quarta-feira, 25 de março de 2009

Neve e furo em Schwartzwald


Em meio ao vento gelado da Floresta Negra, em foto de Fernando dos Santos, estão os jornalistas Flávio Adauto, Sérgio Barbalho, Vital Bataglia, fotógrafo de O Globo, Belmiro Soltier, Elói Gertel e Altair Baffa, aguardando a abertura da concentração da seleção brasileira na Copa da Alemanha em 1974.

A bela Feldberb, na Alemanha, com sua neve, acabou sendo um sério obstáculo para os jogadores.

CLIMA ALEMÃO ARRASA
PLANOS DE ZAGALLO


Faltava um mês para a Copa do Mundo começar na Alemanha. Os jogadores da Seleção Brasileira ainda estavam no Rio. No domingo seria disputado o último amistoso, no Maracanã. No dia seguinte, a viagem para a Europa, com desembarque na Basiléia (Suíça) e ida para a Floresta Negra, de ônibus. Do programa constava um período final de preparação para o Mundial de 74 na concentração de Herzogenhorn, em Feldberg, nos alpes alemães, em uma região conhecida como Schwartzwald (Floresta Negra), antes de o grupo se instalar definitivamente em Frankfurt, local do jogo de abertura da Copa, dia 13 de junho, contra a Iugoslávia.

Repórter escalado pelo editor Dante Mattiussi para a cobertura da Copa para a Folha de S. Paulo, eu viajei para a Europa no inicio de maio, juntamente com o companheiro Flávio Adauto e o fotógrafo Fernando dos Santos, dias antes do embarque da Seleção. Chegamos na Basiléia numa sexta-feira. No dia seguinte, em carro alugado, seguimos os três rumo à Floresta Negra, em uma viagem de apenas 50 quilômetros, mas difícil por ser em região montanhosa e alcançada somente em estrada de pista estreita e com muitas curvas. Ao chegarmos perto do local do hotel escolhido pela Comissão Técnica para ser concentração da Seleção Brasileira, em Feldberg, fomos surpreendidos pela neve. Subindo o morro em direção ao hotel Herzogenhorn, a situação ia se complicando, com mais neve, queda de temperatura e muita cerração. No cume era quase impossível enxergar-se construções, campo de futebol e tudo o que ultrapassasse cem metros. Procuramos pelo gerente do hotel, que confessou estranhar a temperatura e a neve naquela época do ano.

Péssima notícia para a Seleção Brasileira, que em 48 horas estaria no local e dentro de 24 horas disputaria um jogo no Maracanã sob uma temperatura em torno de 30 graus. Quando o técnico Mário Lobo Zagallo e o médico Lídio Toledo estiveram na Floresta Negra para escolher um local de concentração para o grupo, em dezembro de 1973, não tiveram a informação de que em maio ainda poderia haver neve e baixas temperaturas na região. Se tivessem, evidentemente escolheriam outro local. E evitariam os muitos problemas que ocorreram depois e prejudicaram a participação do Brasil na Copa.

Quando nos refizemos da surpresa em plena Floresta Negra, começamos a anotar todas as informações possíveis, ouvindo administradores do hotel, funcionários e seguranças. Flávio e eu fizemos um levantamento completo de como era a concentração da Seleção, enquanto o Fernando fotografava tudo. Por recomendação da dupla de repórteres, ele caprichou nas fotos externas, que mostravam a neve. Quando sentimos que tínhamos tudo o que seria necessário para uma boa reportagem, “voamos” de volta à Basiléia. Se apanhamos na ida para acharmos o caminho, no retorno já foi mais fácil e chegamos ao hotel onde estávamos hospedados no final da tarde.

Fernando correu para o banheiro e improvisou um estúdio para revelar os filmes. Era 1974, não havia internet, computador, celular. Ele preparou várias fotos, desmontou o telefone do apartamento, instalou o aparelho de transmissão de telefotos na linha telefônica e “mandou” as imagens para a sede da Folha, na alameda Barão de Limeira, nos Campos Elíseos, em São Paulo. Todo esse processo demorou um bom tempo. Enquanto isso, Flávio Adauto e eu trocamos idéias, estabelecemos quais matérias faríamos e começamos a datilografar em máquinas de escrever portáteis que costumávamos carregar para tudo quanto é canto.

