quinta-feira, 23 de abril de 2009

Confusão e manifesto em Glasgow


LEÃO AMEAÇA BRIGAR COM JORNALISTA.
DISCUSSÃO FOI EM PLENO VOO RIO-SP


Naquela época, não havia Internet. Assim, os jogadores da Seleção Brasileira não tinham como acompanhar o que a Imprensa divulgava durante uma longa excursão ao Exterior, preparatória para a Copa do Mundo de 1974, na Alemanha. Mas acabavam recebendo informações dos familiares nos contatos telefônicos. Como a equipe orientada pelo técnico Mário Lobo Zagallo não estava apresentando um futebol satisfatório, não faltavam críticas. Além disso, o volume de notícias transmitidas diariamente ao Brasil era muito grande, pois a viagem da Seleção estava sendo acompanhada por um verdadeiro batalhão composto por 123 representantes de jornais, revistas, emissoras de rádio e de TV do País.

O roteiro da excursão era uma verdadeira maratona: nove amistosos em um mês de viagem. A Seleção jogava a cada três dias e nunca no mesmo pais. Chegava no local do amistoso em um dia, jogava no outro e ia embora no terceiro. A delegação deixou o Rio no dia 1º de junho de 1973 rumo à África, jogando inicialmente em Argel (Argélia) e Túnis (Tunísia). Depois passou para a Europa, com amistosos em Roma (Itália), Viena (Áustria), Berlim (Alemanha), Moscou (Rússia), Estocolmo (Suécia), Glasgow (Escócia) e Dublin (Irlanda), retornando dia 5 de julho para o Brasil.

Depois do jogo de Glasgow, quando o Brasil teve uma péssima apresentação contra a Escócia, no estádio de Hampden Park, os jogadores se revoltaram com as críticas que sofreram. No Albany Hotel, todos se reuniram em segredo, reclamaram muito do que a Imprensa estava divulgando e decidiram romper com os jornalistas: não mais dariam entrevistas ou informações, numa demonstração de repúdio.

O grupo elaborou um documento que acabou ficando famoso, inclusive pelo ineditismo: o Manifesto de Glasgow. De acordo com o que se apurou na época, o texto teria sido de autoria do capitão Cláudio Coutinho, que era o supervisor da Seleção e que na Copa do Mundo seguinte, em 1978, na Argentina, seria o técnico da equipe. Ainda conforme foi apurado, um dos líderes do movimento teria sido o jogador Wilson Piazza, capitão da equipe. Este era o teor do documento:

“Aos membros da Imprensa do Brasil.

Nós, abaixo assinados, jogadores da Seleção Brasileira, reunidos no dia 29 de junho de 1973, no Hotel Albany, em Glasgow, Escócia, para discutir normas de relacionamento com a imprensa brasileira, chegamos à seguinte decisão:

CONSIDERANDO

1. Que durante a atual excursão uma considerável parte da Imprensa vem sistematicamente divulgando falsas notícias, deturpando fatos, forjando situações e assacando irreais acusações contra diversos componentes da delegação brasileira, inclusive nós, jogadores;

2 Que tal procedimento, além de contribuir para formar uma falsa imagem da Seleção tricampeã do Mundo perante o povo brasileiro, vem também causando prejuízo ao nosso prestígio internacional numa flagrante atitude antipatriótica;

3 Que as normas da Comissão Técnica não prevêem obrigatoriedade por parte dos jogadores no sentido de concederem entrevistas e prestar informações à Imprensa;


4 Que a presente situação de relacionamento entre a Imprensa e jogadores, nos obriga a tomar, o quanto antes, uma posição em benefício do próprio futebol brasileiro;

DECIDIMOS:

A - Que a partir desta data, e até quando se modifique o atual procedimento da Imprensa, não mais concederemos entrevistas ou prestaremos informações, coletiva ou individualmente, a qualquer órgão de Imprensa, escrita, falada ou televisada, numa manifestação de repúdio em face dos recentes acontecimentos;

B - Tal decisão tem principalmente o objetivo de alertar a opinião pública brasileira, tão mal informada pelos constantes noticiários que buscaram deformar o verdadeiro ambiente no sentido destrutivo e até mesmo desonesto de uma parcela da Imprensa;

C - Conscientes de havermos tomado uma histórica decisão nos anais do Desporto, esperamos que a nossa posição sirva de exemplo aos demais jogadores brasileiros, que na realidade são os grandes prejudicados por essa parte de nossa Imprensa desportiva tão despreparada e mal intencionada.

