segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

A história (verídica) de um Barbalho decapitado














O Brasil colonial à época da "Revolta de Barbalho".


Jáder Barbalho entrou para a história do Brasil como um político desonesto na presidência do Senado. Ao contrário dele, há heróis com o mesmo sobrenome que até a vida deram pelo País e são importantes exemplos para as gerações futuras. Um deles é o desconhecido Jerônimo Barbalho.

Muito antes de Joaquim José da Silva Xavier (Tiradentes) ser enforcado, em 21 de abril de 1792, em Minas Gerais, o líder rebelde Jerônimo Barbalho foi condenado à morte e executado em 6 de abril de 1661, em Niterói. Decapitado, teve sua cabeça exposta ao público no pelourinho para servir de exemplo e desencorajar qualquer outra tentativa de insubordinação ao governador da capitania do Rio de Janeiro.

Primeiro movimento popular contra os abusos cometidos por autoridades representativas da metrópole e de Portugal na colônia, iniciativa pouco conhecida e praticamente ignorada na história do Brasil, a “Revolta de Barbalho”, constitui um marco no longo processo de falta de identificação entre os interesses dos colonos e o das autoridades. O episódio também é lembrado como a “Revolta da Cachaça” e consta da história dessa bebida brasileira mundialmente conhecida.

Tudo começou em 2 de novembro de 1660, onde hoje é Niterói. Os moradores da freguesia de São Gonçalo se rebelaram contra o pagamento de um imposto per capita lançado pelo governador Salvador Correia de Sá, da capitania do Rio de Janeiro, com a finalidade específica de saldar os nove meses de salários atrasados devidos aos soldados da guarnição da vila.

Liderados pelo fazendeiro e produtor de cachaça Jerônimo Barbalho e aproveitando a ausência do governador, sobrinho de Mem de Sá, que cumpria uma viagem de reconhecimento às minas de Paranaguá, no Paraná, 112 senhores de engenho pegaram nas armas e proclamaram que não tolerariam mais a governança "por causa das muitas taxas, impostos e tiranias com que ele aterroriza este extenuado povo".

PRIMEIRA REVOLUÇÃO POPULAR
CONTRA ABUSOS DAS AUTORIDADES


Assim, a rebelião dos moradores de São Gonçalo foi a primeira revolta popular contra os abusos cometidos por autoridades representativas da metrópole na colônia. Foram 112 os cidadãos que assinaram o auto que depôs o governador Salvador Correia e seu primo Tomé Correia de Sá nos dias que se seguiram à rebelião, o que resultou no estabelecimento do primeiro governo "independente" na colônia.

O início da trama remonta ao tempo em que o terceiro governador-geral do Brasil, Mem de Sá, consolidou a conquista da baía de Guanabara, no século XVI. Expulsos os franceses e subjugados os tamoios, o governador Mem de Sá deixou o seu sobrinho Salvador Correia de Sá, como representante seu na nova capitania do rei. Ao longo do século a família se sucedeu no cargo e exerceu mais poder, autoridade e influência do que muitos donatários de capitanias que não eram totalmente controladas pela coroa.

Após a morte do velho Salvador, seu filho Martim de Sá governou a capitania durante vários períodos. Enquanto isso, outros membros da família, os Correias e os Sás, ocupavam posições administrativas de menor destaque. Ao longo da primeira metade do século XVII, os Correias de Sá enriqueceram graças aos serviços prestados à coroa nos dois lados do Atlântico e à custa dos cargos oficiais exercidos.

Quando o filho de Martim, Salvador Correia de Sá e Benavides, chegou ao Rio de Janeiro, em abril de 1659, para exercer seu terceiro mandato como governador na condição de general da frota do Brasil e capitão-geral do sul, era o homem mais rico da capitania. Contabilizava uma vasta fortuna em terras e canaviais e era proprietário de mais de 700 escravos, entre negros da terra e de Angola.

REBELIÃO ATRAVESSA A BAÍA
E ALCANÇA O RIO DE JANEIRO


A rebelião dos produtores de cana-de-açúcar liderada por Jerônimo Barbalho atravessou a baía de Guanabara e alcançou a vila de São Sebastião do Rio de Janeiro, em uma clara demonstração do descontentamento dos habitantes com a má administração de recursos e os métodos despóticos utilizados pela oligarquia dos Correias de Sá no trato da coisa pública.

Em 8 de novembro de 1660, o povo em armas e a guarnição – que aderiu à causa em troca do pagamento dos salários atrasados –, iniciaram o saque das casas dos súditos mais abastados da vila, inclusive a de Salvador. Todos os Correias foram destituídos de seus cargos e o irmão de Jerônimo, Agostinho Barbalho, assumiu o cargo de governador da capitania do Rio de Janeiro.