Em 1974 também não existia o fax. Teríamos de utilizar máquinas de teletipo para a transmissão por linha telefônica. Antes de deixarmos o Brasil havíamos pedido a instalação de um telex no nosso apartamento. Mas como havíamos chegado na véspera, sexta-feira, o equipamento ainda não estava colocado. Só na segunda-feira. Também não podíamos nos socorrer de teletipos do correio suíço porque tudo estava fechado na tranqüila Basiléia no início da noite de sábado. E o telex do hotel não estava disponível.

A alternativa que restou foi telefonar para o Brasil e ditar as matérias para um funcionário do setor de comunicações da Agência Folhas digitar o texto. Trabalhamos muito e por longo tempo. Mas o material estava todo na redação antes das 18 horas, com tempo de ser aproveitado na edição de domingo da Folha de S. Paulo. Fomos beneficiados pela diferença de fuso horário entre o Brasil e a Suíça, que era de quatro horas.

Cansados, porém satisfeitos, saímos para jantar. Só que, às 22 horas locais, não havia nenhum restaurante aberto nas imediações. A solução foi ir até a estação ferroviária (na Europa tem trem para todo canto a qualquer hora) e matar a fome com um lanche.

Mesmo assim, estávamos alegres. O importante foi o furo jornalístico. A Folha de S. Paulo foi o único jornal brasileiro a mostrar no domingo, dia do tal jogo de despedida da Seleção no Maracanã, que os jogadores e a Comissão Técnica encontrariam na segunda-feira, em Feldberg, na Alemanha, uma concentração cercada pela neve e pelo frio. Não poderia ser pior a recepção para a Copa do Mundo.

Até arriscamos algumas previsões: de que seria muito difícil a preparação em gramado molhado e pesado, com vento e cerração. E que o clima poderia ser o responsável por contusões musculares pouco antes da estréia no Mundial. Não deu outra: durante a fase final de preparação na Floresta Negra vários treinos foram adiados devido ao mau tempo, outros foram realizados dentro da concentração pelo mesmo motivo. E vários jogadores sofreram contusões. A maior baixa foi Clodoaldo. Titular absoluto, integrante da Seleção Brasileira que foi tricampeã em 1970, na Copa do México, ele foi vítima de uma contusão, não conseguiu se recuperar e acabou sendo “cortado” do Mundial da Alemanha pelo médico Lídio Toledo.

Mas, as péssimas condições climáticas não atingiram só os jogadores. Vários jornalistas tiveram de procurar o auxílio de médicos. Como também foram obrigados a comprar roupas de inverno e botas contra a umidade. Um repórter de São Paulo, inclusive, teve de ficar acamado, em tratamento: Elói Gertel, vítima de uma pneumonia, que desfalcou a equipe do Jornal da Tarde. Foi substituído por um bom tempo pelo repórter Cândido Garcia, que estava trabalhando pela rádio Jovem Pan e acabou acumulando funções para ajudar o companheiro de profissão.

terça-feira, 24 de março de 2009

Jornalismo e bom humor


Zé Nello Marques – A Voz de São Paulo

Companheiro em importantes coberturas jornalísticas na Jovem Pan e na Bandeirantes, José Nello Marques agora está na Record e comanda o ágil "Programa Zé Nello Marques - A Voz de São Paulo", com muita prestação de serviço nas áreas de Saúde, Educação, além de auxiliar o paulistano nas suas reivindicações diárias por uma cidade melhor. A informação em tempo real é outro ingrediente importante do novo programa. Zé Nello (na foto com Cris Flores no estúdio da Record) leva, ainda, "a experiência adquirida em tantos anos de microfone para duas horas de informação e prestação de serviço, sem perder o bom humor”. O Programa José Nello Marques - "A Voz de São Paulo" vai ao ar de segunda a sexta-feira, das 16 às 18 horas, na Rádio Record AM (1.000 kHz - São Paulo/SP). Vale a pena conferir.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Homenagem a Reali Jr


Às margens do Sena,
um doutor em jornalismo



E o excelente Reali Jr, após mais de três décadas como correspondente internacional da Jovem Pan e de O Estado de S. Paulo em Paris, foi homenageado com o título de professor honoris causa do Complexo Educacional FMU. A cerimônia reuniu profissionais dos principais órgãos de imprensa do País.