Assinaram o documento:
Wilson Piazza, Wendell, Marinho Peres, Jairzinho, Marinho Chagas, Renato, Moisés, Dario, Leão, Luís Pereira, Palhinha, Chiquinho, Zé Maria, Rivellino, Carbone, Leivinha, Dirceu, Edu, Clodoaldo, Paulo César, Marco Antônio e Valdomiro.”

Em resposta, os jornalistas também tiveram uma decisão inédita: não mais divulgar o nome dos jogadores em seus veículos de comunicação. As informações sobre a Seleção passaram a se limitar ao noticiário sobre o amistoso seguinte, o último da excursão, em Dublin, contra a Irlanda. Além de críticas e análises sobre o comportamento dos jogadores durante a partida.

O ambiente entre jogadores e repórteres ficou péssimo. O Brasil empatou com a fraquíssima Irlanda e na mesma noite a delegação retornou ao País. Jogadores e jornalistas voltaram no mesmo vôo, que pousou no aeroporto do Galeão, no Rio.

Os jogadores paulistas tiveram de trocar de avião para a viagem até o aeroporto de Congonhas, da mesma forma que os jornalistas. O ambiente continuava tenso. E piorou no trajeto Rio-São Paulo, quando os comissários de voo distribuíram exemplares de jornais para todos os passageiros.

Eu trabalhava na Folha de S. Paulo. Fiz o comentário sobre a partida e a atuação dos jogadores. Não dei boa nota para o goleiro Leão, embora não o tivesse citado nominalmente, cumprindo assim o acordo. Comentei que o jogador esteve nervoso e inseguro, falhando em alguns lances. Foi o que bastou. Irritado com o que leu, ainda com um exemplar da Folha de S. Paulo nas mãos, Leão abandonou a sua poltrona e foi em minha direção para exigir esclarecimentos. Disse que eu havia sido injusto. Discutimos e ele deu a entender que fora do avião, já no aeroporto de Congonhas, tiraria satisfações. O ambiente no aeroporto estava tão ruim para os jogadores, havia tanta gente criticando, que o confronto entre o goleiro Émerson Leão e o jornalista acabou não acontecendo.

O episódio foi superado, Leão disputou a Copa da Alemanha no ano seguinte (na foto, Leão e eu em entrevista na concentração na Seleção na Floresta Negra, um mês antes do Mundial),e a da Argentina em 78, ambas como titular, sendo reserva nas do México, em 70 e 86. Foram quatro participações em Mundiais. Poderia ter chegado à marca extraordinária de cinco Copas se não tivesse sido “esquecido” pelo técnico Telê Santana no Mundial de 82, na Espanha. Mesmo assim, é um dos maiores goleiros da história do futebol brasileiro, com 105 participações na Seleção.

Émerson Leão é também um técnico de prestígio, que chegou a comandar a Seleção nas eliminatórias para a Copa de 2002, e que levou o Santos ao título do Campeonato Brasileiro também em 2002. Foi campeão da Copa União em 87 (Sport), da Copa Conmebol em 97 (Atlético MG) e 98 (Santos), do Campeonato Paulista em 2005 (São Paulo), da Copa Sul-Americana em 2008 (Atlético MG) e vice-campeão da Taça Libertadores da América em 2003 (Santos).

Como conseqüência do Manifesto de Glasgow, a imprensa de São Paulo continuou evitando citar o nome dos jogadores da Seleção nos dias seguintes, quando eles retornaram aos seus clubes. Os jornalistas e radialistas alcançaram o que consideraram uma vitória: os atletas não suportaram muito tempo a situação e acabaram pedindo uma reunião. O encontro ocorreu na sede da Associação dos Cronistas Esportivos do Estado de São Paulo (Aceesp), na avenida Brigadeiro Luiz Antônio, antiga sede da Federação Paulista de Futebol, quando os jogadores buscaram o diálogo, pediram paz e tornaram sem efeito o polêmico ato de boicote à Imprensa.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Sensação de horror em Dachau

Cerca de 206 mil prisioneiros de guerra passaram por Dachau entre 1933 a 1945. Calcula-se que 32 mil morreram nesse campo de concentração, que continua aberto até hoje para visitação pública.

FÁBRICA DE MATAR, TESTEMUNHA
DAS ATROCIDADES NAZISTAS


O que restou daquele campo de extermínio nazista será preservado para sempre – como um alerta. Essa verdadeira memória do horror, que emudece os visitantes, jamais será esquecida e ficará como testemunha desse cenário de violência e atrocidades que vitimou milhares de judeus e prisioneiros políticos durante a II Guerra Mundial. O campo de concentração de Dachau, na Alte Römerstrasse 75, nas proximidades de Munique, no Estado da Baviera, Alemanha, assusta com seu frio e tétrico silêncio e sempre será lembrado por quem o visitou.