Filho de Luís Bezerra Barbalho, Agostinho Barbalho, militar, nasceu em Pernambuco, em 1629. Perseguiu os corsários que infestavam as costas do Brasil. Viajante, ele foi donatário da capitania de Santa Catarina e organizou uma expedição para descobrir minas e esmeraldas no Espírito Santo, cujas regiões explorou sem resultados. Contribuiu para o conhecimento geográfico de várias regiões ignoradas até então. Foi nomeado administrador das Minas do Brasil por D. Afonso VI em 1664. Morreu entre l667 e 1670. O pai de Agostinho e Jerônimo, Luís Bezerra Barbalho, um verdadeiro guerrilheiro, teve importante participação na expulsão dos holandeses do Brasil.

AMOTINADOS DECLARAM
FIDELIDADE AO REI DE PORTUGAL


Em sua proclamação, os amotinados liderados por Jerônimo Barbalho declararam fidelidade ao rei de Portugal, D. Afonso VI, e exigiam que se fizesse um rigoroso exame das contas públicas para verificar por que as fontes de renda da coroa eram insuficientes para efetuar o pagamento da guarnição. Pediram, também, o restabelecimento da taxa cobrada sobre o vinho, que havia sido abolida por Salvador, e a redução do número de funcionários da guarnição e de signatários da Igreja mantidos pelos cofres locais. Eles combateram uma proibição da metrópole referente à produção de cachaça na colônia..

Poucos dias depois, vários parentes do governador ausente, inclusive seu primo Tomé Correia, governador interino, foram detidos e embarcados para Portugal. Os amotinados de Barbalho juntaram à bagagem dos presos uma longa lista de acusações contra a família.

REBELDES ARROLAM ACUSAÇÕES
CONTRA A FAMÍLIA CORREIA DE SÁ

Os rebeldes arrolaram 38 acusações que pesavam contra Salvador Correia, sendo estas as mais graves, de acordo com o livro "Salvador de Sá e a luta pelo Brasil e Angola 1602-1686", de Charles R. Boxer, (Ed. Nacional/Edusp, 1973, pág 328):

* "Em chegando ao Rio de Janeiro com a frota do Brasil em 1659, funcionou ele como governador até a ida para a Bahia, dois meses depois, embora durante esse tempo Tomé Correia, seu primo, continuasse a auferir o seu salário, como governador.

* Forçou os cidadãos e os fazendeiros a lhe fornecerem braços escravos, madeiras e bois para a construção do galeão Padre Eterno na Ilha do Governador , desflorestando-lhes as terras e compelindo-os a trabalhar em seu galeão, quando deviam estar em seus engenhos moendo cana.

* Abusou de seus poderes, imiscuindo-se arbitrariamente na vida dos comerciantes e dos donos de navios, providenciando a cobrança de dízimos do açúcar e da taxa sobre o sal pelos seus próprios agentes e restabelecendo a fabricação e a venda de aguardente, que tinham sido proibidas pela Coroa.

* Possuindo grandes rebanhos de gado bovino, tentava monopolizar o mercado da carne e compelir os açougueiros a venderem somente a procedente de suas pastagens.

* Fazendo uso da força, ou de trapaças, havia se tornado o maior proprietário territorial e o mais abastado senhor dos escravos de todo o Brasil.

* Tinha instituído muitas taxas ilegais e coagido o administrador a entregar certa soma de dinheiro aos jesuítas.”

Salvador Correia de Sá foi acusado, também, de ser responsável pelo assassinado de um mineiro espanhol em Paranaguá, no Paraná, de instalar mesas de jogo em sua casa, das quais os moradores da região saíam depenados, além de malversar e dilapidar o dinheiro público e de realizar fraudes em larga escala junto com seus principais cúmplices e parentes, Tomé Correia de Alvarenga e Pedro de Souza Pereira.

Em fevereiro de 1961, uma junta de conselheiros eleita pelos súditos da vila liderada por Jerônimo Barbalho assumiu o governo, três meses após o inicio da rebelião. O objetivo final dos revoltosos era "evitar que Salvador Correia de Sá ou qualquer pessoa de sua família fossem escolhidos para ocupar qualquer cargo no Brasil, não se permitindo também para que lá pudessem voltar".

SALVADOR REASSUME, EXECUTA BARBALHO
E EXPÕE SUA CABEÇA EM PRAÇA PÚBLICA


A ausência de reação por parte das autoridades da Bahia e de Lisboa levou os rebeldes a crer que a expulsão do governador do Rio de Janeiro era fato consumado. Mas, antes do amanhecer do dia 6 de abril de 1661, Salvador Correia de Sá chegou de Paranaguá, entrou na cidade e ocupou seus principais pontos fortificados. No mesmo dia em que retomou o controle da cidade, convocou uma corte marcial para julgar os rebeldes.

Jerônimo Barbalho foi preso, condenado à morte e decapitado ao anoitecer de 6 de abril de 1661, cinco meses após tomar o poder. Como aconteceu com Tiradentes 131 anos mais tarde, sua cabeça foi exposta ao público na frente do Convento de Santo Antônio, na vila de Niterói para servir de exemplo e desencorajar qualquer outra tentativa de insubordinação. Os demais participantes foram perdoados pelo governador, mas os membros da junta eleita que governou a cidade foram presos e enviados para a Bahia, onde foram julgados.

