
O Brasil colonial à época da "Revolta de Barbalho".
Jáder Barbalho entrou para a história do Brasil como um político desonesto na presidência do Senado. Ao contrário dele, há heróis com o mesmo sobrenome que até a vida deram pelo País e são importantes exemplos para as gerações futuras. Um deles é o desconhecido Jerônimo Barbalho.
Muito antes de Joaquim José da Silva Xavier (Tiradentes) ser enforcado, em 21 de abril de 1792, em Minas Gerais, o líder rebelde Jerônimo Barbalho foi condenado à morte e executado em 6 de abril de 1661, em Niterói. Decapitado, teve sua cabeça exposta ao público no pelourinho para servir de exemplo e desencorajar qualquer outra tentativa de insubordinação ao governador da Capitania do Rio de Janeiro.
Primeiro movimento popular contra os abusos cometidos por autoridades representativas da Metrópole e de Portugal na colônia, iniciativa pouco conhecida e praticamente ignorada na história do Brasil, a “Revolta de Barbalho”, constitui um marco no longo processo de falta de identificação entre os interesses dos colonos e o das autoridades. O episódio também é lembrado como a “Revolta da Cachaça” e consta da história dessa bebida brasileira mundialmente conhecida.
PRIMEIRA REVOLUÇÃO POPULAR
CONTRA ABUSOS DAS AUTORIDADES
Tudo começou em 2 de novembro de 1660, onde hoje é Niterói. Os moradores da freguesia de São Gonçalo se rebelaram contra o pagamento de um imposto per capita lançado pelo governador Salvador Correia de Sá, da Capitania do Rio de Janeiro, com a finalidade específica de saldar os nove meses de soldos atrasados devidos aos soldados da guarnição da vila.
Liderados pelo fazendeiro e produtor de cachaça Jerônimo Barbalho e aproveitando a ausência do governador, sobrinho de Mem de Sá, que cumpria uma viagem de reconhecimento às minas de Paranaguá, no Paraná, 112 senhores de engenho pegaram nas armas e proclamaram que não tolerariam mais a governança "por causa das muitas taxas, impostos e tiranias com que ele aterroriza este extenuado povo".
Assim, a rebelião dos moradores de São Gonçalo foi a primeira revolta popular contra os abusos cometidos por autoridades representativas da Metrópole na colônia. Foram 112 os cidadãos que assinaram o auto que depôs o governador Salvador Correia e seu primo Tomé Correia de Sá nos dias que se seguiram à rebelião, o que resultou no estabelecimento do primeiro governo "independente" na colônia.
O início da trama remonta ao tempo em que o terceiro governador-geral do Brasil, Mem de Sá, consolidou a conquista da baía de Guanabara, no século XVI. Expulsos os franceses e subjugados os tamoios, o governador Mem de Sá deixou o seu sobrinho Salvador Correia de Sá, como representante seu na nova capitania do rei. Ao longo do século a família se sucedeu no cargo e exerceu mais poder, autoridade e influência do que muitos donatários de capitanias que não eram totalmente controladas pela Coroa.
Após a morte do velho Salvador, seu filho Martim de Sá governou a capitania durante vários períodos. Enquanto isso, outros membros da família, os Correias e os Sás, ocupavam posições administrativas de menor destaque. Ao longo da primeira metade do século XVII, os Correias de Sá enriqueceram graças aos serviços prestados à Coroa nos dois lados do Atlântico e à custa dos cargos oficiais exercidos.
Quando o filho de Martim, Salvador Correia de Sá e Benavides, chegou ao Rio de Janeiro, em abril de 1659, para exercer seu terceiro mandato como governador na condição de general da frota do Brasil e capitão-geral do sul, era o homem mais rico da capitania. Contabilizava uma vasta fortuna em terras e canaviais e era proprietário de mais de 700 escravos, entre negros da terra e de Angola.