Até hoje, turistas de todo o mundo vão a Dachau. Até hoje sentem aquele ambiente pesado no ar, aquele cheiro estranho, que parece de algo queimado, e aquele calafrio que provoca arrepios incontroláveis.

A minha visita a Dachau ocorreu na véspera da decisão da Copa do Mundo de 1974, quando o Brasil perdeu da Polônia e terminou a competição em quarto lugar. Na manhã do jogo fomos ver esse campo de concentração. Eram três jornalistas brasileiros: eu, meu companheiro de Folha de S. Paulo, o repórter Flávio Adauto, e o comentarista Randal Juliano, da rádio Jovem Pan.

Sobreviventes de Dachau conduzem estandarte lembrando o campo de concentração alemão em Israel.

Muros imensos cercam Dachau. Os gigantescos portões de ferro assustam. Abertos, mostram pavilhões – os que sobraram – onde os prisioneiros dormiam e outros espaços gramados, que representam os demais galpões que não existem mais. Ao fundo, uma construção maior, onde hoje existe um museu e, ao lado, os fornos crematórios.

No museu, uniformes listrados que eram usados pelos prisioneiros, pares de óculos, sapatos, malas, dentaduras, roupas de bebês e muitas fotos, tiradas pelos soldados da SS e conservadas pelos aliados que invadiram o local no final da Guerra.

Filmes também são exibidos a cada hora. Mostram as atrocidades da concentração, prisioneiros doentes amontoados nos pavilhões e pilhas de corpos sendo atiradas em gigantescas valas. Também esses filmes eram dos soldados nazistas, que gostavam de registrar o que acontecia naquele campo de extermínio, mas que não conseguiram juntar antes da fuga. Porém o mais assustador e impressionante está reservado para os fornos crematórios, onde milhares de judeus perderam a vida. Aquele cheiro estranho e assustador permanece no ar ainda hoje.













Aspectos da entrada do campo de Dachau, da câmara de gás disfarçada em sala de duchas, e de um dos fornos crematórios.

As vítimas, segundo os documentários que são exibidos no memorial, vinham em trens de carga. Eram transportadas como se fosse gado. Muitos já chegavam doentes. Todos morrendo de fome e de sede, sujos e aos trapos. Rápida triagem determinava a ida dos doentes diretamente para os fornos.

Os demais, que poderiam ser úteis em algum trabalho futuro, eram levados para os pavilhões, os barracões de madeira com piso de terra batida. Tudo ainda está bem conservado, mostrando com fidelidade como era o local em 1945, quando os nazistas fugiram das tropas aliadas, abandonando os prisioneiros que não tiveram tempo de matar.

Os visitantes de Dachau costumam caminhar em silêncio. Só se escutam os passos. Ou as breves frases dos guias. Todos observam as paredes escuras dessas construções e sempre têm a sensação de que já viram aqueles locais. Na verdade, a visita é uma confirmação, uma dura confirmação do que cada um já viu em filme, em fotos ou leu em reportagens, nos livros ou na internet a respeito do ambiente terrível dos campos de concentração de Auschwitz, Birkenau, Brzezinka, Oswiesim, Sobibor e outros.

Primeiro campo de concentração alemão, Dachau foi ativado em 20 de março de 1933 por Heimich Himmler em uma antiga fábrica de pólvora, após Adolf Hitler tornar-se chanceler de Berlim. Estima-se que 206 mil prisioneiros de 30 países (um terço deles judeus) tenham ido para esse campo de concentração até o fim da IIª Grande Guerra, em 1945. Destes, pelo menos 32 mil morreram ali.

“Arbeit macht frei” (‘O trabalho liberta, em alemão’), era a frase da grande placa de ferro colocada no portão de entrada do campo de concentração. Enganados, os prisioneiros não sabiam que só a morte os libertaria. Dachau tornou-se modelo para todos os demais campos que seriam construídos depois. Era dividido em duas áreas: os 32 barracões (um deles utilizado para experiências médicas) e o setor dos fornos crematórios, câmaras de desinfecção, câmaras de gás, sala de enforcamentos e depósito das cinzas.

Nos pavilhões, os esquálidos prisioneiros sofriam o pesadelo do dia-a-dia durante o período em que passavam em Dachau, algo como três ou quatro meses. Quem não morria de fome ou de doença tinha como destino os fornos crematórios...ou era fuzilado e atirado nas gigantescas valas, já ao final da Guerra.

Poucos sobraram para contar as histórias que emocionaram a humanidade. Seus terríveis relatos, mais os documentos, fotos e filmes recuperados, são testemunhas dessas horríveis fábricas de matar, responsáveis pelo assassinato de milhões de judeus na década de 40. A libertação e o fim do martírio em Dachau só ocorreu em 29 de abril de 1945, com a chegada das tropas norte-americanas.