Ao longo desses anos, a casa do Reali na capital francesa sempre pareceu embaixada brasileira: tornou-se um ponto de referência para jornalistas, artistas, empresários e políticos. Tive o prazer de ser companheiro do Realinho na Jovem Pan e no Estadão. Na Pan, como produtor do Jornal de Esportes, programa diário do qual ele era participante freqüente. No Estadão, como copy da editoria de esportes, onde preparava seus textos, que – antes da Internet – chegavam à redação via telex ou fax.

Na definição de Ricardo Kotscho, o correspondente internacional Elpídio Reali Júnior, 68 anos, “é um tipo raro de jornalista que consegue reunir três qualidades ao mesmo tempo: tem um enorme talento, é um pé de boi para trabalhar e não abre mão dos seus princípios. Reali Jr. é um jornalista de caráter.” Kotscho conseguiu o discurso de agradecimento do homenageado e o apresenta na íntegra em seu blog “Balaio do Kotscho”. Como nem todos os amigos de Reali puderam participar da cerimônia, reproduzo aqui alguns trechos do seu agradecimento:

“Jamais pude imaginar, jamais passou pela minha cabeça, que um dia receberia um título geralmente reservado a professores eméritos, intelectuais que têm marcado suas vidas pelo saber. Estou aqui para agradecer a todos os que de uma forma ou outra participaram da materialização desse título.

Em primeiro lugar, aos veículos onde trabalhei durante décadas e que me permitiram estar aqui hoje: a Jovem Pan e O Estado de São Paulo. Ambos me ofereceram a liberdade de expressão, jamais cerceada, mesmo nos momentos mais difíceis.

Gostaria de citar o exemplo de mestres como Cláudio Abramo, Mino Carta, Fernando Pedreira, Nabor Cayres de Brito, Mauro Guimarães, Fernando Vieira de Mello, nomes do rádio, da televisão e dos jornais. Agradeço ao Complexo Educacional FMU, FIAMFAAM e FISP e a seu conselho, principalmente ao Professor Edevaldo Alves da Silva, que tive a honra de conhecer e admirar desde o início de sua atividade.

Consagrei toda minha vida, desde os 16 anos, à “profissão repórter”. Desde o início, sempre procurei o mesmo objetivo - a informação mais correta e não manipulada. Posso ter cometido falhas e enganos – não propositais, mas causados pela minha própria incapacidade, como correspondente, no exterior, de “O Estado” e da “Rádio Panamericana”. Passei também, aqui no Brasil, por redações de outros órgãos de imprensa – TV Bandeirantes, O Globo, TV Globo, TV Record e ESPN.

Em todos esses órgãos privilegiei a ética jornalística, na busca e publicação da informação, procurando fazer dela o exemplo de dignidade da profissão. Lembro-me da forma como, há algumas décadas, alguns patrões encaravam seus repórteres. Pude assistir à evolução da profissão e como certos colegas hoje se destacam, com um comportamento profissional que nada tem a ver com o passado. A eles também quero agradecer. A nova geração que começa a se destacar traz consigo, em sua forte maioria, esse respeito ético, mesmo sabendo que o caminho ainda será longo.

Toda a minha vida foi consagrada ao meu trabalho de repórter. Não tive a pretensão de ser um grande articulista, que através da palavra escrita se impõe, mas sim um apurador de notícias, um obstinado na busca da informação que caracteriza a “profissão repórter”. Antes de tudo a informação pura, real, e só depois a análise mais profunda e suas conseqüências.

Não me apresento como um observador ou comentarista dos fatos, nem como um professor de jornalismo, mas como um repórter que buscou exemplos dentro e fora de suas atividades, para construir sua carreira profissional.

Mas nada mais fiz do que o meu dever.

Na minha vida tive sucessos e enfrentei alguns fracassos, como todos os homens, mas sempre procurei deixar a meus descendentes um legado de ética e honradez. Mesmo afastado do Brasil há quase 40 anos, durante todo este tempo sonhei em ver meu país mais equilibrado, com melhor distribuição de renda e mais próximo de seus objetivos sociais. Procurei buscar lá fora exemplos positivos, que pudessem ajudá-lo nesse caminho. Apesar dos pesares, esses exemplos ainda existem.

