sexta-feira, 31 de julho de 2009

Repórter descobre a Ilha da Fantasia



BANQUETE É SERVIDO À BEIRA DE UM LAGO
PRÓXIMO A UMA CASCATA, EM PLENA SELVA AMAZÔNICA



Janeiro, 1984. Um ano de trabalho, estou pronto para entrar em férias. De repente, surge uma viagem internacional e sou convocado pelo editor-chefe do jornal O Estado de S. Paulo, Miguel Jorge (hoje ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio do governo Lula), para representar o jornal na inauguração de uma nova torre do gigantesco hotel Caracas Hilton International, na Venezuela. De acordo com informações do meu editor, Fran Augusti, a viagem seria de apenas sete dias e eu só teria de adiar o início das férias por uma semana. O material que eu produzisse seria publicado no Caderno de Turismo. Minha família, quase de malas prontas para uma viagem ao litoral, obviamente não recebeu muito bem a notícia. Mas, graças a essa missão inesperada, tive a oportunidade única de descobrir um lugar paradisíaco: o lago de Canaima e a fantástica cachoeira Angels Falls (Salto dos Anjos), cenários de uma verdadeira Ilha da Fantasia em plena selva amazônica venezuelense.


A visita a essa região, bem distante da capital venezuelana, estava reservada para os convidados especiais da inauguração do hotel Caracas Hilton e foi realizada no dia seguinte às festividades que incluíram um grande banquete que contou, inclusive, com a presença do presidente do país.

Um grande grupo de convidados deixou o hotel pela manhã e seguiu para o aeroporto em carros e vans luxuosas. Um DC-10 da Avensa os aguardava e partiu rumo a Canaima tão logo todos estavam acomodados. Outro DC-10 havia partido duas horas antes para o mesmo local, levando grande brigada de garçons, maitres, gerentes, cozinheiros e auxiliares que estavam encarregados de montar a recepção aos convidados na beira do lago.

Eles levaram muita comida, bebidas, gelo, aquecedores de alimentos, mesas, cadeiras, toalhas, talheres, louça, enfim, tudo o que é necessário para outro grande banquete. Montaram a comprida mesa, de toalhas, cadeiras e louça brancas ao longo de um gramado, debaixo de coqueiros, bem ao lado de uma praia de areia fina que margeava o lago. À distância, o Salto dos Anjos. Todos se vestiram de branco e prepararam bandejas, taças e champanhe para complementar a recepção. Cenário dos sonhos.

A primeira ideia que os convidados tiveram quando o avião pousou na modesta pista de Canaima, em plena selva de um dos parques nacionais da Venezuela, e as portas foram abertas, foi o da chegada ao cenário típico e conhecido de uma famosa série norte-americana de televisão: a Ilha da Fantasia (Fantasy Island).

No seriado criado em 1978 por Aaron Spelling e exibido pela Rede Globo nos anos 80, havia uma exótica ilha onde as fantasias se transformavam em realidade para ricos convidados, com a ajuda de um misterioso anfitrião, Mr. Roarke (interpretado pelo ator Ricardo Montalban), auxiliado pelo anão Tattoo (Hervé Villechaize), ambos sempre impecavelmente vestidos com smokings brancos.

Afinal, a recepção aos convidados da cadeia Hilton, ainda na pista, foi absolutamente idêntica. O cenário, também. Com vestimentas brancas do pescoço aos pés, garçons e recepcionistas esticavam o braço, oferecendo coquetéis de todas as cores e espécies enquanto grupos rítmicos entoavam canções do Caribe. Enquanto isso, recepcionistas colocavam chapéus e colares em todos os visitantes. Enfim, um verdadeiro paraíso distante, a pouco mais de 1.100 quilômetros de Caracas, coberto em 1h10min. por jatos comerciais.