MAIS INFORMAÇÕES E FOTOS – No site do United States Holocaust Memorial Museum (www.ushmm.org), não faltam informações sobre o Holocausto para quem quiser se aprofundar. Originalmente em inglês, há versão também em português, bastando clicar na opção desejada. Nele também podem ser vistas cerca de 30 fotos impressionantes registradas pelos americanos quando invadiram esses campos de concentração. Ver em:
www.ushmm.org/wlc/media_ph.php?lang=en&ModuleId=10006237&MediaId=4041

terça-feira, 14 de abril de 2009

Correndo atrás dos sonhos

O CHILE NA VISÃO DE UM
FOTÓGRAFO BRASILEIRO


Torcedores da Universidad de Chile no grande clássico contra o Colo Colo.

Trem do metrô em bairro de Santiago. Ao fundo, a Cordilheira dos Andes.

Uma das três casas do poeta Pablo Neruda na capital chilena: "La Chascona", um museu.

A beleza noturna do Palácio de La Moneda, a sede do governo.

Bandeira no túmulo de Salvador Allende.



No Cemitério General de Santiago, memorial dos presos políticos mortos e desaparecidos durante a ditadura do General Augusto Pinochet.“A ditadura aqui no Chile foi terrível”, conta o fotógrafo. “Até hoje ainda podemos ver as cicatrizes e as consequências que ela deixou.”

A bela paisagem do Cajon Del Maipo, ao sul de Santiago, a 40 quilômetros de Santiago.

Rodrigo é um jovem e competente fotógrafo brasileiro. Atualmente mora em Santiago. Sua mulher, Maritza Cornejo Campos, é chilena. Casados, viveram no Brasil durante um bom tempo. Dificuldades aqui, novas perspectivas em outro país e possibilidade de melhor educação dos filhos Marcelo, Mikaela e Rodrigo no Exterior levaram o casal à mudança.

Grande parte da imprensa esportiva de São Paulo conhece Rodrigo Fernando Campos. Ele trabalhou na área administrativa da Aceesp (Associação dos Cronistas Esportivos do Estado de São Paulo) durante 28 anos (1979 a 2007). No início, não passava de um adolescente. Entrava e saia das redações de jornais e emissoras de rádio e TV à procura de jornalistas, sempre a serviço da Aceesp. E foi conquistando a simpatia de todos com seu sorriso, gentileza e educação.

Prestou serviços nas gestões de Flávio Adauto, Loureiro Júnior, Lucas Neto, Aroldo Chiorino, Odair Pimentel, Roberto Monteiro, Ênnio Rodrigues, Edson Scatamachia, Sérgio Carvalho, Mário Marinho, Paulo Cezar Correia e Ricardo Capriotti.

Ao mesmo tempo, foi se entrosando e gostando do jornalismo, das comunicações. Começou fazendo registros fotográficos dos eventos da entidade. Aperfeiçoou-se. Freelancer, trabalhou para agência de notícias, empresas de eventos, assessorias de comunicação. Até mudar totalmente de rumo. Despediu-se da Aceesp e voou atrás dos sonhos. Hoje, vive no Chile. E está disponível para serviços a chilenos e brasileiros.

Atenção editores do Estadão, da Folha, do Diário, do Lance. Quem estiver precisando de cobertura fotográfica de qualquer tema (esportes, geral, turismo, etc) entre em contato com o Rodrigo no seguinte endereço eletrônico: rodrigofc4@hotmail.com

terça-feira, 7 de abril de 2009

Tensão no Muro de Berlim


Na vista panorâmica de 1970, o Muro de Berlim à direita, dividindo a Alemanha, e a Porta de Brandemburgo à esquerda.

JORNALISTAS BRASILEIROS ASSUSTADOS
NA TRAVESSIA DA PORTA DE BRANDEMBURGO


Berlim, 1973 – Não foi sem preocupação que entramos naquele micro-ônibus, apesar de não escondermos a expectativa provocada pela autêntica aventura que iniciaríamos. Era, sem dúvida, uma oportunidade única, uma experiência que, sabíamos, jamais seria esquecida. Ao todo, 17 jornalistas brasileiros fariam a travessia do Muro de Berlim, símbolo da guerra fria e da divisão da Europa, que duraram mais de 40 anos, acelerando a decomposição do bloco comunista europeu e permitindo a posterior reunificação da Alemanha após a sua derrubada a marretadas em 9 de novembro de 1989.

