em 1975, passou a colaborar com o “Opinião”. Trabalhou, também, no “Pasquim”, em sua segunda fase. Rádios: “Capital”, “Jovem Pan”, “Eldorado” e “Bandeirantes”. TV: “Record”. Em julho de 1992, mudou de área, de polícia para a editoria de política do “Estado de S. Paulo”. Tem se destacado por inúmeras e importantes reportagens políticas, de grande repercussão. Fausto declara ter trabalhado “com gente muito capaz”, entre os quais o jornalista Dante Matiussi.

(Eu, Sérgio Barbalho, também tive essa sorte. Dante foi meu editor na “Folha de S. Paulo”, e o considero um dos meus mestres. Aprendi muito com ele. Quando Dante foi transferido da editoria de esportes para a editoria geral, me promoveu de repórter a editor de esportes, o que muito valorizou minha carreira no Jornalismo).

JORNALISTAS CONTRA
A “GERAÇÃO GABINETE”


Fausto Macedo, como eu e muitos outros jornalistas veteranos, é defensor do repórter que sai a campo em busca de informação, não se limitando a ficar na bancada, em redações com ar condicionado, só utilizando o telefone e a internet e explorando o jornalismo declaratório.

Em entrevista ao “Observatório da Imprensa”, Fausto afirmou recentemente: “O repórter não pode realmente ficar naquele jornalismo declaratório idiota, de ir ao Congresso pegar a mera declaração de político. Tem de buscar formas de captar o leitor. E publicar com precauções. Mesmo porque nós não somos juízes, somos repórteres. Não temos o direito de julgar ninguém, não temos o direito de nos apaixonar por uma fonte ou de odiar um investigado. Por pior que seja o investigado, por mais flagrante que seja o envolvimento desse investigado em um caso de corrupção, não nos cabe fazer juízo de valor. Cabe-nos apenas informar”.

A profissão de jornalista ficou conhecida pela figura de um repórter que saía à procura de notícias, vivendo uma busca frenética pela verdade. Mas atualmente, com as novas tecnologias, os jornalistas trabalham mais nas redações do que nas ruas. Hoje é comum o repórter fazer várias entrevistas por e-mail ou telefone e receber notícias de agências. "Só uma minoria de repórteres sae às ruas. Quando eu comecei, na década de 60, todo mundo tinha que ir pra rua", recorda-se o jornalista Ricardo Kotscho, do site “Balaio do Kotscho”, em reportagem do “Comunique-se”, site de Jornalismo.

A maioria dos jornalistas diz que nada substitui o "olho no olho", mas o enxugamento das redações obriga muitos a se dedicarem a várias pautas por dia. "Hoje as equipes são enxutas. O telefone e o e-mail são imprescindíveis na vida de um repórter que trabalha com muitas pautas. É compreensível que se recorra a isso, mas tem que haver certo limite, porque um repórter que não sai a campo perde informações essenciais", afirma Chico Otávio, do jornal “O Globo”.

Miriam Leitão, também de “O Globo”, conta a diferença e a experiência do "olho no olho". "Quando fui a Minas Gerais fazer uma entrevista com o Sebastião Salgado, acabei fazendo também uma grande reportagem sobre o rio que secou na cidade, porque eu fui lá e vi que o rio havia sumido. Nada substitui ir ao local".

Além da perda da vivência do repórter que não sai em busca de notícias, há também a padronização do conteúdo. "O telefonema e e-mail são importantes, mas o trabalho do repórter é essencial para que o veículo tenha um material robusto, material feito por ele com a orientação editorial do veículo", comenta Eduardo Marcondes, professor do site “Comunique-se”.

A padronização do conteúdo também é algo que preocupa os jornalistas. "Fica tudo muito parecido, as fontes são sempre as mesmas. Os jornais ficam parecidos com a Internet e o telejornal da noite dá a mesma notícia que você vai ler no jornal do outro dia. Além disso, existem os press-releases, que muitos jornais publicam na íntegra. Está desaparecendo a reportagem, ainda existe, uma vez ou outra você encontra, mas é muito raro", analisa Ricardo Kotscho.