A “Revolta de Barbalho”, um movimento pouco conhecido ou citado na história do Brasil constitui um marco no longo processo de desidentificação entre os interesses dos colonos e o das autoridades metropolitanas e seus representantes na colônia.


JERÔNIMO BARBALHO PAGOU
COM A VIDA, MAS FOI VITORIOSO


Os rebeldes liderados por Jerônimo Barbalho ficaram no poder por cinco meses. Durante esse tempo, governaram a cidade sem interferência do governador da Bahia e das autoridades metropolitanas. Mas se os amotinados ficaram pouco tempo no poder, em longo prazo saíram vitoriosos, apesar do sacrifício de Jerônimo Barbalho. Isso porque nenhuma das taxas impostas por Salvador Correia de Sá foi reinstituída e, mais importante ainda, nenhuma pessoa da família Correia de Sá voltou a ocupar o cargo de governador no Brasil.

A Coroa manteve o embargo dos bens de Salvador Correia de Sá decretado pela junta rebelde liderada por Jerônimo Barbalho e ajudou a colocar um ponto final nos abusos cometidos pela oligarquia dos Correias de Sá na capitania do Rio de Janeiro.


Assim era produzida a cachaça em 1.600.









Fontes: Adriana Lopez, historiadora, em D.O. Leitura, publicação da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo (Ano 18, nº 3, março de 2000) e "Salvador de Sá e a luta pelo Brasil e Angola 1602-1686", de Charles R. Boxer, (Ed. Nacional/Edusp, 1973, pág 328).

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Encontros nas esquinas do mundo



Argel, 1974. Aquela correria rotineira de cobertura da Seleção Brasileira. Cheguei do Brasil, era começo de excursão. Encontro o Zé Maria de Aquino (foto) nas ruas estreitas da capital da Argélia. Zé vinha nem-sei-de-onde, realizando alguma reportagem especial para a revista Placar. Foi escalado para acompanhar a viagem dos pupilos de Zagallo. Nem tinha reserva de hotel. Tentou conseguir um lugar para descansar, sem sucesso, pois todos os hotéis estavam lotados. Fomos juntos ao treino da seleção. Jantamos com uma turma grande de jornalistas e ouvimos muitas histórias, repletas de detalhes, contadas pelo “senador” Mauro Pinheiro, saudoso comentarista da Rádio Bandeirantes. Só então eu soube que naquela noite o Zé Maria era um “sem-teto”. Eu e meu companheiro de quarto de hotel o “escalamos” e ele foi dormir no tapete, no pequeno espaço compreendido entre uma cama e outra.

Como essa, há inúmeras histórias que marcam a nossa amizade. Estivemos juntos em um amplo Congresso Mundial da AIPS (Associação Internacional de Imprensa Esportiva). Foi em 1982, em Paris. Circulamos sem parar por todos os cantos da capital francesa, onde já havíamos estado várias vezes, sempre explorando o excelente metrô parisiense. Antes do congresso, fomos a Londres em uma ótima viagem de trem, atravessando o Canal da Mancha. Londres, para nós, não era novidade. Mas esse tipo de viagem, sim. Tivemos como companheiros de congresso Flávio Iazzetti, Aroldo Chiorino e Flávio Adauto. Zé e eu trabalhamos juntos no período de 82 a 90, no Estadão. E durante anos, lutamos pela classe, tanto na Aceesp (Associação dos Cronistas Esportivos do Estado de São Paulo) quanto na Abrace (a associação brasileira), sempre com Adauto, Iazzetti, Chiorino e tantos outros.

Em um encontro na Aceesp, eu, Otávio Muniz e Zé Maria de Aquino.





Competente jornalista, José Maria de Aquino iniciou na profissão em 1966, no Jornal da Tarde. Formou uma dupla de sucesso com o repórter Vital Battaglia. No seu primeiro número, o “JT” deu a seguinte matéria de capa: “Pelé casa no Carnaval”. Furo nacional da dupla (no jargão jornalístico, furo é notícia inédita). Zé e Bataglia fizeram a cobertura do casamento de Pelé com Rose, na igreja do Embaré, Santos, em pleno domingo de Carnaval. Eu também. Na época, era repórter do Diário Popular. Jovem, fui ao baile de sábado, no bairro Cidade Vargas, zona sul de São Paulo, e de lá segui direto para Santos.

Zé Maria conquistou Premio Esso de 1968 (com Michel Laurence). Foi repórter da Placar entre 1970 e 1982. Conquistou dois prêmios Editora Abril. Atuou como repórter do Estadão entre 82 e 90. Foi chefe de reportagem da TV Globo, comentarista da Copa 82, cobriu três Olimpíadas e quatro Copas do Mundo. Atua na Tv-Terra e na RBTV.

