
Maracanã, 19 de novembro de 1969. Em noite de gala do futebol brasileiro, o estádio recebe 65.157 torcedores. São 23 horas e 19 minutos. Vasco e Santos se enfrentam em um jogo da Taça de Prata, o Campeonato Brasileiro da época. A partida está empatada. Benetti fez o gol dos vascaínos aos 16 minutos e Renê (contra) igualou o placar para os santistas aos 10 minutos do segundo tempo.
Aos 32 minutos, Pelé cai na área do Vasco após um choque com o zagueiro Fernando, depois de lançado por Clodoaldo. Os cariocas protestam muito contra a marcação do árbitro Manoel Amaro de Lima, de Pernambuco. Em meio à catimba dos vascaínos, todos os jogadores paulistas olham para o banco de reservas onde está o técnico Antonio Fernandes, o Antoninho. Ele determina que Pelé cobre o pênalti.
Estádio em silêncio. Todos os jogadores do Santos ficam atrás da linha do meio-de-campo. Já estava combinado: quando Pelé fizesse o milésimo gol, o jogador correria até o meio do campo para abraçá-los. No seu jeito singular de cobrar, Pelé vai chutar...
“O jogo parado, o estádio inteiro calado. Eu, a bola e o Andrada. Naquela hora tive um terrível medo de falhar. Fiquei nervoso. Sabia que todos esperavam o gol. Pouca gente viu, mas fiz o sinal da cruz antes de cobrar o pênalti”, disse o próprio Rei, em um de seus depoimentos sobre o dia histórico.
Pelé partiu em direção à bola, deu a tradicional “paradinha” – que agora volta a ser contestada pela Fifa – e chutou forte, no canto esquerdo, exatamente às 23h23. O goleiro Andrada caiu muito bem, até chegou a tocar na bola, mas não evitou o gol. Frustrado, ainda no chão, deu murros no gramado. Em entrevista ao jornal A Gazeta Esportiva, o goleiro disse que era sua obrigação defender aquele pênalti. “Naquele dia eu enfrentei o mundo. Em campo, não dava para escutar nem a respiração dos torcedores. Até a torcida do Vasco torceu contra mim”.


O chute de Pelé foi sem defesa para Andrada. Bola na rede, fato consumado. Enquanto o primeiro jogador profissional a marcar mil gols na história do futebol mundial buscava a bola e a beijava, no intuito de correr em direção aos companheiros, dezenas de radialistas e jornalistas invadiram o campo, cercando-o de microfones e de câmeras. O primeiro depoimento, emocionado, foi dado ao repórter Geraldo Blota, o “GB”, da Rádio Jovem Pan: “Dedico este gol às criancinhas do Brasil”. O goleiro santista Agnaldo, que estava no meio do campo, correu em direção a Pelé, engatinhou entre tantas pernas e ergueu o Rei em seus ombros. Uma festa inesquecível.
Depois, Pelé saiu de campo (substituído por Jair Bala) e guardou a camisa branca do Santos para entregar a sua filha Kelly Cristina. O Santos ganhou do Vasco de 2 a 1. A bola que ele havia perdido em meio a toda aquela confusão (foto) lhe foi entregue pelo companheiro Abel, que a guardou com carinho por quase 30 anos.Seus companheiros de time vibraram com a vitória e com a marca histórica de Pelé. São eles Agnaldo; Carlos Alberto Torres, Ramos Delgado, Djalma Dias (depois Joel) e Rildo; Clodoaldo e Lima; Manoel Maria, Edu, Pelé (depois Jair Bala) e Abel. Como eles, também tomaram parte nesse jogo histórico os vascaínos Andrada; Fidélis, Moacir, Fernando e Eberval, Renê e Buglê; Acelino (depois Raimundinho), Adílson, Benetti e Danilo Menezes (depois Silvinho), todos comandados pelo treinador Célio de Souza. Todos foram testemunhas dessa verdadeira façanha de Pelé. Como eu também, jovem repórter do Diário Popular, escalado para esse jogo histórico.
Ao todo, Pelé marcou 1.284 gols em sua carreira. Desde o dia em que vestiu a camisa do Santos pela primeira vez, em 7 de setembro de 1956, quando também fez o seu primeiro gol como profissional, contra o Corinthians de Santo André, no ABC, até a sua despedida oficial dos gramados brasileiros, em 2 de outubro de 1974, no jogo com a Ponte Preta, na Vila Belmiro, Pelé conquistou todos os títulos que qualquer jogador sonha em alcançar.
