
Em meio ao vento gelado da Floresta Negra, em foto de Fernando dos Santos, estão os jornalistas Flávio Adauto, Sérgio Barbalho, Vital Bataglia, fotógrafo de O Globo, Belmiro Soltier, Elói Gertel e Altair Baffa, aguardando a abertura da concentração da seleção brasileira na Copa da Alemanha em 1974.

A bela Feldberb, na Alemanha, com sua neve, acabou sendo um sério obstáculo para os jogadores.
CLIMA ALEMÃO ARRASA
PLANOS DE ZAGALLO
Faltava um mês para a Copa do Mundo começar na Alemanha. Os jogadores da Seleção Brasileira ainda estavam no Rio. No domingo seria disputado o último amistoso, no Maracanã. No dia seguinte, a viagem para a Europa, com desembarque na Basiléia (Suíça) e ida para a Floresta Negra, de ônibus. Do programa constava um período final de preparação para o Mundial de 74 na concentração de Herzogenhorn, em Feldberg, nos alpes alemães, em uma região conhecida como Schwartzwald (Floresta Negra), antes de o grupo se instalar definitivamente em Frankfurt, local do jogo de abertura da Copa, dia 13 de junho, contra a Iugoslávia.
Repórter escalado pelo editor Dante Mattiussi para a cobertura da Copa para a Folha de S. Paulo, eu viajei para a Europa no inicio de maio, juntamente com o companheiro Flávio Adauto e o fotógrafo Fernando dos Santos, dias antes do embarque da Seleção. Chegamos na Basiléia numa sexta-feira. No dia seguinte, em carro alugado, seguimos os três rumo à Floresta Negra, em uma viagem de apenas 50 quilômetros, mas difícil por ser em região montanhosa e alcançada somente em estrada de pista estreita e com muitas curvas. Ao chegarmos perto do local do hotel escolhido pela Comissão Técnica para ser concentração da Seleção Brasileira, em Feldberg, fomos surpreendidos pela neve. Subindo o morro em direção ao hotel Herzogenhorn, a situação ia se complicando, com mais neve, queda de temperatura e muita cerração. No cume era quase impossível enxergar-se construções, campo de futebol e tudo o que ultrapassasse cem metros. Procuramos pelo gerente do hotel, que confessou estranhar a temperatura e a neve naquela época do ano.
Péssima notícia para a Seleção Brasileira, que em 48 horas estaria no local e dentro de 24 horas disputaria um jogo no Maracanã sob uma temperatura em torno de 30 graus. Quando o técnico Mário Lobo Zagallo e o médico Lídio Toledo estiveram na Floresta Negra para escolher um local de concentração para o grupo, em dezembro de 1973, não tiveram a informação de que em maio ainda poderia haver neve e baixas temperaturas na região. Se tivessem, evidentemente escolheriam outro local. E evitariam os muitos problemas que ocorreram depois e prejudicaram a participação do Brasil na Copa.
Quando nos refizemos da surpresa em plena Floresta Negra, começamos a anotar todas as informações possíveis, ouvindo administradores do hotel, funcionários e seguranças. Flávio e eu fizemos um levantamento completo de como era a concentração da Seleção, enquanto o Fernando fotografava tudo. Por recomendação da dupla de repórteres, ele caprichou nas fotos externas, que mostravam a neve. Quando sentimos que tínhamos tudo o que seria necessário para uma boa reportagem, “voamos” de volta à Basiléia. Se apanhamos na ida para acharmos o caminho, no retorno já foi mais fácil e chegamos ao hotel onde estávamos hospedados no final da tarde.
Fernando correu para o banheiro e improvisou um estúdio para revelar os filmes. Era 1974, não havia internet, computador, celular. Ele preparou várias fotos, desmontou o telefone do apartamento, instalou o aparelho de transmissão de telefotos na linha telefônica e “mandou” as imagens para a sede da Folha, na alameda Barão de Limeira, nos Campos Elíseos, em São Paulo. Todo esse processo demorou um bom tempo. Enquanto isso, Flávio Adauto e eu trocamos idéias, estabelecemos quais matérias faríamos e começamos a datilografar em máquinas de escrever portáteis que costumávamos carregar para tudo quanto é canto.
Em 1974 também não existia o fax. Teríamos de utilizar máquinas de teletipo para a transmissão por linha telefônica. Antes de deixarmos o Brasil havíamos pedido a instalação de um telex no nosso apartamento. Mas como havíamos chegado na véspera, sexta-feira, o equipamento ainda não estava colocado. Só na segunda-feira. Também não podíamos nos socorrer de teletipos do correio suíço porque tudo estava fechado na tranqüila Basiléia no início da noite de sábado. E o telex do hotel não estava disponível.
A alternativa que restou foi telefonar para o Brasil e ditar as matérias para um funcionário do setor de comunicações da Agência Folhas digitar o texto. Trabalhamos muito e por longo tempo. Mas o material estava todo na redação antes das 18 horas, com tempo de ser aproveitado na edição de domingo da Folha de S. Paulo. Fomos beneficiados pela diferença de fuso horário entre o Brasil e a Suíça, que era de quatro horas.
Cansados, porém satisfeitos, saímos para jantar. Só que, às 22 horas locais, não havia nenhum restaurante aberto nas imediações. A solução foi ir até a estação ferroviária (na Europa tem trem para todo canto a qualquer hora) e matar a fome com um lanche.
Mesmo assim, estávamos alegres. O importante foi o furo jornalístico. A Folha de S. Paulo foi o único jornal brasileiro a mostrar no domingo, dia do tal jogo de despedida da Seleção no Maracanã, que os jogadores e a Comissão Técnica encontrariam na segunda-feira, em Feldberg, na Alemanha, uma concentração cercada pela neve e pelo frio. Não poderia ser pior a recepção para a Copa do Mundo.
Até arriscamos algumas previsões: de que seria muito difícil a preparação em gramado molhado e pesado, com vento e cerração. E que o clima poderia ser o responsável por contusões musculares pouco antes da estréia no Mundial. Não deu outra: durante a fase final de preparação na Floresta Negra vários treinos foram adiados devido ao mau tempo, outros foram realizados dentro da concentração pelo mesmo motivo. E vários jogadores sofreram contusões. A maior baixa foi Clodoaldo. Titular absoluto, integrante da Seleção Brasileira que foi tricampeã em 1970, na Copa do México, ele foi vítima de uma contusão, não conseguiu se recuperar e acabou sendo “cortado” do Mundial da Alemanha pelo médico Lídio Toledo.
Mas, as péssimas condições climáticas não atingiram só os jogadores. Vários jornalistas tiveram de procurar o auxílio de médicos. Como também foram obrigados a comprar roupas de inverno e botas contra a umidade. Um repórter de São Paulo, inclusive, teve de ficar acamado, em tratamento: Elói Gertel, vítima de uma pneumonia, que desfalcou a equipe do Jornal da Tarde. Foi substituído por um bom tempo pelo repórter Cândido Garcia, que estava trabalhando pela rádio Jovem Pan e acabou acumulando funções para ajudar o companheiro de profissão.
















