
Os agitados colegiais vienenses aguardavam com grande expectativa pela saída dos jogadores da Seleção Brasileira após um treino no Estádio Olímpico de Viena, na Áustria. Com cadernos e canetas buscavam autógrafos dos ídolos do futebol. Moças e rapazes bem vestidos e saudáveis, de cabelos loiros e olhos azuis em sua maioria, não viam a hora do encontro com os atletas sul-americanos.
Treino encerrado, um grupo de jogadores deixa o estádio e caminha calmamente em direção ao ônibus que os conduziria ao hotel onde a delegação estava hospedada. A garotada corre atrás dos jogadores. “Rivellino!”, “Rivellino”!, gritavam os jovens para o grupo de atletas. Reação rápida, “Riva” apontou para uma pessoa de um grupo de jornalistas que caminhava ao lado dos jogadores. Apontava e dizia: “Rivellino!”. Confusos, os jovens austríacos pareciam não acreditar que haviam se enganado. Diante da insistência de um Rivellino disfarçado, porém, correram atrás do jornalista que também tinha bigode e uma certa semelhança com o jogador, embora fosse um pouco mais alto e ligeiramente mais magro. Azar meu pela semelhança. Sem tempo para me refazer do susto, eu insistia em dizer que não era Rivellino. Quando vi que não alcançaria meu objetivo, tive de concordar em dar autógrafos. Um pouco distante, Rivellino ria e calmamente seguia para o ônibus sem ser assediado.
A brincadeira de Rivellino acabou se repetindo durante a excursão da Seleção Brasileira pela Europa, em 1973. Jogador famoso, um dos heróis da equipe na conquista do Mundial de 70, no México, “Riva” era perseguido pelos fãs. Mas sempre que podia, jogava a missão de atendê-los para o seu clone, o jornalista que acompanhava a excursão pelo jornal Folha de S. Paulo. Paguei esse mico algumas vezes. Em Berlim, na Alemanha, em Estocolmo, na Suécia, e em Dublin, na Irlanda.
“MALOCA”, “REIZINHO DO PARQUE”,
“PATADA ATÔMICA”, “CRACÃO DE BOLA”,
OU SIMPLESMENTE ”RIVA”
Roberto Rivellino, a “Patada Atômica”, acabou ganhando o apelido do saudoso narrador esportivo Geraldo José de Almeida durante a Copa de 70, no México. A expressão era usada por torcedores e jornalistas mexicanos para definir o potente chute de esquerda do jogador brasileiro. Geraldo gostou e a adotou nas transmissões de jogos. Ele também o chamava de “Cracão de Bola”. Hábil atleta da bola revelado no Corinthians, foi tão grande para o futebol brasileiro quanto mestre Zizinho, Jair, Didi, Gérson, Ademir da Guia.
Rivellino era uma força da natureza como jogador de futebol. Formado nas quadras de futebol de salão, principalmente no Clube Atlético Indiano, Zona Sul de São Paulo, “Maloca”, seu apelido na época, era puro reflexo, intuição e talento. Executava com perfeição enjoativa aquele drible curto, desmoralizante, onde a bola parecia estar presa por elástico ao seu pé em jogada que aprendeu com o jovem jogador Sérgio Echigo. Era capaz de fazer longos lançamentos, de 30 ou 40 metros com efeito tal que até o companheiro sofria para dominá-la. Imaginem, então, a dificuldade que o adversário tinha para cortá-la. Rivellino também arrancava com a bola dominada até disparar um daqueles petardos de canhota de quase fazer a trave ficar torta.
Canhoto genial, às vezes tinha algum acesso de raiva facilmente confundível com espasmos de estrelismo, algo cultivado desde os tempos em que era chamado de o “Reizinho do Parque”, ainda garoto, época em que jogava no time aspirante do Corinthians e fazia com que a Fiel Torcida chegasse antes ao Parque São Jorge para ver as preliminares do Timão.“Rivellino não era um autêntico meia-armador. Não tinha nem a constância de um Ademir da Guia, nem o gênio de Zizinho, nem a malandragem de Gérson, tampouco a frieza de Didi. Seu lugar não era decisivamente ali. Era um pouco mais à frente, onde reinou Pelé e, na sua sucessão, reinaria Zico”, analisa o jornalista Alberto Helena.
O melhor momento de Rivellino no Corinthians, segundo Helena, foi sob o comando do técnico e ex-goleador Baltazar, o “Cabecinha de Ouro”, que, para achar um espaço destinado a Adãozinho, outro canhoto de rara competência, empurrou-o para a ponta de lança. “Ali “Riva” transfigurou-se num aríete irresistível. Até que um desses becões da vida enviou-o à cama de um hospital. Ainda no saguão, seu Nicola, pai de Rivellino, foi incisivo: 'Lá na frente o Riva não joga mais', determinando o seu futuro, vítima dos cabeça-de-bagre de plantão”.
