
Não importa a sua profissão. Você pode ser economista, administrador, advogado, engenheiro, médico. Em qualquer atividade, você deve se preocupar em sempre passar as informações da melhor forma possível para quem você quer alcançar. A ordem, a solução, o caminho, é um só: escreva fácil. Se preocupe, sim, com uma escrita rebuscada, caso você a use. Escreva como você pensa, como se você quisesse passar um recado para o seu irmão ou irmã. Essa fórmula, acredite, é infalível. Sempre atinge os objetivos. É um sucesso. Já garantiu carreira de muita gente (em qualquer profissão).
Eu sou um exemplo. Sou jornalista, lido com a palavra, tenho 46 anos de profissão, posso afirmar que tenho uma carreira de sucesso. Não há como dizer o contrário, modéstia a parte. Meu amplo campo de atuação foi a Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Diário Popular, Rádio Jovem Pan, Rádio Bandeirantes, TV Cultura e tantos outros veículos de comunicação.
Em todos esses meios, sempre escrevi do mesmo jeito. Do jeito em que aprendi no dia a dia das redações dos jornalões. “Sérgio, escreva fácil”, aconselhava o saudoso grande mestre Emir Nogueira, diretor de texto da Folha, presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo. Foi o que fiz, desde então. Dante Mattiussi, meu editor na Folha, ia mais longe. “Sérgio, liberte-se ao escrever. Procure a simplicidade”. Foi o que sempre procurei fazer. Outro grande mestre, o também saudoso Fernando Vieira de Mello, diretor de jornalismo da Jovem Pan na época em que lá estive, sempre recomendava a todos nós da redação: “Frases curtas, de fácil entendimento. O ouvinte tem de entender o que queremos dizer, o que queremos informar”, repetia.
A propósito, veja o que diz o bilionário norte-americano Warren Buffett, outro defensor da linguagem simples: “Quando escrevo o relatório anual de minhas empresas, imagino as minhas irmãs, que são inteligentes, mas não especialistas em contabilidade ou finanças. Elas entenderão a linguagem simples, mas os jargões podem confundi-las. Meu objetivo é dar a informação que gostaria de receber se estivesse no lugar delas”, afirma.Qual o segredo, a fórmula do sucesso do “Dr. Bactéria”, o biomédico Roberto Figueiredo revelado no “Fantástico” da Rede Globo, que até se transformou em porta-voz do Ministério da Saúde no recente episódio da pandemia de gripe suína? Sua linguagem fácil.
Outro exemplo? Joelmir Beting. O antigo cronista esportivo dos tempos do extinto tablóide O Esporte, na década de 70 revolucionou a cobertura jornalística econômica declarando guerra ao “economês” e buscando explicar a Economia com a linguagem mais simples possível em sua coluna na Folha de S. Paulo. Deu no que deu. Sua vitoriosa carreira é a prova do sucesso de sua tese.
E tem mais: a simplicidade do texto do jornalista Ricardo Kotscho, de brilhante carreira, com passagem pela Folha, Estadão, Jornal do Brasil, ganhador de Prêmios Esso, que chegou a assessor de comunicação do presidente Lula. Veja como ele escreve no seu blog ‘Balaio do Kotscho’ (http://colunistas.ig.com.br/ricardokotscho/). Parece que está conversando! Nos Estados Unidos, a preocupação com a linguagem simples é grande. Já existem campanhas em defesa de um inglês menos rebuscado e mais fácil de entender. Advogados, consumidores, professores e até políticos travam uma batalha para fortalecer a linguagem simples na hora de redigir leis, documentos, comunicados oficiais, bulas de medicamentos, descrições de alimentos, etc. Instituições como a Universidade de Nova York (NYU), começam a exigir que seus alunos escrevam trabalhos e provas de forma mais direta e com palavras que melhor expressem as suas idéias, conforme manuais do movimento que luta contra os textos rebuscados e pouco claros.
Li em uma reportagem de Gustavo Chacra, correspondente do jornal O Estado de S. Paulo em Nova York, já existir o Centro de Linguagem Simples (CLS), que procura alertar as pessoas para a necessidade de serem claras ao escrever. O instituto até criou prêmios para os mais bem escritos documentos e sites dos setores público e privado. Os piores serão denunciados.
Joseph Kimble, professor da Escola de Direito Thomas Cooley, escreve uma coluna mensal sobre linguagem direta no jornal da Ordem dos Advogados de Michigam há a mais de duas décadas e se tornou o principal porta voz do movimento. Seus artigos são apontados como a bíblia da linguagem simples. “A linguagem simples pode não ser um assunto sexy, mas eu acredito que o custo da má comunicação é um dos maiores desperdícios deste governo, podendo chegar a milhões ou mesmo bilhões de dólares”, afirmou em um depoimento no Congresso dos Estados Unidos. “A linguagem simples deveria ser o idioma americano”, acrescentou.
De acordo com seguidores do movimento pela linguagem simples, quase não há opositores. O problema maior está em educar as pessoas para não deixarem seus textos rebuscados. Por esse motivo, as universidades pressionam os alunos, principalmente os da área de Direito, a serem muito claros na hora de escrever. É o movimento contra o “juridiquês”, que também deveria existir aqui no Brasil.
Incorporando os mandamentos da linguagem simples, o governo americano tem um site no qual explica o que é “plain language”. Os funcionários são aconselhados a ler e a usar as dicas disponíveis. Por exemplo: palavras estrangeiras devem ser evitadas, assim como jargões e abreviações que deixem o texto menos claro.
O site do governo americano também sugere utilizar algumas palavras em detrimento de outras. Eis alguns exemplos: ao lado de (em vez de adjacente a); avião (aeronave); ajudar (beneficiar); parte (componente); querer (desejar); contar (enumerar); terminar (expirar); além disso ou também (no lugar de em adição a); e método (metodologia). No manual do governo, os funcionários públicos são aconselhados ainda a usar a voz ativa, a forma mais simples do verbo, evitar abreviações e escrever sentenças curtas, entre várias outras recomendações.Enfim, se aqui no Brasil surgir uma campanha em defesa do uso do português menos rebuscado, de mais fácil leitura, apoiarei. Assino embaixo desde já!


2 comentários:
Sérgio, tô com você no abaixo assinado. Ou acima assinado. A pior coisa é encontrar uma ideia linda, maravilhosa, travada por um texto rebuscado, prolixo, acadêmico. Aliás, você consegue me explicar o que fazem os acadêmicos? Visite-me. www.anasessorevisao.com.br - anarevisao.wordpress.com
Muito bons os textos do seu blog, sobretudo o "VAMOS ESCREVER FÁCIL?". Faz-nos lembrar de um tempo maravilhoso do nosso jornalismo.
Parabéns!
HUMBERTO PAIM DE MACEDO
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