É do Zé Maria o texto abaixo. Ele postou no seu blog, homenageando a cidade de São Paulo, que comemora 456 anos. Vale a pena acompanhar.



SAUDADE DO BONDE CAMARÃO E DA GAROA

Era verão, 06 de janeiro, lá se vão 59 anos, quando cheguei, moleque, maleta na mão, à cidade grande.

Não me assustei. São Paulo era tranquila. Bondes nos trilhos, chapéu na cabeça dos senhores, guarda-chuva pendurado no braço, paletó e gravata. Olhar de cobiça nos joelhos das moças quando tomavam embalo para subir. Era tudo que se permitiam.

Era verão, mas logo veio o outono de céu limpo, brisa suave, mulheres bem vestidas, lenços de seda no pescoço, saias no meio das canelas.

E em seguida o inverno, severo, forte, e a garoa que castigava, fazia doer os ossos, endurecer os pés, obrigar o uso de luvas, pensar três vezes antes de virar a esquina. As rádios informavam mortes de mendigos que não conseguiam abrigo.

Sua população era infinitamente menor, assim como seus problemas. Mas seus braços acolhedores já eram enormes, de gigante, assim como a cidade se tornaria.

Deixei que ela me acolhece, sem me engolir. Aprendi, acompanhando seu ritmo, a ser um dos seus muitos filhos, criando, mais tarde, os meus. Ensinando a eles seus segredos: não parar nunca, trabalhar sempre, saber que ela não dá nada, mas oferece tudo, o mais importante: a oportunidade.

São Paulo comemora 456 anos. É uma criança robusta que cresceu demais, desordenada, e se espreme nas roupas apertadas. Perdeu a garoa que a adjetivava, tornou-se mais dura, nervosa, violenta, mas seus braços continuam abertos, acolhedores.

Outro dia li que 57% das pessoas que aqui vivem gostariam de deixá-la. Não acredito. Não quero acreditar. Não posso. São pessoas que nunca viveram em outros lugares, que por ela ser acolhedora esperam receber ao invés de buscar. Ou a pesquisa foi feita no momento do rush, da descarga de adrenalina, do estresse no trânsito.

Só pode ser.

Façam outra pesquisa meia hora depois. Quando os dedos dos pés estiverem livres dos sapatos que apertam, depois do abraço dos filhos que esperam na porta da casa ou do casebre e verão a diferença. Ouvirão as pessoas cantando uma velha marchinha de carnaval que dizia: "daqui não saio, daqui ninguém me tira…"

Como faço agora, para dizer, mais uma vez, muito obrigado, São Paulo.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Homenagem ao competente Zé Nello Marques


Que legal! Tive a chance de reencontrar com um velho amigo: José Nello Marques, que conheço há 32 anos, desde quando fui contratado pelo mestre Fernando Vieira de Mello para ser o coordenador de esportes da rádio Jovem Pan. Esta semana fui visitar o Nello na Rádio Record. Nello comanda um excelente programa de jornalismo (“A Voz de São Paulo”) de segunda à sexta, das 16 às 18 horas, na Record (AM 1.000 kHz).













Nello foi homenageado pelo presidente do Conselho Regional de Biomedicina, Marco Antonio Abrahão (foto acima), durante o seu programa, recebendo medalha comemorativa aos 30 anos de regulamentação da Biomedicina (foto abaixo). Também recebeu o livro “Biomedicina – Um painel sobre o profissional e a profissão”, de minha autoria, com tiragem de 25 mil exemplares, já distribuído por todo País. Zé Nello também entrevistou Abrahão sobre o polêmico “Ato Médico”, um projeto de lei que está no Senado e tem o objetivo de regulamentar a Medicina, mas que na sua essência prejudica as demais 13 profissões da saúde já devidamente regulamentadas.













A reportagem nos estúdios da rádio Record permitiu o nosso reencontro, do Zé Nello e eu. Quando cheguei à Jovem Pan em 1978, levado pelo saudoso amigo Cândido Garcia (eu vinha da editoria de esportes da Folha de S. Paulo), encontrei o Zé Nello no jornalismo. Além de repórter especial da emissora, ele apresentava o “Plantão de Domingo”, programa que explorava jornalismo e esporte, antes das “Jornadas Esportivas” (transmissão de jogos de futebol). E eu, pela minha função, acabei produzindo o esporte no seu programa. O tempo passou, o entrosamento aumentou, e toda vez que um grande acontecimento esportivo era programado, o Nello era incluído, participando com reportagens. Principalmente quando de transmissões internacionais no Brasil, como no caso do GP. Do Brasil de Fórmula-1, em Interlagos.