Roberto Rivellino, que também teve grande sucesso no Fluminense, viu a sua carreira interrompida prematuramente por não querer continuar jogando no futebol árabe, onde tinha seu passe preso. Dedicou-se a um posto de gasolina, à sua Escolinha do Futebol, uma das primeiras comandadas por jogadores e a outras atividades comerciais. Convidado pelo narrador esportivo Luciano do Valle, foi ser comentarista esportivo de TV, onde se fixou.

Em janeiro de 2007, Rivellino recebeu do presidente Lula o prêmio como grande homenageado do III Troféu Mesa Redonda da TV Gazeta (foto Ricardo Stuckert/PR)
CRAQUE COM O FUTEBOL NO SANGUE
De família italiana, Roberto Rivellino sempre teve o futebol no sangue. Eis alguns detalhes mais de sua vida, de acordo com o site www.rivellinosportcenter.com.br, sua empresa de esportes e eventos:
Nascido em 1º de janeiro de 1946, Rivellino fez seu primeiro teste para ser jogador no Palmeiras. Não passou. Seu destino era o Corinthians, para onde chegou ainda como juvenil. Escalado pelo técnico “Rato” na equipe que disputava o campeonato de aspirantes nas preliminares de jogos do Corinthians pelo Campeonato Paulista, Rivellino transformou-se em atração. Aos dezenove anos, “Riva”, lançado pelo técnico e ex-jogador Baltazar, fez sua estréia com a camisa titular do Timão. Foi em 13 de janeiro de 1965, em um jogo no estádio da Ilha do Retiro, no Recife: 3 a 0 sobre o Santa Cruz, quando o jovem fez o seu primeiro gol no profissional.
E no mesmo ano já foi convocado para a Seleção Brasileira, participando de um amistoso contra o Arsenal e de outro contra a Hungria. Em 1966, conquistou seu único título com a camisa alvinegra: a Copa Rio-São Paulo, título que foi dividido com Botafogo, Vasco e Santos. Só voltou a ser convocado para a Seleção Brasileira em 1968, quando marcou seus dois primeiros gols com a camisa canarinho, no amistoso contra a Polônia. Com Zagallo no comando da Seleção, foi titular do Brasil na Copa de 1970, conquistando o tricampeonato mundial. Rivellino foi o terceiro maior goleador do time: marcou três gols em cinco partidas.
Ainda em 1970, “Riva” foi eleito, com méritos, para a Seleção da Copa. Os mexicanos se apaixonaram pelo seu futebol. Foi titular da Seleção também na Copa de 1974, na Alemanha, quando disputou todos os sete jogos e marcou três gols. No final do ano, o Corinthians perdeu o título do Campeonato Paulista para o Palmeiras e Rivellino foi injustamente responsabilizado pela derrota. Magoado, “Riva” foi para o Fluminense.
Estreou com a camisa tricolor em 1975, justamente contra o Corinthians. Resultado final: Flu 4x1 Corinthians, com três gols de Rivellino. Fez parte da chamada "Máquina Tricolor", time do Fluminense que foi bicampeão estadual. Convocado novamente para a Seleção pelo técnico Cláudio Coutinho, participou de três partidas na Copa de 1978, na Argentina, sem marcar gols. Nesse ano, acertou sua transferência para o El Helal, da Arábia Saudita, onde foi campeão da Copa do Rei e bicampeão nacional. Desavenças com o príncipe Kaled fizeram com que Rivellino encerrasse sua carreira mais cedo, em 1981, aos 35 anos. Em doze anos de Corinthians, o "Reizinho do Parque" marcou 165 gols e faz parte da seleção dos melhores jogadores da história do Timão. Seus 53 gols em 158 jogos pelo Flu também lhe garantiram uma vaga entre os 11 da história do tricolor carioca.
“Riva” foi titular da Seleção por quase dez anos. Disputou 94 jogos oficiais, marcando 26 gols e só tendo sido derrotado nove vezes. Incluindo também as partidas amistosas, fez um total de 122 jogos com a camisa da Seleção e 43 gols. É o terceiro jogador que mais atuou em partidas oficiais do Brasil, perdendo apenas para Djalma Santos e Gilmar. No entanto, é o atleta que mais jogou com a camisa da Seleção, contando também as partidas amistosas. Está entre os dez maiores artilheiros da história da Seleção Brasileira
FRASES
"Se meu time estivesse perdendo, eu chorava."
(Roberto Rivellino)
"Rivellino é um dos jogadores mais hábeis que já vi jogar."
(Didi, ex-jogador da Seleção Brasileira)
"Vim ver Pelé, mas acabei vendo Rivellino."
(Franz Beckenbauer, depois do amistoso Brasil 2 x 1 FIFA, em 1968)
"Foi em Rivellino que me mirei para jogar. Até hoje, tenho em minha memória seu drible perfeito, seu passe preciso e seu chute indefensável."
(Maradona, maior craque do futebol argentino)


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