Esse paraíso é Canaima, ao Sul da Venezuela, perto da fronteira com o Brasil, no estado de Bolívar. Todos que vão a Canaima sempre são atraídos por uma das maiores riquezas naturais da Venezuela: o Salto dos Anjos (Angel Falls), catarata de 3.213 pés (979 metros), que divide com o Pico Bolívar, na Serra de Merida, as atenções de todos aqueles que querem conhecer o território venezuelano. Angel Falls é a mais alta queda-livre do mundo, com uma queda ininterrupta de 807 metros (2.648 pés).

Da pista de pouso, em uma clareira no meio da selva, ao lago de Canaima, foram pouco mais de mil metros, normalmente cobertos a pé pelos visitantes, em meio à rica vegetação tropical. O lago é formado pelos muitos saltos e quedas d’água da região. E suas margens formam, em determinado ponto, uma praia de coqueiros e palmeiras, com areia fina e clara, local onde o banquete foi servido.


Próximo à praia há um hotel rústico e confortável com muitos chalés. Ele é o ponto de partida para passeios de barco no lago, para a aproximação com as quedas d’água e para excursões pela selva. Os convidados puderam ir pelo lago até as proximidades das cachoeiras. Mas quem quisesse ter uma visão panorâmica de Angel Falls tinha como opção um espetacular e irrecusável voo de helicóptero.

Canaima, um dos 26 parques nacionais da Venezuela e o sexto do mundo, tem mais de 3 milhões de hectares e está na região conhecida como Terras Altas de Guayana, onde nasce o rio Cauro e as cabeceiras de Caroní no montanhoso cenário da Sierra de Lema, de selvas impenetráveis. O clima é equatorial com fortes chuvas. A fauna é constituída por numerosas espécies de aves, répteis e mamíferos. Na selva, de plantas de incontáveis variedades, há mais de 500 espécies de orquídeas.

Além da lagoa de Canaima, lugar mais frequentado pelos turistas, o destaque é para Angel Falls, a magnífica catarata de difícil acesso. Desde o lago de Canaima, pode-se ir até perto do salto por meio de barcos. Primeiro por uma corrente mais ágil, depois por águas calmas. A parte final até debaixo das quedas, é feita por terra, nas matas quase sempre cobertas por neblina devido ao gigantesco volume de água que cai de uma altura de quase mil metros. Junto ao salto há uma cabana que serve de refúgio para quem resolve passar a noite no local. Angel Falls foi descoberto por um aviador norte-americano, Jimmy Angel, em 1937. O rio que produz a belíssima catarata é o Churún, que corre subterraneamente até chegar à beira do abismo. A queda d’água é de rara beleza, embora distante da magnitude de Foz do Iguaçu.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Manchete causa demissão de repórter














Nas corridas de automóvel pelo Brasil ainda sobreviviam as famosas carreteiras, carrocerias preparadas por pilotos e construtores tupiniquins com motores super-potentes. Era o ano de 1968. A "máquina" de Camilo Cristófaro, a lendária Chevrolet-Corvette amarela com o nº 18 (foto) do "Lobo Solitário do Canindé", bairro paulistano conhecido por abrigar o estádio da Portuguesa, era o maior exemplo, quase imbatível.

Camilo era o destaque do automobilismo paulista, acumulando vitórias com a sua carreteira nas provas de longa duração (“Mil Milhas”, “12 Horas”, “24 Horas”, “500 Quilômetros”) disputadas no autódromo de Interlagos. Seus maiores adversários eram os pilotos gaúchos Catarino Andreatta e Breno Fornari, que sempre conseguiam montar carrões altamente competitivos, além dos paulistas Ciro Caires e Caetano Damiani. Mas a fama de Camilo virou nacional, tal o número de vitórias que conquistava.

Paralelamente, surgia a nova geração de pilotos, na sua grande maioria oriunda do kart. Esses jovens competidores acabaram conquistando o apoio das montadoras, que resolveram transformar as pistas em campos de provas, criando assim suas equipes de competição.

O mais famoso narrador de corridas de automóveis era Wilson Fittipaldi, da Rádio Pan-Americana, transformada em Jovem Pan na época da Jovem Guarda pelo espertíssimo empresário Antônio Augusto Amaral de Carvalho, o “Tuta”, um dos filhos de Paulo Machado de Carvalho, o “Marechal da Vitória”, que ajudou o Brasil a ser bicampeão mundial de futebol nas Copas de 58 e 62.