Também quero agradecer à generosidade e ao carinho dos meus ouvintes e leitores de São Paulo, cidade que sempre me recebeu como um filho. Por tudo isso, espero ser digno da distinção, que aceito com muita humildade.”

quarta-feira, 18 de março de 2009

Ditadura fecha jornal



ÚLTIMA HORA INVADIDA
POR POLICIAIS. É A DITADURA


Eu tinha 20 anos, era um autêntico foca, repórter com apenas um ano de experiência. Trabalhava na editoria de esportes da Última Hora. Meu editor era um jornalista famoso, Álvaro Paes Leme, cara de mau, grande coração. O subeditor era João Zicardi Navajas, que depois trocou o jornalismo pela carreira diplomática. Outro colega de redação era o José Astolphi, que tempos depois optou por ser árbitro de futebol e de basquete. Também trabalhavam no esporte o Celso Itiberê, que fez carreira em O Globo, o Wilson Takahashi, o Amaury Medeiros.

Grandes jornalistas estavam na Última Hora. O editor-chefe era João Batista Lemos. A redação também era freqüentada por colunistas famosos como Ignácio de Loyola Brandão, Jô Soares, Arapuan (Sérgio de Andrade), Alik Kostakis, Benedito Ruy Barbosa, Mário Prata, Giba Um e tantos outros.

A Última Hora de São Paulo seguia a mesma linha de sua matriz, no Rio de Janeiro, do grande jornalista Samuel Wayner. Seu lema: “Um jornal vibrante, uma arma do povo”. A UH se transformou, de acordo com os mais experientes, na maior escola de jornalismo do País. Era um jornal polêmico, combativo.

31 de março, 1964. Havia um ambiente estranho no ar. A redação recebia telefonemas terroristas, ameaças de morte, de sequestros. A Última Hora era ligada a líderes estudantis e sindicais. Muito visada porque apoiava o presidente Jango Goulart, cria do presidente Getúlio Vargas. Quando quis montar o jornal, Samuel Wainer procurou Getúlio e conseguiu financiamento do Banco do Brasil. No último dia de março surgiram as primeiras notícias de movimento de tropas do Exército em marcha do Sul para São Paulo.

A sede da Última Hora ficava no Vale do Anhangabaú, entre a Avenida São João e o Viaduto Santa Ifigênia, quase em frente ao edifício dos Correios, local depois ocupado durante 40 anos por um estacionamento. Era uma construção plana, com amplos vidros. De fora dava para ver a redação.

Surgiu a informação de que a UH seria invadida pelo CCC, Comando de Caça aos Comunistas. Ninguém sabia se o jornal sairia no dia seguinte, se contaria detalhes do golpe militar contra Jango, de sua fuga. Os jipes pintados de azul da UH, que eram utilizados pelos repórteres, não estavam de fronte à redação, ao contrário do que sempre ocorria. Todos estavam circulando pelas ruas de São Paulo com repórteres buscando informações.

A tensão era grande quando chegou a tropa de choque da Força Pública (a Polícia Militar de hoje). A sede da Última Hora foi invadida pelos policiais que tomaram o prédio, expulsaram todos que estavam dentro do edifício e trancaram as portas. Ninguém apanhou, embora todos fossem empurrados.

Não havia nenhum fotógrafo na redação naquele momento. Todos estavam nas ruas, registrando a movimentação daqueles dias que passaram para a história do País. Os jipes e as Kombis que estavam na garagem também não podiam sair. Eu tinha um automóvel que estava estacionado muito próximo. Pouco antes de toda aquela confusão recebi a incumbência de buscar o fotógrafo Utaro Kanai, que estava de folga naquele dia. Ele morava na Zona Norte da Capital.

Alto, magro, bigodinho, Utaro parecia sempre saber de tudo, mas naquele 31 de março desconhecia o que estava acontecendo com o seu jornal. Poucas foram as indicações sobre o seu endereço e tive muitas dificuldades para encontrar a sua casa. Mas a encontrei e levei o surpreso fotógrafo para a sede do jornal. A missão de Kanai era registrar a Última Hora cercada por policiais. Valeu o esforço. Ele cumpriu o seu trabalho. Eu, também. Só que as fotos não foram publicadas. Não houve edição. No dia 1º de abril as portas de aço não se abriram. Exemplares da edição da véspera, 31 de março, não estavam nas bancas de jornais. Haviam sido retirados por soldados. A Última Hora estava fechada pela Ditadura.

sábado, 14 de março de 2009

Incêndio na Paulista



TRANSMISSÃO IMPROVISADA
TOMA O LUGAR DO FUTEBOL


Era uma tranqüila tarde de sábado, abril de 1981. Avenida Paulista, esquina com a rua Joaquim Eugênio de Lima. Edifício Sir Winston Churchill, 24º andar, sede da rádio Jovem Pan. A seleção brasileira estava pronta para enfrentar a Colômbia, nos preparativos para a Copa da Espanha, que seria disputada no ano seguinte. A emissora iria transmitir o jogo com o narrador José Silvério, o comentarista Orlando Duarte e o repórter Wanderley Nogueira, diretamente de Bogotá.