Alguns jornalistas não acreditam que a figura do repórter que sai às ruas está cada vez mais rara. Outros acham que este trabalho está sendo desvalorizado. "Eu acho que o repórter de rua não está desaparecendo. O repórter é aquele que vai pra rua, quem não gosta de ir pra rua não pode ser repórter", afirma Heródoto Barbeiro, da rádio “CBN” e da “TV Cultura”.

Carlos Nascimento, do “SBT”, acredita na desvalorização do repórter de rua. "Não que esteja desaparecendo, mas está sendo desvalorizado. Hoje grande parte das matérias é apurada na redação. Por uma questão de custo as empresas estão deixando de investir. Isso compromete a qualidade da informação. Para o público seria interessante que o repórter fosse pessoalmente aos locais", afirma.

“O SENTIMENTO DE IMPUNIDADE
TENDE A SER ABOLIDO, BANIDO”


Além do furo no site “Estadão”, o repórter Fausto Macedo também é autor de entrevista com o ministro Marco Aurélio Mello (foto), do Supremo Tribunal Federal, publicada na edição de 13 de fevereiro do jornal. O magistrado afirmou que o governador fica preso pelo flagrante do suborno. Eis algumas importantes declarações do magistrado (várias delas vão ao encontro dos anseios da sociedade brasileira, indignada com tantos absurdos):

“Eu nunca me defrontei com situação tão extravagante envolvendo quem envolveu e com esse alcance de se tentar interferir num depoimento que seria prestado na polícia. Tivemos governadores presos e cassados na época do regime de exceção, mas não por corrupção. Aqui é corrupção de testemunha. É corrupção”.

“O que mais me convenceu da necessidade de manter o governador na prisão? A filmagem, a passagem do dinheiro e como tudo teria sido arquitetado. Pela tentativa de obstruir a investigação, corrupção de testemunha, partindo para a falsidade ideológica quanto a documentos. Estarreceu a mim porque no inquérito já se tem a problemática das filmagens e aí se verifica a marcha da insensatez, a repetição do mesmo erro. É subestimar a inteligência alheia, as instituições pátrias”.

“O País atravessa uma quadra de abandono a princípios, perda de parâmetros, inversão de valores, de dar o dito pelo não dito, o certo pelo errado e vice-versa. Mas há o outro lado. A balança da vida tem dois pratos. Há o prato que sopesa coisas boas, o horizonte, o amanhã em busca de lisura quanto à coisa pública e, portanto, o afastamento da impunidade para que todos estejam atentos e observem as regras estabelecidas. A sociedade não tolera mais é o escamoteamento, a mesmice. A sociedade cobra uma prestação de contas”.

“Tenho sentimentos conflitantes, de um lado por perceber o envolvimento do governador, de uma pessoa que estava à frente do Distrito Federal, de outro lado por perceber o episódio como alvissareiro porque revela que as instituições estão funcionando, a Polícia Federal, o Ministério Público e o Judiciário. O sentimento de impunidade tende a ser abolido, banido. O exemplo vem de cima, não é?”

“É uma cultura enraizada, uma percepção errônea quanto à coisa pública que pertence a todos. Não pertence àquele que está no cargo e aí se paga o preço por se viver numa democracia e esse preço é módico, é o respeito às regras estabelecidas. Toda vez que alguém é surpreendido numa prática discrepante da normalidade a tendência é os demais ficarem atentos, colocarem as barbas de molho, manter freios inibitórios intensos, mais rígidos”.

“Os autos trazem evidências graves da prática de crimes. Que se apure tudo e prevaleça o bom direito, considerada a verdade real. Quando assumi a presidência do Tribunal Superior Eleitoral, em 2006, eu disse que o Brasil precisa deixar de ser um país de faz de conta. É isso aí. Se cada qual fizer a sua parte deixaremos um Brasil melhor para nossos descendentes”.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

A homenagem a Orlando, um dos heróis da Copa de 58


Orlando Peçanha se foi nesta segunda-feira, 10 de fevereiro. Aos 74 anos, vítima de parada cardíaca, no Rio. Sem nenhum exagero, o Brasil perdeu mais um importante remanescente da Seleção Brasileira campeã mundial de 1958, na Suécia. Nascido em 20 de setembro de 1935, em Niterói, Orlando foi titular absoluto da equipe do técnico Vicente Feola. A Seleção de 58 ficou marcada pela presença de alguns dos melhores jogadores brasileiros de todos os tempos. Além de reunir Pelé e Garrincha, a equipe contava com os talentos de Didi, Nilton Santos e Djalma Santos, frequentemente na lista dos maiores da história do futebol.