REBELIÃO ATRAVESSA A BAÍA
E ALCANÇA O RIO DE JANEIRO
A rebelião dos produtores de cana-de-açúcar liderada por Jerônimo Barbalho atravessou a baía de Guanabara e alcançou a vila de São Sebastião do Rio de Janeiro, em uma clara demonstração do descontentamento dos habitantes com a má administração de recursos e os métodos despóticos utilizados pela oligarquia dos Correias de Sá no trato da coisa pública.
Em 8 de novembro de 1660, o povo em armas e a guarnição – que aderiu à causa em troca do pagamento dos soldos atrasados –, iniciaram o saque das casas dos súditos mais abastados da vila, inclusive a de Salvador. Todos os Correias foram destituídos de seus cargos e o irmão de Jerônimo, Agostinho Barbalho, assumiu o cargo de governador da Capitania do Rio de Janeiro.
Filho de Luís Bezerra Barbalho, Agostinho Barbalho, militar, nasceu em Pernambuco, em 1629. Perseguiu os corsários que infestavam as costas do Brasil. Viajante, ele foi donatário da Capitania de Santa Catarina e organizou uma expedição para descobrir minas e esmeraldas no Espírito Santo, cujas regiões explorou sem resultados. Contribuiu para o conhecimento geográfico de várias regiões ignoradas até então. Foi nomeado administrador das Minas do Brasil por D. Afonso VI em 1664. Morreu entre l667 e 1670. O pai de Agostinho e Jerônimo, Luís Bezerra Barbalho, um verdadeiro guerrilheiro, teve importante participação na expulsão dos holandeses do Brasil(em breve também tentarei contar a história desse personagem).
AMOTINADOS DECLARAM
FIDELIDADE AO REI DE PORTUGAL
Em sua proclamação, os amotinados liderados por Jerônimo Barbalho declararam fidelidade ao rei de Portugal, D. Afonso VI, e exigiam que se fizesse um rigoroso exame das contas públicas para verificar por que as fontes de renda da Coroa eram insuficientes para efetuar o pagamento da guarnição. Pediram, também, o restabelecimento da taxa cobrada sobre o vinho, que havia sido abolida por Salvador, e a redução do número de funcionários da guarnição e de signatários da Igreja mantidos pelos cofres locais. Eles combateram uma proibição da Metrópole referente à produção de cachaça na colônia..
Poucos dias depois, vários parentes do governador ausente, inclusive seu primo Tomé Correia, governador interino, foram detidos e embarcados para Portugal. Os amotinados de Barbalho juntaram à bagagem dos presos uma longa lista de acusações contra a família.
REBELDES ARROLAM ACUSAÇÕES
CONTRA A FAMÍLIA CORREIA DE SÁ
Os rebeldes arrolaram 38 acusações que pesavam contra Salvador Correia, sendo estas as mais graves, de acordo com o livro "Salvador de Sá e a luta pelo Brasil e Angola 1602-1686", de Charles R. Boxer, (Ed. Nacional/Edusp, 1973, pág 328):
* "Em chegando ao Rio de Janeiro com a frota do Brasil em 1659, funcionou ele como governador até a ida para a Bahia, dois meses depois, embora durante esse tempo Tomé Correia, seu primo, continuasse a auferir o seu rendimento, como governador.
* Forçou os cidadãos e os fazendeiros a lhe fornecerem braços escravos, madeiras e bois para a construção do galeão Padre Eterno na Ilha do Governador , desflorestando-lhes as terras e compelindo-os a trabalhar em seu galeão, quando deviam estar em seus engenhos moendo cana.
* Abusou de seus poderes, imiscuindo-se arbitrariamente na vida dos comerciantes e dos donos de navios, providenciando a cobrança de dízimos do açúcar e da taxa sobre o sal pelos seus próprios agentes e restabelecendo a fabricação e a venda de aguardente, que tinham sido proibidas pela Coroa.
