
O narrador Walter Abrahão entrevistando Paulo Machado de Carvalho, em um dos programas da TV Tupi
MEU PRIMEIRO TRABALHO,
COM WALTER ABRAHÃO,
O GALVÃO BUENO DA ÉPOCA
Um amigo meu de infância, Reynaldo Simi Júnior, trabalhava nos escritórios dos “Diários e Emissoras Associados”, na rua Sete de Abril, centro de São Paulo. Seu pai, que também era funcionário dos ‘Diários’, gostava de esporte e conhecia Walter Abrahão, narrador de futebol. Abrahão era o Galvão Bueno da época. Transmitia futebol pela TV Tupi. Seu maior concorrente era Raul Tabajara, da TV Record. De repente, o Naldinho (apelido do meu amigo) arranjou um bico: foi prestar serviço para a equipe do Walter. E eu, que gostava de jornalismo – já fazia o jornal da turma – fui junto. Quando menos esperávamos ambos estávamos trabalhando na TV Tupi.
Éramos muito jovens. Estudante, eu tinha 18 anos. Passei a integrar a “Equipe Esportiva Associada”. Ela era formada pelos narradores Walter Abrahão e Milton Salles, os comentaristas Ary Silva, Ávila Machado e Fausto Rasga, e os apresentadores Roberto Petri, Gerdy Gomes e Lucas Neto. Durante as transmissões da equipe titular, formada por Abrahão, Ary ou Ávila e Gerdy, quem ficava no estúdio para dar as informações dos outros jogos e demais competições era o Lucas Neto. E quem municiava o Lucas Neto de notícias era o trio formado por João Bussab, Reynaldo Simi Júnior e eu. Nós ficávamos ouvindo rádio e também colhíamos informações pelo telefone. Foi a minha primeira experiência jornalística. Ganhava um cachê por jornada esportiva e só trabalhava às quartas-feiras à noite, sábados e domingos à tarde.
Era 1962, ano de Copa. O Brasil, campeão mundial de 58, tentaria o bi no Mundial do Chile. A TV Tupi mandou confeccionar uma tabela de jogos para distribuir aos telespectadores. O folheto, com 16 páginas, tinha o título “O Brasil e a Copa de 62”, patrocínio das Rodas FNV (Fábrica Nacional de Vagões) e apresentava nas páginas internas os grupos do Mundial; a tabela completa de jogos, de 30 de maio a 17 de junho em Arica, Santiago, Viña del Mar e Rancagua; informações sobre as 16 seleções; fotos dos 30 jogadores do Brasil, de Gilmar a Zagallo; campanha da Seleção Brasileira na Copa da Suécia e foto da equipe campeã; os integrantes da Comissão Técnica, do presidente da CBD, João Havelange ao massagista Mário Américo; os estádios da Copa; e, na página central toda a equipe de esportes da Tupi, do líder Walter Abrahão ao mais novo integrante do plantão, Sérgio Barbalho. Essa “tabelinha” está muito bem guardada até hoje.
Os jogos da Copa do Chile não foram transmitidos ao vivo. Não havia recursos técnicos para isso. As partidas da Seleção Brasileira eram gravadas em vídeoteipe e enviadas de Santiago para São Paulo por avião. Tão logo as fitas chegavam no aeroporto de Congonhas eram retiradas por funcionários da Tupi que as levavam para os estúdios no bairro do Sumaré. E em seguida, qualquer que fosse o horário, eram transmitidas.
Ao vivo, as transmissões do futebol se limitavam a jogos do Campeonato Paulista. Duas TVs da rede mostravam as partidas: a Tupi e a Cultura. Naquela época a TV Cultura não era do Governo do Estado de São Paulo e sim das “Emissoras Associadas”. O estúdio da Cultura ficava no último andar do edifício dos “Diários”, na rua Sete de Abril. Dessa forma, eu trabalhava nas duas emissoras.
A ponte entre as duas TVs, uma na Sete de Abril, no Centro de São Paulo, e a outra na rua Afonso Bovero, no bairro do Sumaré, era feita por ônibus da empresa Breda Turismo que ficavam estacionados atrás da Biblioteca Municipal de São Paulo, na praça Bráulio Gomes. De hora em hora saia um ônibus em direção ao Sumaré e outro do Sumaré para o Centro. Funcionários dos ‘Diários’ tinham livre acesso. Artistas da TV Tupi, e das rádios Difusora e Tupi, também.