Os dois filhos de Wilson Fittipaldi, Wilsinho e Émerson, sempre acompanharam o trabalho do pai na cabine da rádio nos autódromos. Acabaram se apaixonando pelo automobilismo depois de serem campeões no kart. Mais velho do que Émerson, Wilsinho foi despontando no automobilismo. Começou a ganhar corridas em Interlagos. E foi obtendo patrocínio para seguir em frente.

Wilsinho fez parte da Equipe Willys, da Willys Overland do Brasil, montadora que vendia alguns modelos de carros fabricados no Brasil, como o Aero Willys e o esportivo Interlagos. Os companheiros de Wilsinho eram vitoriosos no kartismo, como José Carlos Pacce, Maneco Combacau, Afonso Giaffone Júnior, Carol Figueiredo, além dos pilotos Francisco Lameirão, Bird Clemente e Luiz Pereira Bueno, todos da equipe de Luiz Antônio Grecco. Em provas de longa duração eles formavam duplas. Émerson Fittipaldi também fez parte do grupo, mas já no fim do período das equipes de fábrica.

WILSINHO DÁ BANHO EM CAMILO

Para participar das “Mil Milhas” e das “24 Horas”, Wilsinho construiu em 1967 o “Fitti-Porsche” (foto), com carroceria moderna para a época, equipada com motor Porsche 1.500 RS. O protótipo acumulou vitórias em provas pequenas, de várias baterias, que eram realizadas no autódromo de Interlagos. Wilsinho credenciou-se, assim, para enfrentar os papas do automobilismo nacional da época em uma corrida de longa duração. Sem medo de encarar o "Lobo Solitário" Camilo Cristófaro, o "Tigrão" Wilsinho Fittipaldi partiu para a competição.

Camilo tinha muitos amigos empresários que gostavam de automobilismo e com apoio financeiro o ajudavam a construir as suas invencíveis carreteiras. Um deles era Rodrigo Lisboa Soares Júnior, o "Rodriguinho", um dos diretores do tradicional Diário Popular, jornal paulista da família Lisboa Soares. Play-boy, "Rodriguinho" viajava muito para o Exterior, principalmente para os Estados Unidos. Camilo fazia o pedido de peças especiais para a sua carreteira e "Rodriguinho" cuidava de trazê-las dos EUA.

Chegou o dia da grande corrida em Interlagos. Camilo Cristófaro contra Wilsinho Fittipaldi Júnior. A experiência diante da nova geração. Na competição de longa duração, Fittipaldi foi muito bem com o seu “Fitti-Porsche” e acabou superando a carreteira do velho "Lobo" até com facilidade. Eu era repórter do Diário Popular, gostava muito de automobilismo, acompanhava tudo sobre o esporte. Ao preparar a reportagem sobre a competição, justifiquei a importante vitória do jovem piloto sobre o experiente adversário. E não tive dúvidas ao escolher o título da matéria, que seria manchete da Editoria de Esportes: “Wilsinho dá banho em Camilo”.

No dia seguinte, ao chegar à redação do jornal, ainda na Rua do Carmo, na Capital, notei que o ambiente não estava bom. Muitos me evitavam ou demonstravam tensão. Ao chegar à Editoria de Esportes fui informado que "Rodriguinho" estava muito nervoso com a matéria e o título que saíram no Diário Popular. Diário Popular que era dele. Como também era dele o amigo Camilo Cristófaro, que havia telefonado reclamando do tratamento que havia recebido do jornal. Surgiu a notícia de que eu estaria demitido. Permaneci na redação até ser informado oficialmente.

Mas acabei me salvando. Um assessor de "Rodriguinho", Sérgio Pizani, com o qual eu tinha ótimo relacionamento, conseguiu contornar a ira do patrão ao afirmar que deveria prevalecer o jornalismo e não a amizade e que de fato o Wilsinho havia vencido Camilo com todos os méritos e que o repórter apenas cumprira a sua obrigação.