Enquanto a transmissão não começava, Milton Neves, do plantão esportivo, levantava informações que seriam utilizadas a seguir. Na central técnica, o chefe Paulo Freire começava a manter contato com a Embratel para a abertura de linha internacional de transmissão. Como coordenador do departamento de esportes, eu acompanhava tudo, aguardando contato para combinar detalhes finais com a equipe que estava na Colômbia, tão logo a linha fosse aberta.

Havia pouquíssimas pessoas na rádio. A maioria estava de folga. Em uma viatura de FM, o repórter Chico Verani, único da equipe de jornalismo de plantão naquela tarde, circulava pelas ruas em busca de informação.


Foi quando todo o panorama mudou. Um incêndio irrompeu no Edifício Grande Avenida, na Paulista, provocado por um curto-circuito. As chamas começaram a tomar conta dos andares superiores do prédio. Notícia confirmada, Chico Verani passou a informar. Os poucos profissionais que estavam na emissora começaram a tomar providências visando uma melhor cobertura jornalística.

Paulo Freire, o chefe da central técnica, armado de cabos, microfones e fones, subiu para o último andar do prédio da Jovem Pan, uma sacada ao ar livre, e improvisou um local que permitisse a visão do edifício em chamas. Providência tomada, testou o equipamento e me avisou. E eu chamei o Milton Neves, que instantes após deixaria de ser o responsável pelo plantão de esportes para ancorar a cobertura especial do incêndio. Milton subiu correndo os últimos lances de escadas até o 25º andar e colocou-se a postos. Instantes após, passou a comandar a transmissão naquele estúdio improvisado ao ar livre. Enquanto isso, repórteres que estavam de folga eram contatados por telefone para reforçar a cobertura. Outros, ouvindo a rádio, correram para o local mesmo sem convocação. Minutos após já estavam no local os repórteres Milton Parrom e José Nello Marques.

Enquanto isso, a Embratel abria a linha internacional. Avisei Silvério, Orlando e Wanderley sobre o incêndio. Eles se prepararam para o início da transmissão internacional diretamente de Bogotá que, obviamente, foi sendo retardada à medida em que as labaredas iam tomando conta da construção e se multiplicavam as viaturas do Corpo de Bombeiros de fronte ao edifício. No fim, a jornada esportiva internacional deu lugar ao fato jornalístico mais importante daquele momento na capital paulista. Silvério não narrou o jogo, apenas informou sobre o seu andamento. Às vezes, Orlando Duarte dava uma idéia de como estava a partida. E o repórter Wanderley Nogueira divulgava alguma informação. A prioridade era outra, deixara de ser o futebol.

Milton Neves foi comandando o programa jornalístico, contando cada vez mais com um número maior de repórteres. Passava confiança como âncora, revelando que poderia se transformar em um bom apresentador, fato que se confirmou com o passar dos anos, a ponto de hoje Milton acumular vários prêmios e ser um profissional de sucesso no rádio e na TV.

Naquela tarde de sábado, eu, que iria coordenar uma transmissão de futebol, cuidei de uma cobertura especial da emissora, sobre um incêndio em São Paulo. Mais tarde, já sob supervisão do diretor de jornalismo da Joven Pan, Fernando Vieira de Mello, que chegou correndo à rádio para assumir o comando de tudo, tendo ao seu lado o chefe de reportagem José Carlos Pereira, a transmissão teve sequência. O jogo acabou, a cobertura do incêndio continuou, entrou na noite e só se encerrou quando as chamas já estavam dominadas e os bombeiros faziam o rescaldo.