Esse "Ônibus dos Artistas" era uma festa. Havia grande camaradagem entre funcionários em geral e artistas. Todos se davam bem, cantavam, contavam piadas, histórias. O ônibus especial era frequentado por Lima Duarte, Suzana Vieira em começo de carreira, Luiz Gustavo, cantores, integrantes do corpo de bailado da TV, músicos da orquestra de Érlon Chaves, técnicos, responsáveis pelos cenários e as famosas “garotas-propaganda”, que apresentavam os comerciais ao vivo durante a programação.
No inicio das noites de sexta-feira ou no final da manhã dos sábados, o “Ônibus dos Artistas” era a grande atração da Sete de Abril. A maioria dos participantes e convidados do “Clube dos Artistas” (sexta-feira) e do “Almoço com as Estrelas” (sábado), programas apresentados pelo casal Ayrton Rodrigues e Lolita Rodrigues, utilizavam-no. O clima de festa começava bem antes da chegada ao estúdio.
Eram programas de grande audiência, que reuniam o imenso elenco da Tupi, cantores famosos, políticos das cidades do Interior de São Paulo, atores que anunciavam suas peças. Como se fosse o "Domingão do Faustão". O cenário era um grande restaurante. Os convidados se dividiam nas mesas. Ayrton e Lolita circulavam, entrevistavam, chamavam cantores e cantoras que apresentavam suas músicas de sucesso ou seus lançamentos. O cardápio era da Cantina Don Cicillo. Embora não fôssemos nada além de integrantes do plantão de esportes da TV Tupi, eu e meu amigo Naldinho participamos várias vezes do “Clube dos Artistas” e do “Almoço com as Estrelas”. Chegamos até a levar algumas amigas de nossa turma de jovens do bairro da Cidade Vargas, zona Sul de São Paulo. O ‘seo’ Simi, pai do Naldinho se dava bem com o Ayrton Rodrigues. Ambos sempre se encontravam no edifício dos ‘Diários’.

Durante as transmissões de futebol também convivíamos com todo o pessoal dos estúdios, já que trabalhávamos em um deles, ao lado do apresentador Lucas Neto, que fazia a abertura das jornadas e depois ia anunciando os resultados dos outros jogos e das corridas do Jockey Clube, em Cidade Jardim. Assim, participamos durante um bom tempo dos bastidores da Tupi, a Globo dos anos 60. E era comum cruzarmos nos corredores com atores e atrizes do “TV de Vanguarda” ou “TV de Comédia” e demais programas da emissora.
Pena que esse período de magia da Tupi durou pouco para mim. Mas as emoções daquela época foram importantes na definição da minha carreira de jornalista. Na Tupi passei a gostar de lidar com a notícia, com as coisas do esporte e do futebol.
A esquina entre as ruas Sete de Abril e Marconi – onde eu parava para comer um cachorro-quente enquanto aguardava o embarque no ônibus da Breda rumo ao Sumaré – representa o início do jornalismo que adotei como profissão há décadas. A poucos metros dessa esquina, no número 230 da Sete de Abril, estava o edifício dos ‘Diários’, onde ia me encontrar com o meu amigo de infância ou onde ia com ele trabalhar na TV Cultura.
No ano seguinte, em março de 1963, consegui meu primeiro emprego com registro em carteira. Depois de muita luta, fui ser repórter do tabloide "O Esporte". O caminho estava aberto. A longa jornada teve sequência. Vivi por anos nas redações ou estúdios, em muitos empregos: Última Hora, Diário Popular, Diário da Noite, Folha de S. Paulo, rádio Jovem Pan, revista Manchete Esportiva, O Estado de S. Paulo, rádio Bandeirantes, Agência Estado, Ansa, Diário de S. Paulo, portal Estadão e TV Cultura. O mês de março de 2008 marcou a passagem de 45 anos de profissão. E tudo começou na Tupi.
De acordo com os estudiosos de televisão, inclusive Sandra Reimão, professora de Comunicação Social da Umesp e autora de livros, a história da TV no País pode ser dividida em duas grandes fases: uma que iria de 1950 a 1964 e outra que teria se constituído e consolidado a partir dessa data. A TV Tupi foi a líder da primeira fase e a Rede Globo de Televisão hegemônica na segunda. Dois fatos principais pontuam a transição entre essas duas fases: o declínio da Tupi e o acordo Globo-Time/Life. A Globo iniciou suas atividades em abril de 65 no Rio e em 66 em São Paulo, quando comprou a TV Paulista da OVC (Organização Victor Costa). Mas só conquistou a liderança absoluta nos anos 70.