Acompanhávamos uma excursão da Seleção Brasileira pela África e Europa. Eu fazia a cobertura para a Folha de S. Paulo. Após o jogo contra os alemães no estádio Olímpico de Berlim, na então Alemanha Ocidental, cruzaríamos a muralha e pegaríamos um avião do outro lado, na Alemanha Oriental, rumo a Moscou, na União Soviética (Rússia de hoje).

Estavam comigo, João Prado Pacheco (do Estadão), Roberto Avallone (Jornal da Tarde), Milton Peruzzi (Rádio Gazeta), Oldemário Touguinhó e Dácio Mallandro (Jornal do Brasil), Altair Baffa (Jornal dos Sports), Hideki Takisawa (O Globo), além de outros companheiros do Rio, de Minas Gerais, de Pernambuco e do Rio Grande do Sul.

Fomos deixando aos poucos o centro de Berlim Ocidental, arborizado, com grandes avenidas e edifícios modernos já na década de 70. À medida que o veículo se aproximava da “fronteira”, a paisagem ia rapidamente mudando: ruas estreitas, sobrados pequenos, geminados, com janelas cobertas por tijolos, mostrando muitos buracos de rajadas de metralhadoras nas paredes, um rombo aqui, outro ali. Sinais da II Guerra Mundial que se perpetuavam. Ninguém nas ruas. Muito silêncio.

Enfim, a surpreendente visão da gigantesca Porta de Brandemburgo, imponente e fria, tendo à frente a grosseira muralha de 162 quilômetros. O micro-ônibus entrou pela lateral, seguindo por um corredor isolado. À frente via-se uma guarita. A Porta de Brandemburgo surgia imponente à esquerda. Como em um filme, a gente se recordava daqueles que tentavam passar correndo do lado oriental para o ocidental na busca desesperada por parentes e eram alvejados pelos fuzis dos soldados da Alemanha comunista.

Mas antes da chegada à Porta de Brandemburgo havia uma imensa cerca de arame farpado e um vazio enorme dos lados. No meio, um único caminho, estreito, rumo à travessia. O micro-ônibus seguia lentamente em direção à fronteira. Dentro dele, silêncio total. Todos os jornalistas olhavam através das janelas, observavam detalhes, mas não trocaram palavras.

De repente, soldados fortemente armados determinaram que o veículo parasse. Porta aberta, entraram três militares. Um ficou ao lado do motorista, empunhando um fuzil. Um segundo passou a caminhar pelo corredor e a exigir os passaportes dos jornalistas brasileiros. Um terceiro vinha após, só observando as pessoas, olho no olho, semblante frio. Às vezes parava para fixar alguém mais demoradamente.

Essa revista parecia estar levando horas. Os três soldados desceram, reuniram-se à frente do ônibus, observaram cuidadosamente todos os documentos, um a um, com uma calma irritante. Depois perguntaram o que o grupo estava fazendo ali. Explicações dadas, finalmente concluíram a revista e liberaram o veículo, para alívio de todos. Só quando o micro-ônibus retomou sua lenta caminhada em direção à Porta de Brandemburgo, girou à esquerda e cruzou-a surgiram os primeiros comentários, principalmente na passagem pelo histórico monumento. O que mais impressionava era o isolamento do local. Ninguém à vista. O muro ia ficando distante.

Apesar de o muro circundar Berlim ocidental, dentro de Berlim oriental, o “mundo” parecia acabar para Berlim oriental, naquela ‘fronteira’. Porém milhares de alemães do lado oriental ainda tentavam atravessar para escapar deste regime e ir ter uma vida melhor no lado ocidental. Eles tentavam entrar de todas as formas, dentro de porta malas, dentro de capas de pranchas de surf, dentro de aviões cargueiros, de balões… Eles até tentavam nadar pelo rio para chegar a “liberdade”, Berlim ocidental. Muitas destas tentativas de travessia acabaram tragicamente. Consta nos documentos oficias que os guardas do muro, mataram 270 fugitivos, e é estimado que 940 tenham morrido durante o processo de travessia.

Voltaram a aparecer casas pequenas, todas de janelas fechadas, até que o ônibus seguiu rumo à pista do aeroporto de Berlim Oriental. Antes do embarque, em um assustador avião russo – parece que um Topolev da empresa estatal Aeroflot – uma nova revista das autoridades alemãs. Desta vez abriram malas, sacolas, pacotes. E confiscaram tudo o que consideravam “proibido”: bebidas, revistas e filmes pornográficos comprados pelos brasileiros em Berlim Ocidental. Quando o sinistro avião enfim decolou, todos respiraram aliviados, embora não confiassem nem um pouco naquele aparelho. Felizmente, porém, todos desembarcaram sem sustos em Moscou, mas ainda com as inesquecíveis imagens do muro de Berlim na memória.