O incêndio provocou 17 mortes e 53 feridos e revelou um herói: Cosme Barreiro, que havia resolvido adiantar seu trabalho em uma empresa instalada no edifício levando junto um casal de filhos pequenos naquele que era o seu dia de folga. As chamas o surpreenderam em pleno trabalho. Isolado no andar de frente para a avenida Paulista, ele ergueu seus filhos, um a um, dependurou-os na janela do segundo andar, esticou o braço para baixo o máximo possível e largou-os em uma marquise. E, momentos antes de uma explosão, também se atirou ao solo pela janela. Todos se machucaram, mas se salvaram. O acontecimento ficou marcado na história da Avenida Paulista em mais uma tragédia da agitada São Paulo.

terça-feira, 10 de março de 2009

Personagens

FOTOS & FOTOS


















Aqui, algumas imagens de acontecimentos jornalísticos dos quais participei. Às vésperas da Copa da Inglaterra, em 1966, os jogadores Pelé, Flávio, Bellini, Fontana e Orlando caminham pela calçada de Copacabana em dia de exames médicos para a seleção brasileira. Estou ao lado de Orlando. Foto de Manoel dos Santos.


Pouco antes da Copa da Alemanha de 74, na Floresta Negra, o técnico Mário Lobo Zagallo atende jornalistas durante coletiva: Altair Baffa, Walter Nigro Moreira, eu, Luis Carlos Ramos, fotógrafo de O Globo, Tuca Pereira de Queirós, Juarez Soares e Lucas Neto. A foto é de Fernando dos Santos.













A terceira foto é da década de 60, em evento na sede da Federação Paulista de Futebol. Os personagens são João Mendonça Falcão (presidente da FPF), João Havelange (presidente da CBF e depois da Fifa) e José Ermírio de Moraes (vice-presidente da FPF). A foto é de Wilson Fonseca.













Momento em que Cândido Garcia e eu montávamos textos para o Diário Popular em uma cabine de rádio do autódromo de Interlagos, durante as Mil Milhas Brasileiras. A foto é de Ismael Alves.

Aqui, estou entrevistando o goleiro Émerson Leão na concentração da seleção brasileira na Floresta Negra, Alemanha, dias antes do inicio da Copa do Mundo de 1974. Foto de Fernando dos Santos.


Em meio ao vento gelado da Floresta Negra, em foto de Fernando dos Santos, estão os jornalistas Flávio Adauto, Sérgio Barbalho, Vital Bataglia, fotógrafo de O Globo, Belmiro Soltier, Elói Gertel e Altair Baffa, aguardando a abertura da concentração da seleção brasileira na Copa da Alemanha em 1974.

O embarque da delegação para a disputa do Troféu Carranza, na Espanha, em agosto de 1966, no aeroporto de Congonhas. Estão em pé, eu, o diretor Chico Mendes, os jogadores Flávio, Dino Sani, Édson, Marcos, o preparador físico José de Souza Teixeira, Clóvis, o massagista Souza, os atletas Nair e Ditão, o médico Haroldo Campos, o dirigente Jamil Helou, sra. Wadih Helu, o presidente Wadih Helu, o técnico Filpo Nuñes; agachados: os jogadores Maciel, Marcial, Tales, Roberto Bataglia, Heitor, Galhardo, Gilson Porto, Roberto Rivellino, Mané Garrincha e Jair Marinho. Foto: A Gazeta Esportiva.

Durante o “Fórum das Américas” realizado em São Paulo na década de 90, atuei como assessor de imprensa do evento, que contou com palestra do ex-presidente dos EUA, George Bush. A foto é de Márcio Novaes.

Em Kinshasa, no Congo, estou ao lado do presidente do Zaire (atual República Democrática do Congo), Mobutu Seke Seke, no estádio de Kinshasa, onde se apresentou uma seleção de jogadores de São Paulo em 1967. A foto é de Walter Lacerda.











Início dos treinos do Fittipaldi-Coopersucar na Fórmula-1 em 1975, no autódromo de Interlagos: o radialista Wilson Fittipaldi conversa com o filho, o piloto Wilsinho Fittipaldi e o engenheiro Ricardo Dívila. Estou atrás, ao lado do jornalistas José Campos. A foto é de Antonio Piroselli.

sábado, 7 de março de 2009

Carreira


Na foto acima, os jornalistas Flávio Adauto, José Silvério e Sérgio Barbalho na entrega de prêmios "Troféu Ford-Aceesp" de 2008.