Durante muito tempo "Rodriguinho" continuou olhando feio ao cruzar comigo nos corredores do Diário. Mas fiquei no jornal por muitos anos. Só saí em 1974 (havia entrado em 1964), quando já estava trabalhando na Folha de S. Paulo. O Diário Popular transferiu-se para a Rua Major Quedinho. Depois foi vendido pela família Lisboa Soares para Orestes Quércia. Anos após foi negociado por Quércia com a família Marinho, das Organizações Globo. Hoje, o Diário Popular tem outro nome: Diário de S. Paulo.

Wilsinho Fittipaldi evoluiu muito no automobilismo, acumulou vitórias e chegou até a trocar as corridas nacionais pela Fórmula-1. E, em um projeto arrojado da família, foi piloto do primeiro (e único) F-1 brasileiro, o Coopersucar-Fittipaldi, na década de 70. Na foto abaixo, Wilsinho ao volante, seu pai Wilson Fittipaldi à esquerda e o engenheiro Ricardo Divila à direita. Eu estou atrás, de camisa preta, observando os primeiros testes do F-1 nacional.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

O gênio Mané das pernas tortas



“Se há um deus que regula o futebol, esse deus é sobretudo irônico e farsante, e Garrincha foi um de seus delegados incumbidos de zombar de tudo e de todos, nos estádios.“
(Carlos Drummond de Andrade)





"ALEGRIA DO POVO", "DEMÔNIO DA COPA",
"CARLITOS DA BOLA"...
OU SIMPLESMENTE GARRINCHA


“Puxa, que cidade bonita, cheia de árvores e praças. Deve ter muito passarinho por aí, só que eles não cantam na nossa língua, né?”, disse Garrincha, alegre, brincalhão e simples, como sempre, provocando sorrisos dos companheiros de viagem do Corinthians.

O ônibus, que iniciou a sua viagem no aeroporto de San Pablo, em Sevilha, de onde a delegação vinha de Madri, seguia em direção ao litoral espanhol. Mais especificamente à pequena cidade de Cádiz. Lá seria disputado o “XII Troféu Ramón de Carranza”, edição 1966, um quadrangular internacional realizado todos os anos, sempre no verão europeu, normalmente no inicio de setembro. Desta vez, os participantes eram os clubes espanhóis Real Madrid e Real Zaragoza, o italiano Torino e o Corinthians.

Cádiz está na chamada Costa do Sol, nome que é dado ao litoral espanhol que se estende desde a fronteira portuguesa até Gibraltar. A principal característica das cidades dessa região da Andaluzia é a cor predominante das construções: o branco. Situada na parte meridional da Península Ibérica, ao lado do Estreito de Gibraltar, Cádiz, fundada em 110 A C., é banhada tanto pelo Oceano Atlântico quanto pelo Mar Mediterrâneo. A cidade é dividida pela muralha Puerta de Tierra. De um lado a parte moderna, com largas avenidas; de outro, a zona histórica, onde o centro é um labirinto de ruas adornadas por vasos de flores, praças e jardins.