* Possuindo grandes rebanhos de gado bovino, tentava monopolizar o mercado da carne e compelir os açougueiros a venderem somente a procedente de suas pastagens.
* Fazendo uso da força, ou de trapaças, havia se tornado o maior proprietário territorial e o mais abastado senhor dos escravos de todo o Brasil.
* Tinha instituído muitas taxas ilegais e coagido o administrador a entregar certa soma de dinheiro aos jesuítas.”
Salvador Correia de Sá foi acusado, também, de ser responsável pelo assassinato de um mineiro espanhol em Paranaguá, no Paraná, de instalar mesas de jogo em sua casa, das quais os moradores da região saíam depenados, além de malversar e dilapidar o dinheiro público e de realizar fraudes em larga escala junto com seus principais cúmplices e parentes, Tomé Correia de Alvarenga e Pedro de Souza Pereira.
Em fevereiro de 1961, uma junta de conselheiros eleita pelos súditos da vila liderada por Jerônimo Barbalho assumiu o governo, três meses após o inicio da rebelião. O objetivo final dos revoltosos era "evitar que Salvador Correia de Sá ou qualquer pessoa de sua família fossem escolhidos para ocupar qualquer cargo no Brasil, não se permitindo também para que lá pudessem voltar".
SALVADOR REASSUME, EXECUTA BARBALHO
E EXPÕE SUA CABEÇA EM PRAÇA PÚBLICA
A ausência de reação por parte das autoridades da Bahia e de Lisboa levou os rebeldes a crer que a expulsão do governador do Rio de Janeiro era fato consumado. Mas, antes do amanhecer do dia 6 de abril de 1661, Salvador Correia de Sá chegou de Paranaguá, entrou na cidade e ocupou seus principais pontos fortificados. No mesmo dia em que retomou o controle da cidade, convocou uma corte marcial para julgar os rebeldes.
Jerônimo Barbalho foi preso, condenado à morte e decapitado ao anoitecer de 6 de abril de 1661, cinco meses após tomar o poder. Como aconteceu com Tiradentes 131 anos mais tarde, sua cabeça foi exposta ao público na frente do Convento de Santo Antônio, na vila de Niterói para servir de exemplo e desencorajar qualquer outra tentativa de insubordinação. Os demais participantes foram perdoados pelo governador, mas os membros da junta eleita que governou a cidade foram presos e enviados para a Bahia, onde foram julgados.
A “Revolta de Barbalho”, um movimento pouco conhecido ou citado na história do Brasil constitui um marco no longo processo de desidentificação entre os interesses dos colonos e o das autoridades metropolitanas e seus representantes na colônia.
JERÔNIMO BARBALHO PAGOU
COM A VIDA, MAS FOI VITORIOSO
Os rebeldes liderados por Jerônimo Barbalho ficaram no poder por cinco meses. Durante esse tempo, governaram a cidade sem interferência do governador da Bahia e das autoridades metropolitanas. Mas se os amotinados ficaram pouco tempo no poder, em longo prazo saíram vitoriosos, apesar do sacrifício de Jerônimo Barbalho. Isso porque nenhuma das taxas impostas por Salvador Correia de Sá foi reinstituída e, mais importante ainda, nenhuma pessoa da família Correia de Sá voltou a ocupar o cargo de governador no Brasil.
A Coroa manteve o embargo dos bens de Salvador Correia de Sá decretado pela junta rebelde liderada por Jerônimo Barbalho e ajudou a colocar um ponto final nos abusos cometidos pela oligarquia dos Correias de Sá na capitania do Rio de Janeiro.

Assim era produzida a cachaça em 1.600.
Fontes: Adriana Lopez, historiadora, em D.O. Leitura, publicação da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo (Ano 18, nº 3, março de 2000) e "Salvador de Sá e a luta pelo Brasil e Angola 1602-1686", de Charles R. Boxer, (Ed. Nacional/Edusp, 1973, pág 328).


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