Sempre quis ser jornalista

2008 foi muito importante para mim como marco de 45 anos de profissão. Comecei como foca, “com carteira assinada” em 1º de março de 1963, em um tablóide especializado chamado O Esporte. Tinha 18 anos, era estudante. Sempre quis ser jornalista. Em 2009, estou lançando o livro “Biomedicina – um painel sobre o profissional e a profissão”, publicação dirigida aos profissionais e acadêmicos biomédicos e secretários estaduais e municipais de Saúde. Também estou concluindo um livro de personagens e fatos do jornalismo brasileiro. Alguns desses capítulos apresento neste blog.

Dediquei minha vida ao jornalismo e já trabalhei em praticamente todas as mídias, com destaque para os jornais O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo, A Gazeta Esportiva e Diário de S. Paulo, as emissoras de rádio Jovem Pan e Bandeirantes, as agências noticiosas Estado e Ansa, o portal Estadão e as TVs Cultura e Tupi. Atuei como assessor de comunicação em várias empresas e entidades e hoje sou editor de revistas de associações, conselhos profissionais e empresas, desenvolvendo projetos de conteúdo nos setores da Saúde e do Direito.

Minha primeira experiência foi em 1962, com 17 anos: trabalhei no plantão esportivo da TV Tupi, ganhando um pequeno cachê para colher informações no rádio e passá-las ao apresentador Lucas Neto. Este tinha a missão de dar as notícias durante as transmissões de futebol do narrador Walter Abrahão.

A redação de O Esporte vivia lotada de jornalistas famosos. O jornal concorria com A Gazeta Esportiva, de grande penetração na Capital. Lá, dei os primeiros passos na profissão. A experiência, porém, só durou um ano, pois o jornal fechou. Mas logo fui chamado para trabalhar em outro jornal: Última Hora. Seu editor era um grande jornalista: Álvaro Paes Leme. Porém, também fiquei pouco tempo na UH: em 1º de abril de 1964 estava novamente desempregado. Os militares da Ditadura iniciada no dia anterior fecharam o jornal. Dei sorte de novo: o jornalista Walter Lacerda, que me conhecera na redação de O Esporte, chamou-me para trabalhar no Diário Popular.

Se antes só cuidava de esportes amadores, no Diário passei a cobrir o futebol. Minha primeira missão: entrevistar o grande Nilton Santos, jogador do Botafogo do Rio, que treinava no estádio do Pacaembu para o jogo do dia seguinte, contra o Corinthians, pelo Torneio Rio-São Paulo.

Aprendi muito nesse jornal. Fiz várias viagens pelo Brasil. E iniciei as coberturas internacionais: fui à Espanha com o Corinthians. Em Cádiz, acompanhei o time paulista que participava do Troféu Ramón de Carranza. Nessa época, o Corinthians tinha uma grande atração: Garrincha. Também estive em vários países da África com uma seleção de novos da Federação Paulista de Futebol.

Convidado pelo jornalista Aroldo Chiorino, em 1972 fui trabalhar na Folha de S. Paulo. Depois, já sob a chefia de Dante Mattiussi fui escalado para acompanhar a seleção brasileira em uma excursão por vários países – Argélia, Tunísia, Itália, Áustria, Alemanha Ocidental, Alemanha Oriental, União Soviética, Suécia, Inglaterra, Escócia, Irlanda. No ano seguinte, novamente na Alemanha, cobri a Copa do Mundo.

Além de Chiorino e Dante, também contei com o apoio de outros jornalistas muito importantes para o crescimento de minha carreira. Entre eles, Boris Casoy e Cláudio Abramo. Na Folha, à época em que eu já era editor de esportes, a equipe comemorou a conquista de dois ‘Prêmios Esso’, ambos do repórter Flávio Adauto, meu amigo e companheiro de várias missões profissionais.

Jamais poderia imaginar que um dia iria trabalhar em uma emissora de rádio. Mas isso aconteceu em 1978. Indicado por Cândido Garcia, apoiado por Orlando Duarte, fui contratado pelo jornalista Fernando Vieira de Mello para coordenar o departamento de esportes da Jovem Pan, exatamente no momento em que a emissora perdia o narrador Osmar Santos, grande revelação do rádio esportivo, para a Globo/Nacional. Surpreendida, a Pan apostou em José Silvério, até então terceiro narrador da equipe, como titular da equipe.