Quando, em 1982, Estevam Sangirardi levou o seu “Show de Rádio” da Pan para a Bandeirantes, o diretor de jornalismo Fernando Vieira de Mello pediu que eu criasse um novo programa para ir ao ar após as transmissões de futebol. Montei o que se transformou no premiado “Terceiro Tempo” (toda a história de como surgiu o Terceiro Tempo” está neste blog e no site do Milton Neves: www.miltonneves.com.br). E o que é que o Zé Nello tem a ver com o “Terceiro Tempo”? Explico: eu o indiquei para ser o âncora do novo programa. O Tuta, proprietário da Jovem Pan, analisou a proposta do programa e do apresentador. Sugeriu Milton Neves, que estava se revelando no QG de Esportes da emissora. Segundo o Tuta, o Nello já ancorava o “Plantão de Domingo”. Acumular dois programas no mesmo dia seria muito, para o apresentador e para os ouvintes.

O “Terceiro Tempo” com o Milton Neves deu no que deu: sucesso total. No ano seguinte, indicado por Sangirardi, fui trabalhar na Rádio Bandeirantes, na mesma função que exercia na Pan. E pouco depois, a Band também contratou o Zé Nello, que foi ser âncora do programa de jornalismo “Acontece”, todas as tardes. E eu passei a produzir as “entradas” do esporte no “Acontece”, como ocorria no passado no “Plantão de Domingo” da Pan.

A vida de jornalista é sempre muito agitada. Sai da Band, voltei para os jornais. E passei a trabalhar, também, com o saudoso Miguel Dias (meu antigo companheiro de Jovem Pan) na sua empresa de assessoria de comunicação, a “Nova Imagem”, ao lado de outro companheiro: José Nello Marques. Ele e eu éramos “frilas” (jargão jornalístico), ou “free-lancers” (profissionais autônomos).

Sobre o Miguel Dias, vale um destaque. Ele veio de Botucatu (interior de São Paulo). O jornalista Edgar Elias Alves Rodrigues, que havia trabalhado na minha equipe na Folha de S. Paulo, fez a indicação. Como a Jovem Pan estava precisando de um jornalista, eu o indiquei para o Fernando Vieira de Mello. E Miguel teve a chance de começar na Capital por meio da JP, onde realizou grandes trabalhos.

Anos depois, quando as Organizações Globo resolveram transformar a antiga Rádio Excelsior em “CBN” (Central Brasileira de Notícias), um esquema de jornalismo 24 horas inédito em São Paulo, Miguel Dias e Zé Nello foram convidados a participar da programação da nova emissora: Miguel com um programa matutino e Nello com um vespertino. E eu tive uma satisfação dupla: os dois me convidaram para produzir seus programas. A decisão partiu do Miguel: “Sérgio, faz o seguinte: se você quiser trabalhar de manhã, vem para o meu programa. Mas, se preferir o período da tarde, vai trabalhar com o Nello. Você escolhe”. Porém, desta vez não deu certo: não cheguei a um acordo financeiro com o diretor de jornalismo da emissora.

Fui para a Agência Estado, para a Ansa (Agência Italiana de Notícias), fiz um trabalho de “frila” para o Estadão (onde já havia trabalhado entre 80 e 89), para o portal do Estadão e ainda passei pelo Diário Popular (pela terceira vez na minha carreira). O Miguel Dias esteve na TV Record e depois foi para a Rádio Globo. E o Zé Nello voltou à Rádio Bandeirantes, onde permaneceu por muitos anos e também atuou na TV Band. Até chegar agora na Rádio Record, onde conduz um programa jornalístico com a sua grande habilidade, competência e credibilidade.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Estevam Sangirardi, um "Show de Rádio"



O grupo sempre entrava no ar alguns minutos após o encerramento dos jogos, com suas imitações de jogadores e de personalidades da vida política e artística do Brasil nos anos 70 e 80. O programa: “Show de Rádio”. A emissora: Jovem Pan.

Quem gosta de futebol e de rádio ainda deve se lembrar de “Didu Morumbi”, o fanático e esnobe torcedor do São Paulo. Ou do malandro “Joca”, sempre torcendo pelo seu “Coringão, o bão!”. Ou do casal formado pelo “Comendador Fumagalli” e “Noninha”, de ouvidos grudados no rádio, atentos ao jogo do Palestra.

Esses personagens foram criados pelo versátil Estevam Sangirardi, o velho “Sanja”, como era conhecido por todos. No seu famoso “Show de Rádio”, que marcou a história radiofônica do País, Sangirardi e sua equipe comandavam a festa do futebol após cada transmissão ao vivo de jogos da rodada dos campeonatos.

Conheci Sangirardi em 1978, logo após sair da Folha de S. Paulo, onde era editor de esportes. Fui convidado por Cândido Garcia (e contratado por Fernando Vieira de Mello) para coordenar o futebol da Pan, no exato momento em que Osmar Santos deixava aquela emissora e ia para a Globo. E a Pan promovia o narrador José Silvério. Os comentaristas eram Orlando Duarte, Randal Juliano e Cláudio Carsughi; os repórteres, Fausto Silva, Cândido Garcia, Flávio Adauto e Wanderley Nogueira (este começando a carreira); no plantão esportivo, Milton Neves. Após o futebol, “Sanja” deitava e rolava com o seu “Show de Rádio”.