A TV Tupi foi inaugurada em 18 de setembro de 1950, em São Paulo, como PRF-3 TV Tupi-Difusora, Canal 3. Foi a primeira emissora de televisão brasileira, pioneira também na América Latina. Naquela época apenas três países tinham transmissões regulares: Inglaterra, França e Estados Unidos.
Assis Chateaubriand, fundador da TV Tupi, era proprietário dos Diários e Emissoras Associados, um império, uma grande cadeia de veículos de divulgação que chegou a reunir mais de cem empresas, das quais 33 jornais, 25 emissoras de rádio, 22 emissoras de televisão, uma editora, 28 revistas, duas agências de notícias, três empresas de serviço, uma de representação, uma agência de publicidade, três gráficas, duas gravadoras de disco e uma fazenda.
Para comprar os equipamentos da pioneira TV Tupi – na maioria ingleses – e estruturar a emissora, Chateaubriand recorreu a várias empresas solicitando verbas de publicidade adiantadas e obteve a colaboração da Cia. Antártica Paulista, Moinho Santista, Sul América Seguros, Laminação Nacional de Metais (talheres Wolff), entre outras.
Na noite de estréia, a programação foi assistida apenas por alguns dos proprietários dos 200 aparelhos contrabandeados e distribuídos pelo próprio Chateaubriand e por curiosos que se aproximaram dos 22 receptores distribuídos em vitrines de 17 lojas do centro de São Paulo. O alcance da transmissão era de cerca de cem quilômetros.
O show de inauguração da TV Tupi teve característica de um programa radiofônico de variedades, Vamos ao Ritmo, com a participação de Hebe Camargo, Lolita Rodrigues, Lima Duarte, Walter Forster, Wilma Bentivegna, Lia de Aguiar e outros. Depois, seguiu-se a apresentação de um balé clássico ao som da Valsa do Adeus, de Chopin. No início as transmissões iam das 20 às 22 horas.
Nos primeiros anos de TV eram exibidos shows que repetiam modelos radiofônicos, além de teleteatros, filmes, séries estrangeiras (especialmente dos Estados Unidos) e alguns programas cujos formatos foram inspirados na TV americana, como "O Céu É o Limite" (perguntas e respostas com prêmios), "Esta É a sua Vida" (relato-homenagem de uma vida através de depoimentos de amigos e conhecidos), fórmulas ainda utilizadas em pleno século XXI, como as versões "Show do Milhão" (SBT) e "Domingão do Faustão" (Globo).
Este é o indiozinho, símbolo da TV Tupi, criação do jornalista Mário Fanucchi, integrante da primeira equipe da televisão brasileira. Já atuava nas rádios Tupi e Difusora, como locutor, produtor e diretor de programas, quando a PRF3-TV entrou no ar, em 1950. Fanucchi também foi diretor de criação da rádio Jovem Pan (cujo logotipo é de sua autoria). Durante o período em que fui coordenador de esportes da Pan, tive a oportunidade de trabalhar com Mário Fanucchi. A TV Tupi encerrou suas atividades em 1980, com a cassação de sua concessão, depois de uma turbulenta história de glórias e decadência, toda ela centralizada na figura de Assis Chateubriand. Seus estúdios no Sumaré passaram a ser utilizados pelo SBT durante muitos anos e posteriormente pela MTV.
A Tupi deixou saudades em muita gente. Jamais esquecerei dos sonhos que vivi na esquina da Sete de Abril com a Marconi, no Centro de São Paulo. Foi lá que comecei a minha carreira. Fui acumulando histórias e passagens em muitas outras esquinas do Brasil ao longo de várias décadas de jornalismo. Também guardo na memória histórias com muitos personagens importantes do País em várias esquinas do mundo. Alguns desses acontecimentos tem sido contados aqui.


1 comentários:
Puxa, esta tão bem escrito que tive mesmo a sensação de ter voltado no tempo e me lembrei de coisas que eu tinha certeza que não sabia!
Parabéns, Sérgio, pela forma brilhante como descreveu toda um história que pra mim é uma das melhores lembranças em minha vida.
Abraços,
Reinaldo Simi Jr. vulgo "Naldinho"
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