Eu era jovem ainda quando convivi com Orlando Peçanha, em 1966, nos preparativos do Brasil para a Copa do Mundo da Inglaterra. À época, eu era repórter do Diário Popular (hoje, Diário de São Paulo). Estive com Orlando inicialmente no Rio, durante os exames médicos da Seleção.

Na foto, estou à direita, ao lado de Orlando. E ao lado de Orlando estão Fontana, o capitão Hideraldo Luís Bellini, o atacante Flávio, e ele, Pelé. Acompanhei Orlando & Cia. depois, em Serra Negra (SP), onde o grupo ficou concentrado no Hotel Pavani e disputou alguns jogos-treinos na cidade. E, um pouco depois, em Teresópolis (RJ), antes do embarque do grupo para a Europa.

As lembranças daquele período não são boas. Foram convocados 47 jogadores e a fase de preparação foi um autêntico desastre. Quatro times, ninguém entendia ninguém e todos os jogadores só tinham um objetivo: garantir um lugar na delegação que iria à Copa.

Afinal, a comissão técnica comandada pelo técnico Vicente Feola exagerou em tudo, em treinos, amistosos e em atletas. Era tanta gente em campo que ficava impossível o controle. Havia o time amarelo, o verde, o azul e o branco. Em cada amistoso jogava um time. O grupo andou também pelas estâncias climáticas mineiras de Lambari e Caxambu. Em todos os lugares, a população saia atrás da Seleção à cata de autógrafos. Resultado, ainda, do sucesso da conquista dos títulos mundiais de 58 e 62.

O sonho da torcida era ver o Brasil tricampeão na Inglaterra, mas a participação da Seleção foi um fracasso. Neste blog conto mais sobre essa participação na crônica “O fracasso em Liverpool”. Nesse Mundial, Orlando sofreu sua única derrota em 34 partidas pela seleção: 3 a 1 para Portugal, jogo que eliminou o Brasil da competição. Orlando (acima, em foto da final de 58, contra a Suécia) obteve estes títulos pela Seleção: além da Copa do Mundo de 1958, a Taça Bernardo O'Higgins, em 1959, e a Taça Atlântico, em 1960.


Orlando Peçanha de Carvalho foi um dos grandes zagueiros da história do futebol brasileiro. Elogiado por sua aplicação, força física e capacidade de antecipação, formou com Bellini uma grande dupla de zaga no Vasco e na Seleção. Acima, Orlando, Mazzola e Feola após a vitória sobre a Áustria, por 3 a 0. Abaixo, o time campeão de 58. Em pé, Feola, Djalma Santos, Zito, Bellini, Nilton Santos, Orlando e Gilmar. Agachados: Garrincha, Didi, Pelé, Vavá, Zagallo e o preparador físico Paulo Amaral.


Nos clubes, marcou época no Vasco, foi ídolo no Boca Juniors, da Argentina, e retornou ao futebol brasileiro pelo Santos, onde atuou até 1969. Na Vila Belmiro, reencontrou companheiros do Mundial da Suécia: Gilmar, Zito, Pepe… e Pelé. Encerrou a carreira no Vasco em 1970, clube onde começou no futebol, nos juvenis. Foi promovido para o elenco principal em 1954, no processo de renovação do time que saia da fase de ouro chamada de “Expresso da Vitória”.

No Vasco, Orlando foi campeão carioca em 1956 e 1958. Em 1960, transferiu-se para o Boca Juniors, onde jogou ao lado de outros brasileiros como Almir, Dino Sani, Maurinho e Paulo Valentim.

