
BANQUETE É SERVIDO À BEIRA DE UM LAGO
PRÓXIMO A UMA CASCATA, EM PLENA SELVA AMAZÔNICA
Janeiro, 1984. Um ano de trabalho, estou pronto para entrar em férias. De repente, surge uma viagem internacional e sou convocado pelo editor-chefe do jornal O Estado de S. Paulo, Miguel Jorge (hoje ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio do governo Lula), para representar o jornal na inauguração de uma nova torre do gigantesco hotel Caracas Hilton International, na Venezuela. De acordo com informações do meu editor, Fran Augusti, a viagem seria de apenas sete dias e eu só teria de adiar o início das férias por uma semana. O material que eu produzisse seria publicado no Caderno de Turismo. Minha família, quase de malas prontas para uma viagem ao litoral, obviamente não recebeu muito bem a notícia. Mas, graças a essa missão inesperada, tive a oportunidade única de descobrir um lugar paradisíaco: o lago de Canaima e a fantástica cachoeira Angels Falls (Salto dos Anjos), cenários de uma verdadeira Ilha da Fantasia em plena selva amazônica venezuelense.

A visita a essa região, bem distante da capital venezuelana, estava reservada para os convidados especiais da inauguração do hotel Caracas Hilton e foi realizada no dia seguinte às festividades que incluíram um grande banquete que contou, inclusive, com a presença do presidente do país.
Um grande grupo de convidados deixou o hotel pela manhã e seguiu para o aeroporto em carros e vans luxuosas. Um DC-10 da Avensa os aguardava e partiu rumo a Canaima tão logo todos estavam acomodados. Outro DC-10 havia partido duas horas antes para o mesmo local, levando grande brigada de garçons, maitres, gerentes, cozinheiros e auxiliares que estavam encarregados de montar a recepção aos convidados na beira do lago.
Eles levaram muita comida, bebidas, gelo, aquecedores de alimentos, mesas, cadeiras, toalhas, talheres, louça, enfim, tudo o que é necessário para outro grande banquete. Montaram a comprida mesa, de toalhas, cadeiras e louça brancas ao longo de um gramado, debaixo de coqueiros, bem ao lado de uma praia de areia fina que margeava o lago. À distância, o Salto dos Anjos. Todos se vestiram de branco e prepararam bandejas, taças e champanhe para complementar a recepção. Cenário dos sonhos.
A primeira ideia que os convidados tiveram quando o avião pousou na modesta pista de Canaima, em plena selva de um dos parques nacionais da Venezuela, e as portas foram abertas, foi o da chegada ao cenário típico e conhecido de uma famosa série norte-americana de televisão: a Ilha da Fantasia (Fantasy Island).
No seriado criado em 1978 por Aaron Spelling e exibido pela Rede Globo nos anos 80, havia uma exótica ilha onde as fantasias se transformavam em realidade para ricos convidados, com a ajuda de um misterioso anfitrião, Mr. Roarke (interpretado pelo ator Ricardo Montalban), auxiliado pelo anão Tattoo (Hervé Villechaize), ambos sempre impecavelmente vestidos com smokings brancos. Afinal, a recepção aos convidados da cadeia Hilton, ainda na pista, foi absolutamente idêntica. O cenário, também. Com vestimentas brancas do pescoço aos pés, garçons e recepcionistas esticavam o braço, oferecendo coquetéis de todas as cores e espécies enquanto grupos rítmicos entoavam canções do Caribe. Enquanto isso, recepcionistas colocavam chapéus e colares em todos os visitantes. Enfim, um verdadeiro paraíso distante, a pouco mais de 1.100 quilômetros de Caracas, coberto em 1h10min. por jatos comerciais.

Esse paraíso é Canaima, ao Sul da Venezuela, perto da fronteira com o Brasil, no estado de Bolívar. Todos que vão a Canaima sempre são atraídos por uma das maiores riquezas naturais da Venezuela: o Salto dos Anjos (Angel Falls), catarata de 3.213 pés (979 metros), que divide com o Pico Bolívar, na Serra de Merida, as atenções de todos aqueles que querem conhecer o território venezuelano. Angel Falls é a mais alta queda-livre do mundo, com uma queda ininterrupta de 807 metros (2.648 pés).
Da pista de pouso, em uma clareira no meio da selva, ao lago de Canaima, foram pouco mais de mil metros, normalmente cobertos a pé pelos visitantes, em meio à rica vegetação tropical. O lago é formado pelos muitos saltos e quedas d’água da região. E suas margens formam, em determinado ponto, uma praia de coqueiros e palmeiras, com areia fina e clara, local onde o banquete foi servido. 
Próximo à praia há um hotel rústico e confortável com muitos chalés. Ele é o ponto de partida para passeios de barco no lago, para a aproximação com as quedas d’água e para excursões pela selva. Os convidados puderam ir pelo lago até as proximidades das cachoeiras. Mas quem quisesse ter uma visão panorâmica de Angel Falls tinha como opção um espetacular e irrecusável voo de helicóptero.
Canaima, um dos 26 parques nacionais da Venezuela e o sexto do mundo, tem mais de 3 milhões de hectares e está na região conhecida como Terras Altas de Guayana, onde nasce o rio Cauro e as cabeceiras de Caroní no montanhoso cenário da Sierra de Lema, de selvas impenetráveis. O clima é equatorial com fortes chuvas. A fauna é constituída por numerosas espécies de aves, répteis e mamíferos. Na selva, de plantas de incontáveis variedades, há mais de 500 espécies de orquídeas.
Além da lagoa de Canaima, lugar mais frequentado pelos turistas, o destaque é para Angel Falls, a magnífica catarata de difícil acesso. Desde o lago de Canaima, pode-se ir até perto do salto por meio de barcos. Primeiro por uma corrente mais ágil, depois por águas calmas. A parte final até debaixo das quedas, é feita por terra, nas matas quase sempre cobertas por neblina devido ao gigantesco volume de água que cai de uma altura de quase mil metros. Junto ao salto há uma cabana que serve de refúgio para quem resolve passar a noite no local. Angel Falls foi descoberto por um aviador norte-americano, Jimmy Angel, em 1937. O rio que produz a belíssima catarata é o Churún, que corre subterraneamente até chegar à beira do abismo. A queda d’água é de rara beleza, embora distante da magnitude de Foz do Iguaçu.









