
O que há de comum entre o bicampeão mundial de F-1 Émerson Fittipaldi, os tricampeões mundiais Nelson Piquet e Ayrton Senna e os pilotos José Carlos Pace - que dá seu nome ao autódromo de Interlagos -, Wilson Fittipaldi Júnior, Rubens Barrichello e Felipe Massa (na foto pilotando o kart com o qual sua equipe venceu as 500 Milhas da Granja Viana, em São Paulo, dia 6 de dezembro de 2009)? Todos esses brasileiros, como inúmeros outros competidores de esportes a motor no País e no Exterior, começaram no kart.
Como surgiu o kart? Muita gente não sabe. A história não deixa de ser pitoresca, curiosa até. Tudo começou em 1955, em um bairro de classe média, em uma cidadezinha dos Estados Unidos. Cenário amplamente conhecido dos brasileiros através dos filmes: ruas tranquilas, casas térreas, sem cerca, grandes jardins gramados. Dois vizinhos começaram a competir com seus aparadores de grama. Cada um deles saia correndo para ver se chegava primeiro a um determinado lugar. Passado algum tempo essa competição chamou a atenção da vizinhança. A moda pegou e, meses após, boa parte dos moradores competia com os tais cortadores. Alguém resolveu aperfeiçoar o aparelho. Todos o seguiram. E o que se via, então, era um grande grupo de pessoas correndo, todos sentados em seus aparadores. Um dos maiores fabricantes do cortador de grama se interessou pela ideia e resolveu lançar um veículo pequeno – para uma pessoa sentada, quase rente ao solo – equipado com o mesmo motor do cortador. Assim nasceu o veículo da categoria “k”, o kart.
As competições de kart se multiplicaram pelos Estados Unidos na segunda metade da década de 50, depois se transformando em sucesso na Alemanha, Itália, Bélgica, Dinamarca, França, Inglaterra e outras nações européias, além da Austrália. No Brasil, o kart surgiu em 1957.
O piloto de automobilismo Cláudio Daniel Rodrigues, dono de uma oficina mecânica na rua Clodomiro Amazonas, no bairro do Itaim, em São Paulo, era assinante de várias revistas norte-americanas de autos. Através delas tomou conhecimento do novo modelo. “Vou fabricar um kart”, disse para seus amigos. Pouco tempo depois foi testar seu primeiro modelo no Jardim Marajoara, um loteamento asfaltado, com poucas casas, localizado alguns quilômetros após o aeroporto de Congonhas, no caminho para o autódromo de Interlagos. Entusiasmado, Cláudio construiu mais sete karts e chamou seus amigos para competir. Na primeira corrida no Brasil, Maneco Combacau venceu uma das eliminatórias e chegou em terceiro na final, bem perto de Wilson Fittipaldi Jr, o ganhador. Pouco tempo depois, Cláudio produziu mais oito karts e o grupo se ampliou. Era o início do kartismo no Brasil.
O Jardim Marajoara se transformou em um Interlagos em miniatura. O barulho dos karts era ensurdecedor. Os moradores do loteamento chamaram a Polícia e as competições foram interrompidas. O I Campeonato Paulista de Kart, já em andamento, se transferiu para as ruas do Parque Ibirapuera. Algumas provas chegaram a ser disputadas em Interlagos.
Os pilotos pioneiros do kartismo brasileiro foram Cláudio Daniel Rodrigues, Maneco Combacau, Mário Sérgio Itapema, Wilson Fittipaldi Júnior, Serafin Chiodi Lomonaco, José Carlos Pace, Marivaldo Fernandes, Joaquim Carlos Mattos, Afonso Giaffone e vários outros. Desse grupo, dois chegaram à Fórmula-1: Wilsinho Fittipaldi e José Carlos Pace, o “Moco”. Emerson Fittipaldi acompanhava esse grupo, seguindo os passos de seu irmão, Wilsinho.