Logo se tornou ídolo da torcida pelo seu vigor físico e pela liderança, fazendo nos clássicos contra o River Plate um duelo inesquecível com outro brasileiro e também ex-vascaíno, Delém. Com o Boca, Orlando foi campeão argentino em 1962 e 1964. Mostrou sua categoria, mas a transferência para o Exterior acabou impedindo sua convocação para a Copa de 1962, perdendo a chance de ser bicampeão mundial no Chile. Na época, atletas brasileiros que atuavam no exterior não eram convocados para a Seleção.

Orlando foi campeão em todos os clubes onde jogou. Uma carreira que ganhou a justa homenagem com a inclusão do seu nome na calçada da fama do Maracanã. Era casado há 51 anos com Marlene Dias Peçanha. Deixou três filhas: Suzy, que mora no Rio; Soraia, que vive na França; e Sandra, que reside no Kuwait.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

A história (verídica) de um Barbalho decapitado














O Brasil colonial à época da "Revolta de Barbalho".


Jáder Barbalho entrou para a história do Brasil como um político desonesto na presidência do Senado. Ao contrário dele, há heróis com o mesmo sobrenome que até a vida deram pelo País e são importantes exemplos para as gerações futuras. Um deles é o desconhecido Jerônimo Barbalho.

Muito antes de Joaquim José da Silva Xavier (Tiradentes) ser enforcado, em 21 de abril de 1792, em Minas Gerais, o líder rebelde Jerônimo Barbalho foi condenado à morte e executado em 6 de abril de 1661, em Niterói. Decapitado, teve sua cabeça exposta ao público no pelourinho para servir de exemplo e desencorajar qualquer outra tentativa de insubordinação ao governador da Capitania do Rio de Janeiro.

Primeiro movimento popular contra os abusos cometidos por autoridades representativas da Metrópole e de Portugal na colônia, iniciativa pouco conhecida e praticamente ignorada na história do Brasil, a “Revolta de Barbalho”, constitui um marco no longo processo de falta de identificação entre os interesses dos colonos e o das autoridades. O episódio também é lembrado como a “Revolta da Cachaça” e consta da história dessa bebida brasileira mundialmente conhecida.

PRIMEIRA REVOLUÇÃO POPULAR
CONTRA ABUSOS DAS AUTORIDADES


Tudo começou em 2 de novembro de 1660, onde hoje é Niterói. Os moradores da freguesia de São Gonçalo se rebelaram contra o pagamento de um imposto per capita lançado pelo governador Salvador Correia de Sá, da Capitania do Rio de Janeiro, com a finalidade específica de saldar os nove meses de soldos atrasados devidos aos soldados da guarnição da vila.

Liderados pelo fazendeiro e produtor de cachaça Jerônimo Barbalho e aproveitando a ausência do governador, sobrinho de Mem de Sá, que cumpria uma viagem de reconhecimento às minas de Paranaguá, no Paraná, 112 senhores de engenho pegaram nas armas e proclamaram que não tolerariam mais a governança "por causa das muitas taxas, impostos e tiranias com que ele aterroriza este extenuado povo".

Assim, a rebelião dos moradores de São Gonçalo foi a primeira revolta popular contra os abusos cometidos por autoridades representativas da Metrópole na colônia. Foram 112 os cidadãos que assinaram o auto que depôs o governador Salvador Correia e seu primo Tomé Correia de Sá nos dias que se seguiram à rebelião, o que resultou no estabelecimento do primeiro governo "independente" na colônia.

O início da trama remonta ao tempo em que o terceiro governador-geral do Brasil, Mem de Sá, consolidou a conquista da baía de Guanabara, no século XVI. Expulsos os franceses e subjugados os tamoios, o governador Mem de Sá deixou o seu sobrinho Salvador Correia de Sá, como representante seu na nova capitania do rei. Ao longo do século a família se sucedeu no cargo e exerceu mais poder, autoridade e influência do que muitos donatários de capitanias que não eram totalmente controladas pela Coroa.

Após a morte do velho Salvador, seu filho Martim de Sá governou a capitania durante vários períodos. Enquanto isso, outros membros da família, os Correias e os Sás, ocupavam posições administrativas de menor destaque. Ao longo da primeira metade do século XVII, os Correias de Sá enriqueceram graças aos serviços prestados à Coroa nos dois lados do Atlântico e à custa dos cargos oficiais exercidos.