Construído em 1961, o Muro da Vergonha tinha 162 km separando as Alemanhas. Ele era de concreto, encimado por um cano ou cerca de metal com 3,5 a 4,2 metros de altura. A distância para o outro lado da fronteira era de 50 metros. Nesse espaço existia ainda uma armadilha para tanques (fosso de 3 a 5 metros de largura), uma pista operacional em faixa de areia de 6 a 15 metros de largura, obstáculos para tanques e no outro extremo, quase grudada com o lado ocidental, uma cerca de arame, com 2 metros de altura, equipada com sensores e alarmes e muita iluminação. Por último, uma parede interna de malha de aço com 2 metros de altura.

Só 16 anos após a tensa travessia dos jornalistas brasileiros, em 9 de novembro de 1989, Gunter Schabowski, secretário distrital do Partido comunista da Alemanha Oriental em Berlim anunciou a decisão tomada pelos seus chefes de permitir o trânsito limitado e controlado de alemães orientais através do Muro de Berlim. A concessão deveria ser para o dia seguinte, para aliviar as pressões sofridas pela República Democrática da Alemanha (RDA), que vinham aumentando no verão e outono, à medida que Mikhail Gorbachev deixava cada vez mais claro que a União Soviética não ia mais servir de escora para os marxistas congêneres do Leste Europeu. Mas em vez de dizer que a concessão seria para o dia seguinte, Schabowski declarou que as novas regras entrariam em vigor “imediatamente, sem demora”.

Foi o que bastou. Em questão de horas, emocionados berlinenses do Leste passaram pelos guardas de fronteira, forçaram a abertura das passagens através do muro e entraram e, bandos em Berlim Ocidental. Logo estavam dançando em cima do muro, arrancando lascas com martelos e pés-de-cabra e depois, literalmente, derrubando-o com motoniveladoras e escavadeiras. Assim, o próprio símbolo de um continente dividido por quase meio século foi desmoronando, quase da noite para o dia. Mais tarde, um banquete de gala no Hotel Adlon recepcionou os três chefes de estado que estiveram no centro do drama: Mikhail Gorbachev (da União Soviética), Helmuth Kohl (da Alemanha) e George Bush (dos Estados Unidos).

Novembro de 2009 marcará a passagem de 20 anos da queda do Muro da Vergonha, que separou a Alemanha. Hoje, prevalece a imponência dos Portões de Brandemburgo (“Brandenburger Tor”), obra construída entre 1789 e 1791, símbolo da cidade de Berlim, símbolo da prosperidade e da unificação alemã.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Medo no culto ecumênico de Herzog

DITADURA ASSASSINA VLADIMIR HERZOG
E 8 MIL PESSOAS VÃO À CATEDRAL DA SÉ


A Catedral da Sé, em São Paulo, estivera lotada naquela tarde de 31 de outubro. Cerca de oito mil pessoas, dentro e fora da igreja, participaram do culto ecumênico em memória do jornalista Vladimir Herzog, 38 anos, torturado e morto nos porões do DOI-Codi. Era difícil sair da catedral após a cerimônia. Todos caminhavam lenta e silenciosamente.

De fronte a qualquer uma das várias saídas da igreja havia uma câmera estrategicamente posicionada, filmando um a um os participantes do culto que deixavam o local. Saber que você estava sendo observado e vigiado dava calafrios, ao contrário de hoje, quando enfrentamos normalmente as câmeras dos bancos, dos supermercados, das lojas ou do elevador do condomínio onde moramos. O momento era outro. Era 1975. A ditadura imperava. Jornalistas eram torturados. Alguns, até a morte, como Vlado.



Na Catedral da Sé, 30 anos após, houve missa em memória a Herzog.




“Esse culto se transformou na maior manifestação de massa do povo brasileiro contra a ditadura, desde as passeatas do Rio em 68”, lembra Audálio Dantas, presidente do Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo em depoimento ao jornalista José Hamilton Ribeiro no livro “Jornalistas, 1937 a 1997”. Dom Hélder Câmara veio de Pernambuco, mas passou todo o ato em silêncio. Na sacristia, depois, ele disse que, “em certas situações, o silêncio fala mais alto do que a palavra”, justificando seu comportamento.

