
Dino Sani e Lula (com Bellini e Pelé ao fundo) nas comemorações dos 50 anos do título mundial conquistado na Suécia.
DINO SANI JÁ PREVIA DESASTRE NA COPA DE
66 E CONFIRMAVA A GRANDE DESORGANIZAÇÃO“Olha, que fique entre nós: isto aqui está uma bagunça, dá desanimo. Ninguém entende ninguém. Não sei no que vai dar, mas não pode ser boa coisa, não. É uma pena”, previu o experiente jogador Dino Sani, campeão mundial de 1958. “O problema é que tem muito jogador, são quatro times e não há nenhum efetivamente bom, acertado, definido. Não vejo um bom futuro para nós na Copa”, acrescentou. A previsão pessimista foi dada a mim, então repórter do Diário Popular (hoje Diário de S. Paulo) pelo apoiador que era titular do Corinthians. Nos estávamos na concentração da Seleção Brasileira, em Teresópolis, Rio de Janeiro, em maio de 1966, pouco antes da Copa da Inglaterra. Logo após fazer essa análise fria, mas absolutamente realista do que estava ocorrendo, Dino pediu sigilo da fonte. “Não publique que fui eu que contei, senão vou ser cortado”.
Não por culpa minha, mas como consequência daquela confusão que foi a preparação da Seleção para o Mundial de 66, Dino Sani acabou sendo dispensado antes da viagem. Como muitos outros. Afinal, a comissão técnica comandada pelo técnico Vicente Feola exagerou em tudo, em treinos, amistosos e em atletas. Foram convocados 47 jogadores. Um absurdo de mais de quatro times completos. Era tanta gente em campo que ficava impossível o controle. Havia o time amarelo, o verde, o azul e o branco. Em cada amistoso jogava um time. O grupo andou pelas estâncias climáticas de Teresópolis (RJ), Lambari (MG), Caxambu (MG) e Serra Negra (SP). Em todos os lugares, a população saia atrás da Seleção à cata de autógrafos. Resultado, ainda, do sucesso da conquista dos títulos mundiais de 58 e 62. O sonho da torcida era ver o Brasil tricampeão na Inglaterra.

TÚNEL DO TEMPO - Nos preparativos para a Copa de 66, exames médicos dos jogadores em clínica de Copacabana: Pelé, Flávio, Bellini, Fontana, Orlando Peçanha e eu, que fazia a cobertura jornalística da Seleção Brasileira para o Diário Popular (hoje Diário de S. Paulo), em foto de Manuel dos Santos. Há 43 anos.
CLIMA DE "JÁ GANHOU" - A euforia dominava todos, dos cartolas da antiga CBD (Confederação Brasileira de Desportos já comandada por João Havelange) ao mais simples jogador. Ninguém admitia que o futebol do Brasil pudesse fracassar. Nesse clima de “já ganhou” e de “salto alto”, Amarildo chegou da Itália (jogava no Milan) e se apresentou a Feola. Seu primeiro jogo-treino foi em Serra Negra. Badalado por todos, o atacante não gostou quando leu a minha análise sobre a sua atuação em um amistoso. Como o Diário Popular era entregue na concentração do Hotel Pavani, Amarildo tomou conhecimento da crítica e, na primeira oportunidade que teve, em uma entrevista à Rádio Bandeirantes, fez a sua defesa e condenou a minha reportagem. Mas o assunto se encerrou logo após, quando o comentarista da emissora, o respeitado Mauro Pinheiro, saiu em minha defesa, confirmando que o jogador não havia correspondido em sua primeira apresentação e que eu tinha todo o direito de criticá-lo. Amarildo era um grande sucesso do Milan, da mesma forma que Dino Sani havia sido, embora já tivesse retornado ao futebol brasileiro dois anos antes.
Como o amigo Antero Greco, companheiro nas redações de O Estado de S. Paulo e Diário Popular, profundo conhecedor do futebol internacional e particularmente do italiano, já explicou em diversos artigos, os jogadores brasileiros sempre tiveram tradição de sucesso no Milan. José Altafini (o nosso Mazzola), Dino Sani, Amarildo e Sormani foram os principais entre os anos 50 e 70. Depois, Leonardo, Serginho, Roque Júnior, Dida, Cafu, Rivaldo, Émerson, Ronaldinho Gaúcho, Thiago Silva e vários outros vestiram a camisa rubro-negra mais famosa da Europa. Agora, o grande astro do Milan é Kaká.