Quando o filho de Martim, Salvador Correia de Sá e Benavides, chegou ao Rio de Janeiro, em abril de 1659, para exercer seu terceiro mandato como governador na condição de general da frota do Brasil e capitão-geral do sul, era o homem mais rico da capitania. Contabilizava uma vasta fortuna em terras e canaviais e era proprietário de mais de 700 escravos, entre negros da terra e de Angola.

REBELIÃO ATRAVESSA A BAÍA
E ALCANÇA O RIO DE JANEIRO


A rebelião dos produtores de cana-de-açúcar liderada por Jerônimo Barbalho atravessou a baía de Guanabara e alcançou a vila de São Sebastião do Rio de Janeiro, em uma clara demonstração do descontentamento dos habitantes com a má administração de recursos e os métodos despóticos utilizados pela oligarquia dos Correias de Sá no trato da coisa pública.

Em 8 de novembro de 1660, o povo em armas e a guarnição – que aderiu à causa em troca do pagamento dos soldos atrasados –, iniciaram o saque das casas dos súditos mais abastados da vila, inclusive a de Salvador. Todos os Correias foram destituídos de seus cargos e o irmão de Jerônimo, Agostinho Barbalho, assumiu o cargo de governador da Capitania do Rio de Janeiro.

Filho de Luís Bezerra Barbalho, Agostinho Barbalho, militar, nasceu em Pernambuco, em 1629. Perseguiu os corsários que infestavam as costas do Brasil. Viajante, ele foi donatário da Capitania de Santa Catarina e organizou uma expedição para descobrir minas e esmeraldas no Espírito Santo, cujas regiões explorou sem resultados. Contribuiu para o conhecimento geográfico de várias regiões ignoradas até então. Foi nomeado administrador das Minas do Brasil por D. Afonso VI em 1664. Morreu entre l667 e 1670. O pai de Agostinho e Jerônimo, Luís Bezerra Barbalho, um verdadeiro guerrilheiro, teve importante participação na expulsão dos holandeses do Brasil(em breve também tentarei contar a história desse personagem).

AMOTINADOS DECLARAM
FIDELIDADE AO REI DE PORTUGAL


Em sua proclamação, os amotinados liderados por Jerônimo Barbalho declararam fidelidade ao rei de Portugal, D. Afonso VI, e exigiam que se fizesse um rigoroso exame das contas públicas para verificar por que as fontes de renda da Coroa eram insuficientes para efetuar o pagamento da guarnição. Pediram, também, o restabelecimento da taxa cobrada sobre o vinho, que havia sido abolida por Salvador, e a redução do número de funcionários da guarnição e de signatários da Igreja mantidos pelos cofres locais. Eles combateram uma proibição da Metrópole referente à produção de cachaça na colônia..

Poucos dias depois, vários parentes do governador ausente, inclusive seu primo Tomé Correia, governador interino, foram detidos e embarcados para Portugal. Os amotinados de Barbalho juntaram à bagagem dos presos uma longa lista de acusações contra a família.

REBELDES ARROLAM ACUSAÇÕES
CONTRA A FAMÍLIA CORREIA DE SÁ


Os rebeldes arrolaram 38 acusações que pesavam contra Salvador Correia, sendo estas as mais graves, de acordo com o livro "Salvador de Sá e a luta pelo Brasil e Angola 1602-1686", de Charles R. Boxer, (Ed. Nacional/Edusp, 1973, pág 328):

* "Em chegando ao Rio de Janeiro com a frota do Brasil em 1659, funcionou ele como governador até a ida para a Bahia, dois meses depois, embora durante esse tempo Tomé Correia, seu primo, continuasse a auferir o seu rendimento, como governador.

* Forçou os cidadãos e os fazendeiros a lhe fornecerem braços escravos, madeiras e bois para a construção do galeão Padre Eterno na Ilha do Governador , desflorestando-lhes as terras e compelindo-os a trabalhar em seu galeão, quando deviam estar em seus engenhos moendo cana.