O show era comandado pelo sampaulino Estevam Bourroul Sangirardi, com as participações de Geraldo Barreto, Eduardo Leporace depois Nelson Tatá Alexandre, Carlos Roberto Escova, Serginho Leite, Odayr Baptista, Ciro “Biro” Jatene, João Kleber, Alaor Coutinho, Chiquinho Ferrão, Douglas Rasputim, Cassiano Ricardo e outros.


Os personagens constantes do show eram o esnobe “Didu Morumbi” (Sangirardi), podre de rico, torcedor fanático do “Saint Paul de mon petit coeur” e o seu fiel mordomo “Archibald”, corintiano, que anunciava ao “milorde”, as muitas visitas à mansão; os palmeirenses eram representados pelo “Comendador Fumagali” e pela “Noninha”, que tinham um cachorro chamado “Vardemá Fiume”; os corintianos eram o “Joca” e sua mulher “Nega”, com o guia espiritual “Pai Jaú”; o “Zé das Docas” e o “Lança Chamas” eram santistas e o casal “Manoel” e “Maria” eram torcedores da Portuguesa. Durante o programa as imitações se multiplicavam com “entrevistas” a Rivellino, Pelé e várias personalidades políticas imitados pela equipe.

Destaque para um dos melhores quadros desse show: a “Rádio Difusora de Camanducaia”, criada por Odayr Baptista, sempre transmitindo diretamente do Largo da Matriz, “falando para a cidade e cochichando para o interior” na voz empostada do locutor “Alberto Júnior”. As transmissões de futebol dessa rádio ficavam a cargo de “Alberto Neto” (o mesmo Odayr) que fazia uma imitação impagável do Fiori Gigliotti e que muitas vezes era enviado para um estádio vazio, por engano.

Convivi com Sangirardi entre 1978 e 1982. Aos domingos ele chegava por volta das 13 horas na redação da Jovem Pan, no 24º andar do edifício Sir Winston Churchill, na avenida Paulista, sede da emissora. Em seguida, colocava várias folhas de papel com carbono na sua predileta máquina de escrever Remington, cor “cinza ratinho” e começava a redigir o roteiro do programa. As cópias eram necessárias para distribuir o roteiro aos integrantes do “Show de Rádio”. Naquela época ainda não havia computador e impressora.

“Sanja” ficava ao fundo da redação. Minha mesa era ao lado da dele. Eu cuidava da coordenação da jornada esportiva e ele acompanhava a transmissão com muita atenção, enquanto escrevia. Quando surgia algum lance importante, ele mandava separar para incluir a gravação em seu programa. “Separa esse!”, gritava para a Central Técnica. A resposta de Paulo Freire vinha rápidamente: “Pode deixar”. Aos poucos, os integrantes da sua equipe chegavam, brincando, mas querendo saber o que “Sanja” estava preparando. E antes do fim do jogo estavam todos prontos para o “Show”. Cada um recebia o seu roteiro e todos iam para o estúdio. Jogo terminado, um rápido comentário de Orlando Duarte sobre a partida e José Silvério chamava o programa.

Começava o “Show”. Todos riam do que faziam, mas não demonstravam quando liam seus textos. Os técnicos que estavam na Central de Operações, se divertiam com todo aquele cenário. A festa estava no ar. O esquema se repetia nas noites de quarta-feira. E voltava ao ar no outro domingo. Fora do estúdio, os ouvintes acompanhavam tudo em seus veículos, saindo do estádio, nas residências, no trabalho, nas redações dos jornais...

O “Show de Rádio” surgiu em 1969, na Jovem Pan. Sugestão de Joseval Peixoto, narrador e diretor de esportes da emissora na época, a Antonio Augusto Amaral de Carvalho, o “Tuta”, proprietário da Pan, como conta Carlos Coraúcci, autor do livro “Um show de rádio – a vida de Estevam Sangirardi”. A proposta era de algo diferente, de preferência com humor, para conquistar espaço nas transmissões esportivas:

“Estava difícil concorrer com Pedro Luis e Mário Moraes na Tupi e com Fiori Gigliotti e Mauro Pinheiro na Bandeirantes. Principalmente no interior de São Paulo, onde a PRG-2 Rádio Tupi/SP e a PRH-9 Rádio Bandeirantes eram muito melhor sintonizadas pelas suas ondas curtas. Ouvir radio AM no interior, só após às 18 horas, assim mesmo com alguns chiados”.

Porém na capital paulista era diferente. Com o trio Joseval Peixoto, Leônidas da Silva e Geraldo Blota, o “GB” esbanjando categoria e muitíssimo bom humor, faltava à Jovem Pan o grande diferencial para bater os concorrentes. A “arma secreta”, segundo Joseval, era o talento e a versatilidade de “Sanja”. "A Jovem Pan já tinha em “GB” a sua figura carimbada e em Joseval o complemento para dinamizar e alegrar as jornadas esportivas”, relembra Coraúcci.

