
Um furo mundial é algo raríssimo de acontecer, especialmente hoje, com a globalização das comunicações. Mas não é impossível. Exemplo disso foi o recente furo mundial dado pelo jornalista brasileiro Reginaldo Leme. Ele teve a primazia de anunciar que o piloto Nelsinho Piquet, instruído pelo chefe de equipe Flavio Briatore, da equipe Renault, provocou um acidente no GP de Cingapura de Fórmula-1 de 2008, para beneficiar o outro piloto da equipe, o espanhol Fernando Alonso.
Somente às vésperas de nova corrida em Cingapura Reginaldo Leme revelou a sua fonte: quem passou a informação foi o pai do piloto brasileiro, o tricampeão mundial Nelson Piquet. A revelação surgiu na sua coluna “Grand Prix”, publicada semanalmente no jornal O Estado de S. Paulo. Os detalhes:
“Já era tarde. Naquele fim de semana, de posse de todas as informações do processo que havia sido detonado ali mesmo em Spa-Francorchamps, eu contei o que sabia durante a transmissão da corrida. Uma emissora como a TV Globo jogando no ar a notícia da apuração do escândalo. Portanto, não tinha mais volta. Só restou à FIA confirmar a existência do processo e até acelerar a sua conclusão. Hoje já posso dizer que eu recebi a informação do próprio Piquet, assim como as outras que alimentaram o noticiário nas semanas seguintes. Tudo feito na maior correção. Eu preservei a fonte. Ele fez com que eu fosse o primeiro a saber de cada novo acontecimento. Quando a FIA decidiu banir Briatore, eu fui acordado por um telefonema do Nelson às 7h da manhã. O cara sempre acorda cedo e ainda contava com um fuso horário de cinco horas para a Europa.
Hoje, revendo tudo, considero extremamente importante o fato de ele nunca ter isentado Nelsinho de culpa. Mas, passada a perplexidade de quando ficou sabendo do caso, ele passou a agir como pai, tentando entender a reação do filho de 24 anos à época do incidente, acuado pelo chefe de equipe com o poder de demiti-lo ou renovar o contrato para 2009. A minha primeira reação quando ouvi a história contada pelo pai foi perguntar se ele sabia que a revelação deixaria em risco a carreira de Nelsinho. Ele tinha plena consciência disso. Mas não hesitou em exigir do filho que procurasse a FIA para contar a verdade. E foi assim que tudo começou”.
E toda a história acabou sendo reconfirmada por Nelson Piquet pai em entrevista exclusiva ao Reginaldo levada ao ar no "Fantástico" da Rede Globo.

Reginaldo (na foto com Nelson Piquet) acumulou conhecimento, experiência e respeito por sua competência e caráter ao longo dos anos de cobertura de Fórmula-1. Repórter do Estadão, ele foi designado pelo editor Luiz Carlos Ramos para acompanhar a carreira de um piloto brasileiro que começava a se destacar na categoria, no início da década de 70. E passou a “perseguir” Émerson Fittipaldi pelos circuitos europeus, depois Nelson Piquet e assim por diante. Estivemos juntos, ele pelo Estadão e eu pela Folha de S. Paulo, em várias coberturas, inclusive na Copa do Mundo da Alemanha, em 1974. Logo depois, acompanhamos o lançamento do primeiro e único F-1 brasileiro, o Coopersucar-Fittipaldi. Depois, eu deixei a reportagem para ser editor de esportes da Folha em 75 e Reginaldo transferiu-se para a Rede Globo em 78, onde está até hoje.

Ao longo dos anos de cobertura da Fórmula-1, Reginaldo conheceu muitas personalidades mundiais, como o saudoso beatle George Harrison, outro grande amante do automobilismo. Encontraram-se em muitas oportunidades em vários autódromos do circuito da F-1, como na foto acima.
"Regi" é de Campo Grande (MS) e nasceu em 3 de janeiro de 1948. Em recente entrevista a Carlos Guimarães, de Car Magazine, Reginaldo contou alguns detalhes de sua vida. Seu gosto pelas competições vem desde a infância, quando costumava brincar com carrinhos de rolimã. Também fazia questão de assistir a todas as corridas e esteve em várias edições do Salão do Automóvel, quando sonhava não apenas com os carros, mas em ser um dos pilotos que as fabricantes convidavam para visitar os estandes.
Depois de se formar em jornalismo, começou sua carreira aos 20 anos, no jornal O Estado de S. Paulo. “O meu primeiro objetivo ao cursar jornalismo era trabalhar com esporte, mas ao iniciar a carreira no Estadão, comecei a me dedicar ao automobilismo, que naquela época recebia muito pouca atenção nos jornais. As primeiras linhas que escrevi sobre automobilismo resultaram em uma pequena cobertura da prova 500 km de Interlagos de 1968. Foi pouca coisa, mas saiu publicado. E a corrida não tinha nenhuma atração internacional”.
Criança, sonhava em competir, mas nunca tentou. “Morando no interior, não existia chance de começar. Quando vim para São Paulo, já aluno de universidade, comecei a assistir a todas as corridas que podia. Mas o sonho era outro. Eu queria ser jornalista automobilístico. Lembro-me das diversas vezes em que fui ao Salão do Automóvel e procurava ficar perto dos pilotos que visitavam o evento como convidados das fábricas. Eu olhava para eles e sonhava em ser uma pessoa do meio. Há alguns anos, escrevi uma coluna contando isso e comemorando o fato de ter conseguido. O título era Cheguei na Turminha. É um dos textos de que mais gostei de escrever”.
Com mais de 30 anos de convivência com Galvão Bueno,Reginaldo já teve problemas com o narrador. “É claro que já brigamos muito. Em 30 anos juntos, é impossível não haver desentendimentos. Mas temos uma convivência muito boa. Eu sei do que ele gosta da falar e ele sabe as minhas preferências. Nós enxergamos as corridas de uma maneira muito parecida. Eu, com a obrigação de me aprofundar mais nas informações de bastidores; ele, com a necessidade de narrar e transmitir emoção. Aprendi a identificar quando ele não está disposto a falar sobre algum assunto e respeito isso. Temos uma infinidade de episódios juntos e um dia tudo isso estará num livro. Eu pretendo escrever o meu livro, não sei se ele vai fazer o dele. Mas também já conversamos sobre a idéia de lançar um juntos”.