* Abusou de seus poderes, imiscuindo-se arbitrariamente na vida dos comerciantes e dos donos de navios, providenciando a cobrança de dízimos do açúcar e da taxa sobre o sal pelos seus próprios agentes e restabelecendo a fabricação e a venda de aguardente, que tinham sido proibidas pela Coroa.

* Possuindo grandes rebanhos de gado bovino, tentava monopolizar o mercado da carne e compelir os açougueiros a venderem somente a procedente de suas pastagens.

* Fazendo uso da força, ou de trapaças, havia se tornado o maior proprietário territorial e o mais abastado senhor dos escravos de todo o Brasil.

* Tinha instituído muitas taxas ilegais e coagido o administrador a entregar certa soma de dinheiro aos jesuítas.”

Salvador Correia de Sá foi acusado, também, de ser responsável pelo assassinato de um mineiro espanhol em Paranaguá, no Paraná, de instalar mesas de jogo em sua casa, das quais os moradores da região saíam depenados, além de malversar e dilapidar o dinheiro público e de realizar fraudes em larga escala junto com seus principais cúmplices e parentes, Tomé Correia de Alvarenga e Pedro de Souza Pereira.

Em fevereiro de 1961, uma junta de conselheiros eleita pelos súditos da vila liderada por Jerônimo Barbalho assumiu o governo, três meses após o inicio da rebelião. O objetivo final dos revoltosos era "evitar que Salvador Correia de Sá ou qualquer pessoa de sua família fossem escolhidos para ocupar qualquer cargo no Brasil, não se permitindo também para que lá pudessem voltar".

SALVADOR REASSUME, EXECUTA BARBALHO
E EXPÕE SUA CABEÇA EM PRAÇA PÚBLICA


A ausência de reação por parte das autoridades da Bahia e de Lisboa levou os rebeldes a crer que a expulsão do governador do Rio de Janeiro era fato consumado. Mas, antes do amanhecer do dia 6 de abril de 1661, Salvador Correia de Sá chegou de Paranaguá, entrou na cidade e ocupou seus principais pontos fortificados. No mesmo dia em que retomou o controle da cidade, convocou uma corte marcial para julgar os rebeldes.

Jerônimo Barbalho foi preso, condenado à morte e decapitado ao anoitecer de 6 de abril de 1661, cinco meses após tomar o poder. Como aconteceu com Tiradentes 131 anos mais tarde, sua cabeça foi exposta ao público na frente do Convento de Santo Antônio, na vila de Niterói para servir de exemplo e desencorajar qualquer outra tentativa de insubordinação. Os demais participantes foram perdoados pelo governador, mas os membros da junta eleita que governou a cidade foram presos e enviados para a Bahia, onde foram julgados.

A “Revolta de Barbalho”, um movimento pouco conhecido ou citado na história do Brasil constitui um marco no longo processo de desidentificação entre os interesses dos colonos e o das autoridades metropolitanas e seus representantes na colônia.


JERÔNIMO BARBALHO PAGOU
COM A VIDA, MAS FOI VITORIOSO


Os rebeldes liderados por Jerônimo Barbalho ficaram no poder por cinco meses. Durante esse tempo, governaram a cidade sem interferência do governador da Bahia e das autoridades metropolitanas. Mas se os amotinados ficaram pouco tempo no poder, em longo prazo saíram vitoriosos, apesar do sacrifício de Jerônimo Barbalho. Isso porque nenhuma das taxas impostas por Salvador Correia de Sá foi reinstituída e, mais importante ainda, nenhuma pessoa da família Correia de Sá voltou a ocupar o cargo de governador no Brasil.

A Coroa manteve o embargo dos bens de Salvador Correia de Sá decretado pela junta rebelde liderada por Jerônimo Barbalho e ajudou a colocar um ponto final nos abusos cometidos pela oligarquia dos Correias de Sá na capitania do Rio de Janeiro.


Assim era produzida a cachaça em 1.600.









Fontes: Adriana Lopez, historiadora, em D.O. Leitura, publicação da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo (Ano 18, nº 3, março de 2000) e "Salvador de Sá e a luta pelo Brasil e Angola 1602-1686", de Charles R. Boxer, (Ed. Nacional/Edusp, 1973, pág 328).