
LEÃO AMEAÇA BRIGAR COM JORNALISTA.
DISCUSSÃO FOI EM PLENO VOO RIO-SP
Naquela época, não havia Internet. Assim, os jogadores da Seleção Brasileira não tinham como acompanhar o que a Imprensa divulgava durante uma longa excursão ao Exterior, preparatória para a Copa do Mundo de 1974, na Alemanha. Mas acabavam recebendo informações dos familiares nos contatos telefônicos. Como a equipe orientada pelo técnico Mário Lobo Zagallo não estava apresentando um futebol satisfatório, não faltavam críticas. Além disso, o volume de notícias transmitidas diariamente ao Brasil era muito grande, pois a viagem da Seleção estava sendo acompanhada por um verdadeiro batalhão composto por 123 representantes de jornais, revistas, emissoras de rádio e de TV do País.
O roteiro da excursão era uma verdadeira maratona: nove amistosos em um mês de viagem. A Seleção jogava a cada três dias e nunca no mesmo pais. Chegava no local do amistoso em um dia, jogava no outro e ia embora no terceiro. A delegação deixou o Rio no dia 1º de junho de 1973 rumo à África, jogando inicialmente em Argel (Argélia) e Túnis (Tunísia). Depois passou para a Europa, com amistosos em Roma (Itália), Viena (Áustria), Berlim (Alemanha), Moscou (Rússia), Estocolmo (Suécia), Glasgow (Escócia) e Dublin (Irlanda), retornando dia 5 de julho para o Brasil.
Depois do jogo de Glasgow, quando o Brasil teve uma péssima apresentação contra a Escócia, no estádio de Hampden Park, os jogadores se revoltaram com as críticas que sofreram. No Albany Hotel, todos se reuniram em segredo, reclamaram muito do que a Imprensa estava divulgando e decidiram romper com os jornalistas: não mais dariam entrevistas ou informações, numa demonstração de repúdio.
O grupo elaborou um documento que acabou ficando famoso, inclusive pelo ineditismo: o Manifesto de Glasgow. De acordo com o que se apurou na época, o texto teria sido de autoria do capitão Cláudio Coutinho, que era o supervisor da Seleção e que na Copa do Mundo seguinte, em 1978, na Argentina, seria o técnico da equipe. Ainda conforme foi apurado, um dos líderes do movimento teria sido o jogador Wilson Piazza, capitão da equipe. Este era o teor do documento:
“Aos membros da Imprensa do Brasil.
Nós, abaixo assinados, jogadores da Seleção Brasileira, reunidos no dia 29 de junho de 1973, no Hotel Albany, em Glasgow, Escócia, para discutir normas de relacionamento com a imprensa brasileira, chegamos à seguinte decisão:
CONSIDERANDO
1. Que durante a atual excursão uma considerável parte da Imprensa vem sistematicamente divulgando falsas notícias, deturpando fatos, forjando situações e assacando irreais acusações contra diversos componentes da delegação brasileira, inclusive nós, jogadores;
2 Que tal procedimento, além de contribuir para formar uma falsa imagem da Seleção tricampeã do Mundo perante o povo brasileiro, vem também causando prejuízo ao nosso prestígio internacional numa flagrante atitude antipatriótica;
3 Que as normas da Comissão Técnica não prevêem obrigatoriedade por parte dos jogadores no sentido de concederem entrevistas e prestar informações à Imprensa;
4 Que a presente situação de relacionamento entre a Imprensa e jogadores, nos obriga a tomar, o quanto antes, uma posição em benefício do próprio futebol brasileiro;
DECIDIMOS:
A - Que a partir desta data, e até quando se modifique o atual procedimento da Imprensa, não mais concederemos entrevistas ou prestaremos informações, coletiva ou individualmente, a qualquer órgão de Imprensa, escrita, falada ou televisada, numa manifestação de repúdio em face dos recentes acontecimentos;
B - Tal decisão tem principalmente o objetivo de alertar a opinião pública brasileira, tão mal informada pelos constantes noticiários que buscaram deformar o verdadeiro ambiente no sentido destrutivo e até mesmo desonesto de uma parcela da Imprensa;
C - Conscientes de havermos tomado uma histórica decisão nos anais do Desporto, esperamos que a nossa posição sirva de exemplo aos demais jogadores brasileiros, que na realidade são os grandes prejudicados por essa parte de nossa Imprensa desportiva tão despreparada e mal intencionada.