“A ideia deu certo e a emissora conquistou altos índices de audiência", acrescenta o autor do livro. “Eu já conhecia o Sangirardi desde a época da Bandeirantes, era só usá-lo como carta na manga. Usamos e deu certo, sorte nossa. Tudo isso com a compreensão e o cavalheirismo do Leônidas e do Álvaro Paes Leme, que cederam parte de seus espaços nos comentários para a inovação que ficou marcada até os dias de hoje”, relembra Joseval.

Após a Copa da Espanha, em 1982, Sangirardi e equipe foram para a Bandeirantes. O que a Pan faria para não cair naquela mesmice da simples cobertura de vestiários pós-jogos? O diretor de jornalismo Fernando Vieira de Mello pediu que fosse encontrada uma solução. Criei um novo programa, tendo como principal novidade um âncora de estúdio (substituindo a apresentação que naquele tempo era feita pelo próprio narrador, diretamente do estádio). Inicialmente, sugeri colocar José Nello Marques. Mas Antonio Augusto Amaral de Carvalho (Tuta), encontrou uma excelente solução: Milton Neves, até então plantão esportivo. A idéia do nome do programa (“Terceiro Tempo”) foi do gerente de jornalismo José Carlos Pereira. E o “Terceiro Tempo” deu no que deu.

Indicado por Estevan Sangirardi, fui contratado em 1983 pelo diretor de esportes Darcy Reis para coordenar o futebol da Bandeirantes. E com o “Sanja” trabalhei por mais alguns anos. Mas o Show de Rádio na Band não teve o mesmo sucesso. Em 27 de setembro de 1994, aos 71 anos, Sangirardi nos deixou. E deixou saudades, muitas saudades.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Vamos escrever fácil?














Não importa a sua profissão. Você pode ser economista, administrador, advogado, engenheiro, médico. Em qualquer atividade, você deve se preocupar em sempre passar as informações da melhor forma possível para quem você quer alcançar. A ordem, a solução, o caminho, é um só: escreva fácil. Se preocupe, sim, com uma escrita rebuscada, caso você a use. Escreva como você pensa, como se você quisesse passar um recado para o seu irmão ou irmã. Essa fórmula, acredite, é infalível. Sempre atinge os objetivos. É um sucesso. Já garantiu carreira de muita gente (em qualquer profissão).

Eu sou um exemplo. Sou jornalista, lido com a palavra, tenho 46 anos de profissão, posso afirmar que tenho uma carreira de sucesso. Não há como dizer o contrário, modéstia a parte. Meu amplo campo de atuação foi a Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Diário Popular, Rádio Jovem Pan, Rádio Bandeirantes, TV Cultura e tantos outros veículos de comunicação.

Em todos esses meios, sempre escrevi do mesmo jeito. Do jeito em que aprendi no dia a dia das redações dos jornalões. “Sérgio, escreva fácil”, aconselhava o saudoso grande mestre Emir Nogueira, diretor de texto da Folha, presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo. Foi o que fiz, desde então. Dante Mattiussi, meu editor na Folha, ia mais longe. “Sérgio, liberte-se ao escrever. Procure a simplicidade”. Foi o que sempre procurei fazer. Outro grande mestre, o também saudoso Fernando Vieira de Mello, diretor de jornalismo da Jovem Pan na época em que lá estive, sempre recomendava a todos nós da redação: “Frases curtas, de fácil entendimento. O ouvinte tem de entender o que queremos dizer, o que queremos informar”, repetia.

A propósito, veja o que diz o bilionário norte-americano Warren Buffett, outro defensor da linguagem simples: “Quando escrevo o relatório anual de minhas empresas, imagino as minhas irmãs, que são inteligentes, mas não especialistas em contabilidade ou finanças. Elas entenderão a linguagem simples, mas os jargões podem confundi-las. Meu objetivo é dar a informação que gostaria de receber se estivesse no lugar delas”, afirma.

Qual o segredo, a fórmula do sucesso do “Dr. Bactéria”, o biomédico Roberto Figueiredo revelado no “Fantástico” da Rede Globo, que até se transformou em porta-voz do Ministério da Saúde no recente episódio da pandemia de gripe suína? Sua linguagem fácil.

Outro exemplo? Joelmir Beting. O antigo cronista esportivo dos tempos do extinto tablóide O Esporte, na década de 70 revolucionou a cobertura jornalística econômica declarando guerra ao “economês” e buscando explicar a Economia com a linguagem mais simples possível em sua coluna na Folha de S. Paulo. Deu no que deu. Sua vitoriosa carreira é a prova do sucesso de sua tese.

E tem mais: a simplicidade do texto do jornalista Ricardo Kotscho, de brilhante carreira, com passagem pela Folha, Estadão, Jornal do Brasil, ganhador de Prêmios Esso, que chegou a assessor de comunicação do presidente Lula. Veja como ele escreve no seu blog ‘Balaio do Kotscho’ (http://colunistas.ig.com.br/ricardokotscho/). Parece que está conversando!