Amarildo (foto) – como Mazzola e Sormani –, acabou criando raízes na Itália desde que o Milan o tirou do Botafogo, pouco depois da Copa do Mundo de 62. Suas atuações no Chile, como substituto de Pelé, chamaram a atenção dos italianos, que o fizeram jogar ao lado de Mazzola. Atacante leve, rápido, apelidado de “Possesso”, ficou em Milão de 63 a 67 e deixou sua marca: 32 gols em 107 partidas. Amarildo ainda jogou no Napoli e na Fiorentina.
Dino Sani foi contemporâneo de Amarildo e Mazzola no Milan. O volante, que passou por São Paulo, Palmeiras, Corinthians e Boca Juniors, chegou a Milão em 61 e saiu de lá em 64. Nesse período, foram apenas 62 jogos, mas 14 gols e muita categoria no meio-de-campo. Seu nome consta da lista de notáveis que defenderam o Milan, como os holandeses Gullit, Van Basten e Rijkaard, os suecos Gunnar Green e Niels Liedholm, e os italianos Fabio Capello, Franco Baresi, Gianni Rivera, Cesare e Paolo Maldini.

Sem Dino Sani (foto) e Amarildo, incluídos em um listão de 22 jogadores “cortados” momento antes do embarque para a Europa, a Seleção Brasileira foi um desastre no Mundial. A delegação viajou sem uma equipe definida. Tanto que, entre o último teste, em 30 de junho, e a estréia, dia 12 de julho em Liverpool contra a Bulgária, Feola fez cinco substituições: saíram Fidélis, Orlando Peçanha, Gérson, o jovem Tostão e Paraná para entrarem Djalma Santos, Altair, Denílson, Lima e Alcindo.
O Brasil venceu a Bulgária por 2 a 0, gols de Pelé e Garrincha, ambos de falta, apresentando um futebol medíocre. A equipe tinha Gilmar, Djalma Santos, Bellini, Altair e Paulo Henrique; Denílson e Lima; Garrincha, Alcindo, Pelé e Jairzinho. Na segunda partida, dia 15, derrota para a Hungria por 3 a 1. Gérson havia voltado no lugar de Denílson e Tostão (que fez o gol) na vaga deixada por Pelé, poupado. No terceiro jogo veio a eliminação com a derrota para Portugal, também por 3 a 1, dia 19. No desespero, a equipe havia sido totalmente modificada: Manga, Fidélis, Brito, Orlando e Rildo; Denílson e Lima; Jairzinho, Silva, Pelé e Paraná. O clima foi de tristeza. Pelé foi caçado em campo, não havia como substituí-lo porque o regulamento não permitia. Os portugueses, com Eusébio, Torres e Simões, mereceram a vitória e a Seleção Brasileira foi eliminada sem passar das oitavas-de-final. O grupo voltou humilhado ao País.
Para quem gosta de detalhes, eis os 47 jogadores convocados para o período de treinamentos antes da Copa de 66: Goleiros - Fábio (São Paulo), Gilmar (Santos), Manga (Botafogo), Ubirajara (Bangu) e Valdir Joaquim de Moraes (Palmeiras); Laterais - Carlos Alberto Torres (Santos), Djalma Santos (Palmeiras), Fidélis (Bangu), Murilo (Flamengo), Édson Cegonha (Corinthians), Paulo Henrique (Flamengo) e Rildo (Botafogo); Zagueiros - Altair (Fluminense), Bellini (São Paulo), Brito (Vasco), Ditão (Flamengo), Djalma Dias (Palmeiras), Fontana (Vasco), Leônidas (América/RJ), Orlando Peçanha (Santos) e Roberto Dias (São Paulo); Apoiadores – Denílson (Fluminense), Dino Sani (Corinthians), Dudu (Palmeiras), Edu (Santos), Fefeu (São Paulo), Gérson (Botafogo), Lima (Santos), Oldair (Vasco) e Zito (Santos); Atacantes – Alcindo (Grêmio), Amarildo (Milan), Célio (Vasco), Flávio (Corinthians), Garrincha (Corinthians), Ivair (Portuguesa de Desportos), Jair da Costa (Inter de Milão), Jairzinho (Botafogo), Nado (Náutico), Parada (Botafogo), Paraná (São Paulo), Paulo Borges (Bangu), Pelé (Santos), Servílio (Palmeiras), Rinaldo (Palmeiras), Silva (Flamengo) e Tostão (Cruzeiro).
Dos 47 convocados por Vicente Feola para esse infeliz período de treinamentos, acabaram viajando para a Inglaterra os seguintes 22 “sobreviventes": Gilmar e Manga (goleiros); Djalma Santos, Fidélis, Paulo Henrique e Rildo (laterais); Bellini, Altair, Brito e Orlando Peçanha (zagueiros); Denílson, Lima, Gérson e Zito (apoiadores); Garrincha, Edu, Alcindo, Pelé, Jairzinho, Silva, Tostão e Paraná (atacantes).
Embora a Seleção tenha fracassado na Inglaterra, cinco jogadores que participaram do grupo de Liverpool foram fundamentais na conquista do tricampeonato mundial, quatro anos mais tarde, em 1970, no México: Brito, Gérson, Jairzinho, Pelé e Tostão. Quase metade de um time que é apontado como uma das melhores seleções que o Brasil já teve em todos os tempos.