“De fato, com a catedral lotada, com gente do lado de fora, em todas as entradas, com aquela tensão toda no ar, com a presença de Dom Hélder Câmara no altar mor, de pé, impávido, sem dizer uma palavra, passava algo muito forte. Durante o ato ecumênico, quando coincidia de haver um intervalo maior de silêncio, era um silêncio tão pesado e tão absoluto que, se caísse um alfinete no chão, isso seria notado”, recorda Audálio. “Esse foi um ato de indignação definitiva. Ali se disse, sem ninguém dizê-lo, que o Brasil não aceitava mais essa história de esbirros do Governo chegarem a um cidadão, um pai de família, sumirem com ele, levando-o para quartéis escondidos a fim de ser interrogado, morto. A Catedral ficou pequena. A indignação que se manifestava ali não era de jornalistas, porque haviam matado um jornalista, mas era de vários setores da sociedade, envolvendo estudantes, trabalhadores, entidades profissionais. E se a polícia não tivesse bloqueado a região, a multidão em volta da Praça da Sé seria incalculável”, acreditava Audálio.

“A nossa luta contra a ditadura, contra as prisões ilegais, a tortura, as pressões de todo o tipo, começou na Comissão de Liberdade de Imprensa que existia desde 1967. Desde o primeiro dia, a gente acabou tomando iniciativas de denúncia, de cobrança, colocando o ponto de vista de que ninguém aceitava passivamente aquela opressão em cima de todos nós, em cima do povo brasileiro”, contou Dantas, que assumiu a presidência do Sindicato em maio. “Em outubro ocorreu a primeira prisão de jornalista. Foi o seqüestro do Sérgio Gomes. O Sindicato fez nota oficial denunciando aquela situação de barbárie, protestando veementemente e exigindo explicações do Governo. Fomos chamados ao QG do 2.º Exército. O general Ednardo D’Avila Mello afirmou que não estava havendo prisão de jornalistas, mas sim de comunistas. E era normal que inimigos fossem presos, como numa guerra. Não aceitamos o argumento. Para nós não existia jornalista comunista, era jornalista e ponto final.”

E a cada prisão de jornalista, o Sindicato fazia uma nota oficial denunciando, que os jornais publicavam. Na reunião anual da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), em São Paulo, Audálio Dantas também denunciou o que estava acontecendo. Foi chamado de novo ao QG do 2.º Exército e acusado de estar promovendo agitação, podendo ser enquadrado na Lei de Segurança Nacional, artigo 14: tentativa de indispor o povo contra a autoridade.

“A onda de prisões de jornalistas continuava. Num momento havia 12 ou 13 presos nas várias repartições do Exército e do Dops em São Paulo. O fato de a gente denunciar cada caso e protestar contra os abusos, com o apoio da OAB, ABI, Arquitetos etc, os militares deixaram de seqüestrar e aqueles que eles queriam prender recebiam um ‘convite’ para comparecer às dependências do DOI-Codi. Já era um alívio, a família sabia onde a pessoa estava, podia procurar advogado etc. Mas o clima de opressão, de medo, se espraiava em ondas”, recorda Audálio.


“O Vladimir Herzog, diretor de jornalismo e apresentador da TV Cultura, soube que estava sendo visado. Dias antes de se apresentar espontaneamente no DOI-Codi foi à minha casa. Disse-lhe que o Sindicato estava de prontidão e poria a boca no mundo com toda força se houvesse um seqüestro, constrangimento, pressão. Outros jornalistas já estavam presos, o Sindicato buscava notícias deles quase todos os dias, e ele ficou de se apresentar no sábado, 25, dia em que eu faria uma palestra sobre Liberdade de Imprensa em Presidente Prudente (SP)”, acrescenta Audálio.

Vladimir Herzog se preparou psicologicamente. “Não tenho nada a temer. Amanhã me apresento, esclareço tudo e volto para casa”, disse Vladimir dia 24, como relembrou o jornal Unidade, do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo.


Às 8 horas de 25 de outubro, um sábado, Herzog se apresentou no DOI-Codi, na rua Thomaz Carvalhal, no bairro paulistano do Paraíso. À tarde Vlado morria nos porões da ditadura, vítima de torturas. O 2.º Exército, em nota oficial amplamente divulgada pela mídia, afirmava que Vladimir Herzog se suicidara: havia se enforcado. Amarram o seu corpo pelo pescoço às grades de uma cela. No dia seguinte, a diretoria do Sindicato dos Jornalistas, que já vinha denunciando prisões, emitia nota contestando a versão oficial de suicídio. “O Sindicato – dizia a nota assinada pelo presidente Audálio Dantas – considera que, em todos esses casos, como em qualquer outro, as autoridades tornam-se responsáveis pela integridade física e respeito aos direitos humanos e jurídicos dos detidos”. E acrescentava: “Os jornalistas não estão em crise, e sim de luto, em torno da memória do colega morto. Não assumem uma crise que não criaram, assim como não se intimidam diante de um cadáver”.