A maior atração da equipe paulista era Garrincha, já em fim de carreira, que tinha como companheiros Dino Sani, Roberto Rivellino, Ditão, Edson Girafa, Nair, Flávio, Tales, Gilson Porto e outros menos conhecidos. O técnico era don Ernesto Filpo Nuñez, treinador que ficou famoso pelo seu trabalho no Palmeiras. O Corinthians acabou ficando em terceiro lugar do Troféu Carranza. Mas Mané Garrincha foi o campeão em autógrafos, como pude testemunhar como repórter do Diário Popular naquela viagem. Por sua fama e seus feitos na Copa de 62, no Chile, quando foi o principal responsável pela conquista brasileira do título mundial, e por sua simplicidade, seu jeito descompromissado, Mané encantava a todos. “Alegria do Povo”, “Demônio da Copa”, “Anjo das Pernas Tortas”, “Carlitos da Bola”, Garrincha foi apontado como o maior ponta-direita de todos os tempos no futebol mundial.
No embarque da delegação do Corinthians para a disputa do Troféu Carranza, na Espanha, em agosto de 1966, no aeroporto de Congonhas, Garrincha é o penúltimo jogador da foto, entre o jovem Rivellino e Jair Marinho. Estão em pé, eu, o diretor Chico Mendes, os jogadores Flávio, Dino Sani, Edson, Marcos, o preparador físico José de Souza Teixeira, Clóvis, o massagista Souza, os atletas Nair e Ditão, o médico Haroldo Campos, o dirigente Jamil Helou, sra. Wadih Helu, o presidente Wadih Helu, o técnico Filpo Nuñes; agachados: os jogadores Maciel, Marcial, Tales, Roberto Bataglia, Heitor, Galhardo, Gilson Porto, além de Riva, Mané e Jair.

SEM O ÚLTIMO DRIBLE - Aos 50 anos, devido a uma crise hepática motivada pela bebida alcoólica, Garrincha morreu. Era 20 de janeiro de 1983. Eu acabara de assumir o cargo de coordenador de esportes da Rádio Bandeirantes e tive de mudar toda a programação jornalística esportiva da emissora, para repercutir o trágico fim de um ídolo da bola.

Grande jogador, Garrincha não tinha adversários, a todos driblava. Mas não conseguiu aplicar o seu último drible, na morte. Depois de passar uma semana bebendo, sem se alimentar, ele foi internado pela última vez na Casa de Saúde Dr. Eiras, no bairro do Botafogo, no Rio. Era 19 de janeiro, 19h40. O paciente Manuel da Silva (na verdade, seu nome era Manuel Francisco dos Santos, ao contrário do que constou no prontuário) ficou em um leito no sétimo andar, onde foi encontrado morto na manhã seguinte, vítima de graves lesões no fígado e no pâncreas, consequência do excessivo consumo de álcool. Um dia antes de sua morte, Garrincha foi encontrado bêbado e cambaleando pelas ruas de Bangu.

Pessoa ingênua, sem cultura, desligada e sem qualquer maldade, Garrincha gostava muito de aventuras românticas. Teve vários casos com artistas e um longo relacionamento com a cantora Elza Soares. Em seus três casamentos e outros casos teve 13 filhos. Um deles, com Elza Soares, morreu em 1986, em um acidente automobilístico. Ele também deixou um filho sueco, que nasceu nove meses após o Brasil conquistar o seu primeiro título mundial de futebol, em 1958, na Suécia. Seu nome: Ulf Lindenberg. Nem o nome da mãe do garoto Garrincha sabia, pois teve com ela apenas um encontro em uma saída da concentração em Estocolmo durante a Copa.

Com dribles humilhantes, Garrincha foi um dos maiores jogadores brasileiros de todos os tempos. Só era parado com violência. Daí sua carreira ter sido tão curta. Os joelhos não aguentaram tanta pancada. Apontado como um dos maiores responsáveis pelas conquistas dos títulos mundiais de 58 e 62, Mané jogou no Botafogo de 1953 a 1965. Depois esteve no Corinthians entre 66 e 67. Ainda passou pelo Flamengo em 68, encerrando a carreira no Olaria, em 1972. Depois tentou, por várias vezes, comandar escolinhas de futebol. Mas transformou-se em um alcoólatra. Tanto que o atestado de óbito deu como “causa mortis”: congestão pulmonar, esteatose hepática, esclerose do miocárdio e edema cerebral.

Fim trágico, início brilhante. Garoto franzino, com 19 anos, Mané apareceu para treinar no Botafogo no dia 15 de maio de 1953, na sede de General Severiano, levado pelo lateral-direito Irati. Nesse primeiro treino coletivo, sem a menor cerimônia, Garrincha colocou duas vezes a bola entre as pernas do grande astro da época, Nilton Santos, que não escapou aos dribles infernais do ponta das pernas tortas. Mas há muitas versões sobre o que de fato aconteceu. Durante décadas, Nilson Santos não desmentiu essa história.