As corridas de kart eram disputadas em ruas até 1961. Em Cotia foi lançado um novo clube de campo, o Santa Cruz Week End Club. Seu presidente, Hélio Quaresma, resolveu construir o primeiro kartódromo do Brasil e pediu a colaboração dos kartistas. Os pilotos não só começaram a comprar os títulos patrimoniais do clube como também passaram a vendê-los para amigos. A pista foi feita com parte do dinheiro apurado nessas vendas. E o Campeonato Paulista passou a ser disputado no kartódromo do Santa Cruz. A modalidade esportiva cresceu, surgiram novas fábricas de kart, entre elas a Jodora e a Moplast, esta de Amaral Gurgel. Competidores menores de idade começaram a correr de kart. Émerson Fittipaldi (foto) era um deles. Até que uma lei passou a proibir a competição para menores de 18 anos.A grande ascensão do novo esporte veio em 1963. As competições eram organizadas por uma comissão esportiva do Automóvel Clube do Estado de São Paulo (Acesp), integrada por Alvino Della Corte, Arrigo Squarzone, Giancarlo Squarzone, Adolpho Gottschald, Valter Lotaif e Osvaldo Pagano. Várias provas passaram a ser disputadas em circuitos de ruas de cidades do Interior – Araraquara, Campinas, Ribeirão Preto, Limeira, São José dos Campos – e em Santos. Três kartistas brasileiros foram participar da primeira competição internacional, o "GP Ciudad de Buenos Aires", na Argentina: Maneco Combacau, Tonico Vieira e Mário Sérgio Itapema, tendo como adversários argentinos, uruguaios e chilenos. Com máquinas fracas, emprestadas pelos promotores, não terminaram a competição.
O kartismo começou a ganhar espaço na mídia. A Rádio Record tinha um programa de automobilismo na hora do almoço. Era comandado por Wilson Fittipaldi. Dele também participava o comentarista Cláudio Carsughi. Ambos passaram a dar algum destaque à modalidade esportiva. Notas de kart também eram publicadas pelo jornalista Durval Silva na Folha de S. Paulo. Muito jovem, ainda inexperiente, eu comecei a trabalhar no jornal O Esporte em 1963. E abri espaço para o kart, um esporte de jovens, praticamente sem divulgação.
Em 15 de novembro de 63 foi realizada a primeira prova internacional de kart do Brasil, no novo kartódromo de Ribeirão Preto, com a participação de 60 competidores, entre os quais o argentino Horacio Orfila e os uruguaios Ernesto e Carlos Josefides, pilotos amigos do brasileiro Maneco Combacau. A promoção da corrida foi do jornal O Esporte e tive participação nisso. O vencedor foi o kartista brasileiro Antônio Carlos Maia. A revista argentina Coche a la Vista deu grande destaque à competição. O Campeonato Paulista de 63 foi vencido por Sérgio Bosco Rosas, do Santos Kart Club, enquanto o campeão de 62, Carol Figueiredo, ficou em segundo lugar. Três eram as fábricas da época: Rois Kart, Mo Kart e Silpo Kart.
Em 1964, os kartistas paulistanos perderam o kartódromo que ajudaram a construir em Cotia. Hélio Quaresma deixou a presidência do Santa Cruz Week End Club e seu sucessor, Eduardo Monteiro Salazar, resolveu pedir um valor elevado pela locação da pista, ignorando que os competidores haviam sido os principais responsáveis não só pela construção da pista como também pelo aumento de associados do clube. Todos os pilotos abandonaram Cotia e as competições passaram a ser realizadas em circuitos de rua nas cidades do Interior de São Paulo, em Rudge Ramos e no Parque Ibirapuera.
O kartismo paulista foi crescendo e os principais kartistas acumulando vitórias e ganhando destaque. Wilsinho Fittipaldi, José Carlos Pace, Carol Figueiredo, Marivaldo Fernandes e Émerson Fittipaldi passaram naturalmente para o automobilismo. Todos integraram a primeira equipe de competição de fábrica, a Willys Overland do Brasil, comandada por Luiz Antônio Greco e integrada por pilotos excelentes como Luiz Pereira Bueno, Bird Clemente e Francisco Lameirão.


1 comentários:
realmente o Claudio fabricou o primeiro chassis de kart no Brasil, mas meu pai Sylvio Bayeux da Silva projetou e fabricou o primeiro motor, pois ele tinha uma fábrica de motor de popa (Motor de popa BX),e era cliente da oficina do Claudio. Mais detalhes, fotos documentos com Vera Maria Bayeux da Silva Sallum e-mail veramariab44@terra.com.br
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