Audálio Dantas soube da morte de Vlado em Presidente Prudente. “Na madrugada de domingo fui acordado no hotel pelo Fernando Pacheco Jordão: ‘Mataram o Vlado’, dizia enquando chorava, sem saber dar maiores detalhes. Consegui um lugar extra em um avião, cadeirinha lateral para emergências. Fiz a viagem mais angustiada da minha vida. No vôo encontrei uma amiga querida, a cantora Elis Regina, que ficou horrorizada com a notícia e ofereceu a sua solidariedade”.

O velório, no Hospital Albert Einstein, foi rápido, apressado, e o sepultamento, no Cemitério Israelita do Butantan, também. “Outro fato dramático foi a presença – numa parte mais alta do cemitério, como autômatos, escoltados, alguns ainda com marcas de tortura física, enfileirados – dos seis companheiros jornalistas Rodolfo Konder, Paulo Markun, Diléa Frate, Marise Egger, Duque Estrada e Anthony Cristo, que tinham sido presos com Vlado. Os seis foram levados da cela para o cemitério, num ato de aparente magnanimidade, mas que, de fato, era uma outra face da tortura. Os seis ali, sofrendo, e fazendo aumentar mais a tensão e a dor de todo mundo”, acrescentou Audálio Dantas (foto abaixo).

A partir da morte de Vladimir Herzog, o Sindicato dos Jornalistas tornou-se o endereço da resistência à ditadura. Quis o destino que saísse do Sindicato dos Jornalistas o primeiro grito efetivo de basta à tortura no Brasil. “É quase uma ironia. Partiu de um Sindicato tão pequeno como o nosso um protesto que foi aumentando, foi se robustecendo, foi juntando forças até se tornar, como de fato se tornou, um grito irreprimível da sociedade civil brasileira: Chega! Não queremos mais ditadura! Queremos viver com dignidade, num Estado de Direito!”, disse Audálio Dantas.

As denúncias do Sindicato tiveram apoio crescente de outros setores, inclusive o estudantil. Trinta mil estudantes da USP entraram em greve. Para os militares, tudo não passava de provocação. Em janeiro de 1976 um manifesto assinado por 1.004 jornalistas (do qual, ainda na Folha, tive orgulho de participar) foi publicado nos jornais Unidade e em O Estado de S. Paulo, contestando a versão oficial de suicídio de Vladimir. Naquele tempo, assinar e publicar um manifesto era um ato de coragem contra a ditadura. Os livros de História do Brasil citam o assassinato, o culto ecumênico, mas omitem o manifesto e a luta dos jornalistas para esclarecer o caso.

A escalada da repressão e tortura teve início em maio de 1975, logo após Audálio Dantas assumir a presidência do Sindicato dos Jornalistas liderando a chapa de oposição, que em seu programa destacava que a luta pela democracia seria uma de suas principais bandeiras. Como o próprio Audálio recordou, foram presos e torturados vários jornalistas, entre os quais Sérgio Gomes da Silva, Ricardo de Moraes Monteiro, Frederico Pessoa da Silva, Anthony de Cristo, José Vidal Pola Galé, George Duque Estrada, Rodolfo Konder, Paulo Sérgio Markun, Diléa Frate, Marinalda Marchi, Milton Coelho da Graça e Luís Weiss.

Como Markun, Diléa e Pola Galé, o jornalista Nélio Lima também era da Folha de S. Paulo. Foi preso e torturado. Um dia, tempos após, contou-me que quando estava sendo torturado abriam a sua agenda de telefones e perguntavam sobre cada nome. “Quem é esse Sérgio Barbalho?”, inquiriu o investigador. “É um colega meu de redação da Folha”, respondeu Lima. É evidente que imediatamente passei a ser investigado. Felizmente, porém, não fui convocado para depor, nem fui preso.

Em 1982, o juiz federal Márcio José de Moraes, com sua sentença demoliu a versão da ditadura militar de que Vlado se suicidara e declarou a União responsável pela sua morte, no processo movido por sua viúva Clarice e seus filhos Ivo e André em 1976. “A versão oficial, segundo a qual Vladimir Herzog ceifara a própria vida, é inverossímil e mal encobre a farsa que se montou no DOI-Codi do 2.º Exército para ocultar o brutal assassinato do marido e pai dos autores”, afirmou o magistrado. A sentença foi confirmada em segunda instância. A União interpôs embargos infringentes, o que levou o processo a se estender até o final de 1996, quando enfim a Justiça responsabilizou o Estado pela morte de Vladimir. Em julho de 1997, mais de 21 anos após o desaparecimento de Vlado, por meio de decreto, o presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, reconheceu que a União foi a responsável pela morte e indenizou a família Herzog em R$ 100 mil. O decreto incluiu mais 59 famílias de presos, desaparecidos políticos e de mortos pela repressão.