Já em 2003, quando se completaram 20 anos da morte de Mané, Nilton não confirmou a histórica versão, preferindo dar um sorriso. “Há muitas histórias sobre o Garrincha que só quem conviveu com ele durante anos saberia contar com exatidão”, afirmou. “Mas Garrincha deve ser lembrado e homenageado sempre, como um jogador genial que sempre foi.”

Após o famoso treino, o próprio Nilton Santos pediu para que Garrincha fosse o titular da ponta-direita do Botafogo, antevendo no garoto um dos maiores jogadores do Brasil. E não se enganou. De acordo com os arquivos da época, Mané ganhou o apelido de “Gualicho”, nome de um cavalo famoso, que só ganhava Grandes Prêmios Brasil. Depois, seu apelido foi mudado para “Garrincha”, nome de pássaro muito comum na região onde morava, pois ele adorava as aves.

Garrincha disputou 61 jogos pela Seleção Brasileira e marcou 17 gols. No Botafogo, fez 249 gols em 581 jogos. Ele foi campeão carioca de 1957, 1961 e 1962 e do Torneio Rio-São Paulo de 1962 e 1964. Bicampeão mundial de futebol em 1958 e 1962 teve sua despedida no dia 19 de dezembro de 1973, no Maracanã em um jogo da Seleção Brasileira com uma estrangeira formada por jogadores que atuavam no País. Naquela noite o Maracanã recebeu mais de 120 mil torcedores.

Quem o viu em campo jamais se esquecerá de sua genialidade, de seu futebol mágico. Individualista em um futebol coletivo, torto, antiatlético, ele criou apenas uma jogada, conhecida, mas irresistível. Lançado, ele parava na frente do adversário. Fingia que iria para a esquerda, gingava o corpo muito mais rápido do que seu marcador, e arrancava pela direita, livre de marcação, rumo à linha de fundo. Para cruzar com perfeição ou concluir.

"Estrela Solitária", como no livro bibliográfico de Ruy de Castro e no longa metragem do cineasta Milton Alencar, o craque Garrincha driblou zagueiros, goleiros, a contrariedade de técnicos e dirigentes que reprovavam a sua irresponsabilidade em campo e sua inadequação a esquemas táticos, e teve uma carreira curta. Começou em 53, já em 63 iniciava a decadência para morrer em 83. Não teve pernas para driblar a própria tragédia. Seu fim foi absolutamente triste, cruel e solitário.

“Garrincha, em sua irresponsabilidade amável, poderia, quem sabe?, fornecer-nos a chave de um segredo de que era possuidor e que ele mesmo não decifrava, inocente que era da origem do poder mágico de seus músculos e pés. Divertido, espontâneo, inconsequente, com uma inocência que não excluía espertezas instintivas de Macunaíma – nenhum modelo seria mais adequado do que esse, para seduzir um povo que, olhando em redor, não encontrava os sérios heróis, os santos miraculosos de que necessita no dia-a-dia. A identificação da sociedade com ele fazia-se naturalmente. Garrincha não pedia nada a seus admiradores; não lhes exigia sacrifícios ou esforços mentais para admirá-lo e segui-lo, pois de resto não queria que ninguém o seguisse. Carregava nas costas um peso alegre, dispensando-nos de fazer o mesmo.”
(Carlos Drummond de Andrade)

O anjo das pernas tortas

A um passe de Didi, Garrincha avança
Colado o couro aos pés, o olhar atento
Dribla um, dribla dois, depois descansa
Como a medir o lance do momento.

Vem-lhe o pressentimento; ele se lança
Mais rápido que o próprio pensamento
Dribla mais um, mais dois; a bola trança
Feliz, entre seus pés – um pé-de-vento!

Num só transporte a multidão contrita
Em ato de morte se levanta e grita
Seu uníssono canto de esperança.

Garrincha, o anjo, escuta e atende: – Goooool!
É pura imagem: um g que chuta um o
Dentro da meta, um l. É pura dança!

