
Argel, 1974. Aquela correria rotineira de cobertura da Seleção Brasileira. Cheguei do Brasil, era começo de excursão. Encontro o Zé Maria de Aquino (foto) nas ruas estreitas da capital da Argélia. Zé vinha nem-sei-de-onde, realizando alguma reportagem especial para a revista Placar. Foi escalado para acompanhar a viagem dos pupilos de Zagallo. Nem tinha reserva de hotel. Tentou conseguir um lugar para descansar, sem sucesso, pois todos os hotéis estavam lotados. Fomos juntos ao treino da seleção. Jantamos com uma turma grande de jornalistas e ouvimos muitas histórias, repletas de detalhes, contadas pelo “senador” Mauro Pinheiro, saudoso comentarista da Rádio Bandeirantes. Só então eu soube que naquela noite o Zé Maria era um “sem-teto”. Eu e meu companheiro de quarto de hotel o “escalamos” e ele foi dormir no tapete, no pequeno espaço compreendido entre uma cama e outra.
Como essa, há inúmeras histórias que marcam a nossa amizade. Estivemos juntos em um amplo Congresso Mundial da AIPS (Associação Internacional de Imprensa Esportiva). Foi em 1982, em Paris. Circulamos sem parar por todos os cantos da capital francesa, onde já havíamos estado várias vezes, sempre explorando o excelente metrô parisiense. Antes do congresso, fomos a Londres em uma ótima viagem de trem, atravessando o Canal da Mancha. Londres, para nós, não era novidade. Mas esse tipo de viagem, sim. Tivemos como companheiros de congresso Flávio Iazzetti, Aroldo Chiorino e Flávio Adauto. Zé e eu trabalhamos juntos no período de 82 a 90, no Estadão. E durante anos, lutamos pela classe, tanto na Aceesp (Associação dos Cronistas Esportivos do Estado de São Paulo) quanto na Abrace (a associação brasileira), sempre com Adauto, Iazzetti, Chiorino e tantos outros.

Em um encontro na Aceesp, eu, Otávio Muniz e Zé Maria de Aquino.
Competente jornalista, José Maria de Aquino iniciou na profissão em 1966, no Jornal da Tarde. Formou uma dupla de sucesso com o repórter Vital Battaglia. No seu primeiro número, o “JT” deu a seguinte matéria de capa: “Pelé casa no Carnaval”. Furo nacional da dupla (no jargão jornalístico, furo é notícia inédita). Zé e Bataglia fizeram a cobertura do casamento de Pelé com Rose, na igreja do Embaré, Santos, em pleno domingo de Carnaval. Eu também. Na época, era repórter do Diário Popular. Jovem, fui ao baile de sábado, no bairro Cidade Vargas, zona sul de São Paulo, e de lá segui direto para Santos.
Zé Maria conquistou Premio Esso de 1968 (com Michel Laurence). Foi repórter da Placar entre 1970 e 1982. Conquistou dois prêmios Editora Abril. Atuou como repórter do Estadão entre 82 e 90. Foi chefe de reportagem da TV Globo, comentarista da Copa 82, cobriu três Olimpíadas e quatro Copas do Mundo. Atua na Tv-Terra e na RBTV.
É do Zé Maria o texto abaixo. Ele postou no seu blog, homenageando a cidade de São Paulo, que comemora 456 anos. Vale a pena acompanhar.

SAUDADE DO BONDE CAMARÃO E DA GAROA
Era verão, 06 de janeiro, lá se vão 59 anos, quando cheguei, moleque, maleta na mão, à cidade grande.
Não me assustei. São Paulo era tranquila. Bondes nos trilhos, chapéu na cabeça dos senhores, guarda-chuva pendurado no braço, paletó e gravata. Olhar de cobiça nos joelhos das moças quando tomavam embalo para subir. Era tudo que se permitiam.
Era verão, mas logo veio o outono de céu limpo, brisa suave, mulheres bem vestidas, lenços de seda no pescoço, saias no meio das canelas.
E em seguida o inverno, severo, forte, e a garoa que castigava, fazia doer os ossos, endurecer os pés, obrigar o uso de luvas, pensar três vezes antes de virar a esquina. As rádios informavam mortes de mendigos que não conseguiam abrigo.
Sua população era infinitamente menor, assim como seus problemas. Mas seus braços acolhedores já eram enormes, de gigante, assim como a cidade se tornaria.
Deixei que ela me acolhece, sem me engolir. Aprendi, acompanhando seu ritmo, a ser um dos seus muitos filhos, criando, mais tarde, os meus. Ensinando a eles seus segredos: não parar nunca, trabalhar sempre, saber que ela não dá nada, mas oferece tudo, o mais importante: a oportunidade.
São Paulo comemora 456 anos. É uma criança robusta que cresceu demais, desordenada, e se espreme nas roupas apertadas. Perdeu a garoa que a adjetivava, tornou-se mais dura, nervosa, violenta, mas seus braços continuam abertos, acolhedores.
Outro dia li que 57% das pessoas que aqui vivem gostariam de deixá-la. Não acredito. Não quero acreditar. Não posso. São pessoas que nunca viveram em outros lugares, que por ela ser acolhedora esperam receber ao invés de buscar. Ou a pesquisa foi feita no momento do rush, da descarga de adrenalina, do estresse no trânsito.
Só pode ser.
Façam outra pesquisa meia hora depois. Quando os dedos dos pés estiverem livres dos sapatos que apertam, depois do abraço dos filhos que esperam na porta da casa ou do casebre e verão a diferença. Ouvirão as pessoas cantando uma velha marchinha de carnaval que dizia: "daqui não saio, daqui ninguém me tira…"
Como faço agora, para dizer, mais uma vez, muito obrigado, São Paulo.