Assinaram o documento:
Wilson Piazza, Wendell, Marinho Peres, Jairzinho, Marinho Chagas, Renato, Moisés, Dario, Leão, Luís Pereira, Palhinha, Chiquinho, Zé Maria, Rivellino, Carbone, Leivinha, Dirceu, Edu, Clodoaldo, Paulo César, Marco Antônio e Valdomiro.”
Em resposta, os jornalistas também tiveram uma decisão inédita: não mais divulgar o nome dos jogadores em seus veículos de comunicação. As informações sobre a Seleção passaram a se limitar ao noticiário sobre o amistoso seguinte, o último da excursão, em Dublin, contra a Irlanda. Além de críticas e análises sobre o comportamento dos jogadores durante a partida.
O ambiente entre jogadores e repórteres ficou péssimo. O Brasil empatou com a fraquíssima Irlanda e na mesma noite a delegação retornou ao País. Jogadores e jornalistas voltaram no mesmo vôo, que pousou no aeroporto do Galeão, no Rio.
Os jogadores paulistas tiveram de trocar de avião para a viagem até o aeroporto de Congonhas, da mesma forma que os jornalistas. O ambiente continuava tenso. E piorou no trajeto Rio-São Paulo, quando os comissários de voo distribuíram exemplares de jornais para todos os passageiros.
Eu trabalhava na Folha de S. Paulo. Fiz o comentário sobre a partida e a atuação dos jogadores. Não dei boa nota para o goleiro Leão, embora não o tivesse citado nominalmente, cumprindo assim o acordo. Comentei que o jogador esteve nervoso e inseguro, falhando em alguns lances. Foi o que bastou. Irritado com o que leu, ainda com um exemplar da Folha de S. Paulo nas mãos, Leão abandonou a sua poltrona e foi em minha direção para exigir esclarecimentos. Disse que eu havia sido injusto. Discutimos e ele deu a entender que fora do avião, já no aeroporto de Congonhas, tiraria satisfações. O ambiente no aeroporto estava tão ruim para os jogadores, havia tanta gente criticando, que o confronto entre o goleiro Émerson Leão e o jornalista acabou não acontecendo.

O episódio foi superado, Leão disputou a Copa da Alemanha no ano seguinte (na foto, Leão e eu em entrevista na concentração na Seleção na Floresta Negra, um mês antes do Mundial),e a da Argentina em 78, ambas como titular, sendo reserva nas do México, em 70 e 86. Foram quatro participações em Mundiais. Poderia ter chegado à marca extraordinária de cinco Copas se não tivesse sido “esquecido” pelo técnico Telê Santana no Mundial de 82, na Espanha. Mesmo assim, é um dos maiores goleiros da história do futebol brasileiro, com 105 participações na Seleção.
Émerson Leão é também um técnico de prestígio, que chegou a comandar a Seleção nas eliminatórias para a Copa de 2002, e que levou o Santos ao título do Campeonato Brasileiro também em 2002. Foi campeão da Copa União em 87 (Sport), da Copa Conmebol em 97 (Atlético MG) e 98 (Santos), do Campeonato Paulista em 2005 (São Paulo), da Copa Sul-Americana em 2008 (Atlético MG) e vice-campeão da Taça Libertadores da América em 2003 (Santos).
Como conseqüência do Manifesto de Glasgow, a imprensa de São Paulo continuou evitando citar o nome dos jogadores da Seleção nos dias seguintes, quando eles retornaram aos seus clubes. Os jornalistas e radialistas alcançaram o que consideraram uma vitória: os atletas não suportaram muito tempo a situação e acabaram pedindo uma reunião. O encontro ocorreu na sede da Associação dos Cronistas Esportivos do Estado de São Paulo (Aceesp), na avenida Brigadeiro Luiz Antônio, antiga sede da Federação Paulista de Futebol, quando os jogadores buscaram o diálogo, pediram paz e tornaram sem efeito o polêmico ato de boicote à Imprensa.






