Em 18 anos de carreira profissional – sem contar sua passagem pelo Cosmos de Nova York, quando ensinou e promoveu o futebol nos Estados Unidos – Pelé obteve 56 títulos pelo Santos e Seleção Brasileira, um recorde, sendo os principais o de bicampeão mundial de clubes pelo Santos (62 e 63) e o de tricampeão mundial pelo Brasil nas Copas de 58, 62 e 70. Eleito Atleta do Século XX, marcou os 1.284 gols em 1.371 jogos disputados e oficialmente comprovados.
Vários jornalistas brasileiros tiveram o privilégio de acompanhar toda a carreira de Pelé, o maior jogador de todos os tempos, em jogos em São Paulo, no Brasil e no Exterior, de 56 a 69. Odair Pimentel, Orlando Duarte, Oldemário Toguinhó, José Maria de Aquino foram alguns deles. Tenho muito orgulho de também me incluir nessa relação de privilegiados profissionais.
Comemorando 40 anos da marcação do seu milésimo gol, Pelé comenta: “40 anos se passaram e nada mudou. O problema de educação de nossas crianças permanece grave no País. Só podemos mudar o nosso Brasil se a gente mudar a educação das nossas crianças.”
Eis o selo comemorativo ao milésimo gol de Pelé.


5 comentários:
O mordomo e o Rei
Sérgio: gostaria de relatar uma pequena coisa que aconteceu neste dia memorável de 19 de novembro de 1969. O meu pai trabalhava como massagista do Vasco, conheciam ele como "Chico". Ele era muito rápido e entrou no meio da multidão e deu para o Pelé a linda camisa com a qual Pelé deu a volta olímpica, a camisa histórica do VASCO com o número 1000. Fato este que é reconhecido pelo próprio Pelé que já assinou as fotos e camisa do meu pai. Inclusive, a camisa do milésimo gol que meu pai pegou (mas, para minha tristeza, sumiu). Tanto que não se tem a camisa do jogo. Este fato é verdadeiro, está todo documentado em fotos: meu pai dando a camisa VASCO 1000 e pegando a 10 do Santos.
Estou relatando isso por que depois de tantos anos vejo o meu pai falando sobre o jogo e o que ele fez, o tempo de Vasco, e poucas pessoas lembram. Esta é um pequena maneira de mostrar que ele ficou na história do grande jogo do gol 1000, do Maior jogador, Pelé.
Pode entrar no site na boca do Gol do ex-goleiro do Vasco, Valdir Appel,lá fala um pouco do livro na Boca do Gol. http://valdirappel.blogspot.com/2008/11/o-massagista-e-o-rei-chico.html
e conta essa história. Um abraço, Augusto Cesar.
Parabéns Orlando seu Blog é magnifico, e tudo que você disse sobre o Rei é verdade. Pelé foi o maior jogador de futebol de todos os tempos, é incomparável, sua glória jamais será igualada por outro jogador.
Gostei muito do teu Blog e sempre passarei por está sua página para aprender um pouco.
Tb aguardo sua visita ao meu Blog
http://souza.pc.zip.net/
Eu tinha 10 anos de idade e me lembro até hoje da narração do Haroldo Fernandes da Euipe 1040 da Tupi. " O Rei do Futebol, acerta a sua coroa, ajeita o couro na marca penal...Autoriza Manoel Amaro de Lima, bateu Pelé. É Gol!!!!...." É só uma lembrnça, mas como dói!
Bem, eu ouvi pela Rádio Tupi de São Paulo na voz espetacular de Haroldo Fernandes a narração do milésimo gol de PELÉ no dia 19 de novembro de l969 no Estádio do Maracanã. Gostaria de fazer um peido a voce, que é responsável por esse blog; Tente conseguir algumas narrações do Haroldo Fernandes, inclusive a do milésimo gol. Na verdade tenho saudades do HAROLD NARRANDO..Era uma narração clássica, floreada com "um dicionário da lingua portuguesa",,,Não sei onde está o Haroldo Fernandes, mas alguém deveria levá-lo para um desses programas de TV aberta...O homem foi fantástico.
Gilberto:
Haroldo Fernandes, grande narrador, "o homem da camisa 10" da Equipe 1040 (Tupi) está aposentado, do rádio e da advocacia. Descansa no bairro do Campo Belo (SP) e em São Lourenço (MG). Estas informações estão no "Que Fim Levou" do Milton Neves.
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