Este foi um período revolucionário do rádio esportivo. Inteligente, versátil, excelente narrador, Osmar Santos montou sua equipe na rádio Nacional preocupado com o conteúdo jornalístico das transmissões de futebol. Contratou para organizar o esquema o jornalista Edison Scatamachia, do Jornal da Tarde. Paralelamente, a Pan promoveu Silvério e me chamou para desenvolver um projeto puramente jornalístico nas transmissões, dentro da filosofia imprimida ao veículo pelo diretor Fernando Vieira de Mello, reconhecidamente um mestre em comunicação.

Assim, eu e Edison, antigos companheiros de Folha de S. Paulo, passamos a comandar equipes de rádio sem jamais termos trabalhado em emissoras. Ao contrário, só atuavamos nas redações dos grandes jornais. Ambos aceitamos o desafio e passamos a ser rivais, em uma grande luta ética por audiência. Amigos fora do ambiente jornalístico, nos transformamos em adversários na batalha por pontos no Ibope, mas em confrontos éticos.

A revolução deu resultados, o rádio esportivo passou a ter maior qualidade jornalística. Osmar Santos explodiu na comunicação nacional, Silvério foi descoberto e transformou-se em sinônimo de excelência em transmissões de futebol. E o ambiente radiofônico tornou-se propício à abertura de espaço aos jornalistas da grande imprensa. A partir desse movimento passaram a ganhar lugar na produção de abertura de transmissões de jogos e programas de rádio profissionais de expressão dos grandes jornais, como Paulo Mattiussi, Michel Laurence, Tim Teixeira, Castilio de Andrade, Narciso James, José Eduardo Savóia, José Carlos Carbone e vários outros destacados profissionais.

Na Pan, estruturei as coberturas das Copas de 78 e 82 e conquistei prêmios. O mais importante deles: Troféu APCA, da Associação Paulista dos Críticos de Arte, como melhor programa de esportes – Jornal de Esportes, que produzia em dupla com Cândido Garcia. Também fui responsável pelo projeto de criação do Terceiro Tempo, em 82, programa comandado por Milton Neves, idealizado para substituir o Show de Rádio de Stevam Sangirardi – que trocou a Pan pela Bandeirantes.

Curiosamente, também troquei de emissora em 1983: convidado pelo narrador e chefe de equipe Darcy Reis, e indicado por Sangirardi, fui para a Rádio Bandeirantes para ser coordenador de esportes e produtor de programas. Lá Darcy e eu organizamos o esquema de cobertura da Copa do México, em 86. Por iniciativa minha e do Darcy, a Band contratou José Silvério em 1985. Mas Fernando Vieira de Mello, diretor da Jovem Pan, contra-atacou e levou Silvério de volta à Pan, pouco tempo depois. Em 2001 a Band recuperou Silvério, que lá se encontra até hoje, eleito há anos como o melhor narrador esportivo.

Na Bandeirantes, também conquistei prêmios (novamente o Troféu APCA de melhor programa, Esporte Emoção, e o Troféu Ford Aceesp de melhor equipe). Fui receber o prêmio da Associação dos Cronistas Esportivos com Flávio Adauto (meu velho companheiro de Folha de S. Paulo e Jovem Pan, que também estava na Band). Ambos representamos Darcy Reis, já afastado da direção devido a uma doença que provocou sua morte em 89.

Desde 1980 também trabalhava no jornal O Estado de S. Paulo, para onde fui levado por Fausto Silva (o mesmo do Domingão do Faustão, da Globo), então repórter esportivo e meu colega na Jovem Pan. Fui contratado pelo editor Luís Carlos Ramos. Fui copy-desk, subeditor e editor. Sai do Estadão em 89 e fui novamente para o Diário Popular, onde trabalhei como subeditor em equipe comandada por Sérgio Carvalho.

De 1990 a 2000, estive na Agência Estado e no portal Estadão, retornando ao Diário Popular/Diário de S. Paulo para ser editor-assistente durante três anos. Em 2005, convidado por Flávio Adauto, chefiei a redação da equipe responsável pelo retorno da TV Cultura às transmissões esportivas. Comandei as jornadas esportivas da Cultura juntamente com Paulo Cezar Correa. Em 2006, novamente a convite de Flávio Adauto, então vice-presidente de Comunicações do Corinthians, reestruturei o website social do clube.

Atualmente, edito jornais e revistas de empresas, associações de classe, institutos e conselhos profissionais, especificamente nas áreas de Saúde e do Direito.