(Vinícius de Moraes)

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Pelé, craque também na diplomacia

O gigantesco Rio Congo separa a República Democrática do Congo (ex-Zaire) do Congo Brazzaville.



"REI" AJUDA NA TRAVESSIA DO RIO CONGO



As relações internacionais entre o Congo (ex-Zaire) e o Congo-Brazzaville não eram nada amistosas em 1967. Assim, atravessar o gigantesco Rio Congo, o maior do continente africano, que servia de fronteira entre as capitais Kinshasa e Brazzaville, era praticamente impossível naquele momento. Esse problema, no entanto, não fora previsto quando foi acertada a excursão de uma Seleção Paulista de juniores pelo continente.

A equipe brasileira já havia jogado em Kinshasa e deveria se exibir também em Brazzaville, na sequência. Os guardas de fronteira, porém, ignoravam todos esses trâmites. E simplesmente não permitiram a entrada da delegação estrangeira na balsa que era usada para a travessia do Rio Congo. O empresário francês Elias Zacour, que acompanhava o grupo paulista e que havia acertado a excursão, não demonstrou nenhuma preocupação no momento de buscar uma solução. Simplesmente abriu a sua pasta estilo 007 e dela retirou uma foto grande de Pelé, devidamente autografada, que guardava para essas ocasiões.

Negro e maior jogador de futebol do Brasil, mundialmente famoso pelos seus feitos nas Copas do Mundo de 58 e 62, Pelé era ídolo na África Negra, onde já havia se exibido com o famoso time do Santos bicampeão do mundo (62 e 63). Como contou o jornalista Odair Pimentel, que participou da viagem santista à África, os dois países interromperam o litígio para ver a exibição da equipe brasileira e, especialmente, o futebol do “rei”. O registro é de Pelé com o presidente do Zaire, Mobutu Sese Seke, momentos antes do show do Santos em Kinshasa.

Ao ver a foto de Pelé nas mãos do empresário francês, os guardas de fronteira abriram largos sorrisos. E ficou fácil para Zacour explicar o que aquela delegação brasileira estava fazendo ali, em meio a dois países africanos em guerra. Passaportes apresentados, lá foi a comitiva brasileira para o outro lado do Rio Congo, sem visto ou qualquer outra necessidade burocrática. Acompanhando a delegação brasileira como repórter do Diário Popular, fui testemunha desse fato, como de tantos outros envolvendo o grande embaixador brasileiro Edson Arantes do Nascimento.

Fato semelhante também ocorreu com jornalistas do País na excursão da Seleção Brasileira por países europeus em 1973, nos preparativos da equipe do técnico Mário Lobo Zagallo para a Copa da Alemanha, no ano seguinte. A embaixada da União Soviética no Brasil perdeu-se com o pedido de visto para 123 jornalistas brasileiros que pretendiam ir a Moscou. E pelo menos 17 profissionais de São Paulo deixaram o Brasil sem a autorização de entrada na Rússia.

Todos empurraram o problema com a barriga ao longo da excursão, que já havia passado por Argel, Túnis e Roma. Mas quando o grupo se encontrava em Viena e ainda não havia resposta das autoridades soviéticas, os jornalistas brasileiros começaram a temer pela sorte. Repórter da Folha de S. Paulo e incluído entre os ‘sem-visto’, temia por minha sorte. Afinal, após Viena viria Berlim e em seguida Moscou.

Todos resolveram pressionar a embaixada russa na Áustria. Os jornalistas seguiram unidos. Milton Peruzzi, narrador esportivo da Rádio Gazeta, resolveu apelar para Pelé. Com uma foto do craque brasileiro devidamente autografada, “invadiu” a sala do embaixador, sendo seguido pelos demais jornalistas. Falou um pouco em inglês, um pouco em francês, explorou ao máximo o italiano, que dominava, e entre abraços de todos e de “vivas” ao futebol brasileiro e a Pelé, conseguiu o tão esperado visto. Tudo graças ao excelente trabalho de diplomata do craque Pelé.