Nos Estados Unidos, a preocupação com a linguagem simples é grande. Já existem campanhas em defesa de um inglês menos rebuscado e mais fácil de entender. Advogados, consumidores, professores e até políticos travam uma batalha para fortalecer a linguagem simples na hora de redigir leis, documentos, comunicados oficiais, bulas de medicamentos, descrições de alimentos, etc. Instituições como a Universidade de Nova York (NYU), começam a exigir que seus alunos escrevam trabalhos e provas de forma mais direta e com palavras que melhor expressem as suas idéias, conforme manuais do movimento que luta contra os textos rebuscados e pouco claros.

Li em uma reportagem de Gustavo Chacra, correspondente do jornal O Estado de S. Paulo em Nova York, já existir o Centro de Linguagem Simples (CLS), que procura alertar as pessoas para a necessidade de serem claras ao escrever. O instituto até criou prêmios para os mais bem escritos documentos e sites dos setores público e privado. Os piores serão denunciados.

Joseph Kimble, professor da Escola de Direito Thomas Cooley, escreve uma coluna mensal sobre linguagem direta no jornal da Ordem dos Advogados de Michigam há a mais de duas décadas e se tornou o principal porta voz do movimento. Seus artigos são apontados como a bíblia da linguagem simples.

“A linguagem simples pode não ser um assunto sexy, mas eu acredito que o custo da má comunicação é um dos maiores desperdícios deste governo, podendo chegar a milhões ou mesmo bilhões de dólares”, afirmou em um depoimento no Congresso dos Estados Unidos. “A linguagem simples deveria ser o idioma americano”, acrescentou.

De acordo com seguidores do movimento pela linguagem simples, quase não há opositores. O problema maior está em educar as pessoas para não deixarem seus textos rebuscados. Por esse motivo, as universidades pressionam os alunos, principalmente os da área de Direito, a serem muito claros na hora de escrever. É o movimento contra o “juridiquês”, que também deveria existir aqui no Brasil.

Incorporando os mandamentos da linguagem simples, o governo americano tem um site no qual explica o que é “plain language”. Os funcionários são aconselhados a ler e a usar as dicas disponíveis. Por exemplo: palavras estrangeiras devem ser evitadas, assim como jargões e abreviações que deixem o texto menos claro.

O site do governo americano também sugere utilizar algumas palavras em detrimento de outras. Eis alguns exemplos: ao lado de (em vez de adjacente a); avião (aeronave); ajudar (beneficiar); parte (componente); querer (desejar); contar (enumerar); terminar (expirar); além disso ou também (no lugar de em adição a); e método (metodologia). No manual do governo, os funcionários públicos são aconselhados ainda a usar a voz ativa, a forma mais simples do verbo, evitar abreviações e escrever sentenças curtas, entre várias outras recomendações.

Enfim, se aqui no Brasil surgir uma campanha em defesa do uso do português menos rebuscado, de mais fácil leitura, apoiarei. Assino embaixo desde já!

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

De cortadores de grama a carrinhos de corrida: assim nasceu o kart


O que há de comum entre o bicampeão mundial de F-1 Émerson Fittipaldi, os tricampeões mundiais Nelson Piquet e Ayrton Senna e os pilotos José Carlos Pace - que dá seu nome ao autódromo de Interlagos -, Wilson Fittipaldi Júnior, Rubens Barrichello e Felipe Massa (na foto pilotando o kart com o qual sua equipe venceu as 500 Milhas da Granja Viana, em São Paulo, dia 6 de dezembro de 2009)? Todos esses brasileiros, como inúmeros outros competidores de esportes a motor no País e no Exterior, começaram no kart.

Como surgiu o kart? Muita gente não sabe. A história não deixa de ser pitoresca, curiosa até. Tudo começou em 1955, em um bairro de classe média, em uma cidadezinha dos Estados Unidos. Cenário amplamente conhecido dos brasileiros através dos filmes: ruas tranquilas, casas térreas, sem cerca, grandes jardins gramados. Dois vizinhos começaram a competir com seus aparadores de grama. Cada um deles saia correndo para ver se chegava primeiro a um determinado lugar. Passado algum tempo essa competição chamou a atenção da vizinhança. A moda pegou e, meses após, boa parte dos moradores competia com os tais cortadores. Alguém resolveu aperfeiçoar o aparelho. Todos o seguiram. E o que se via, então, era um grande grupo de pessoas correndo, todos sentados em seus aparadores. Um dos maiores fabricantes do cortador de grama se interessou pela ideia e resolveu lançar um veículo pequeno – para uma pessoa sentada, quase rente ao solo – equipado com o mesmo motor do cortador. Assim nasceu o veículo da categoria “k”, o kart.

As competições de kart se multiplicaram pelos Estados Unidos na segunda metade da década de 50, depois se transformando em sucesso na Alemanha, Itália, Bélgica, Dinamarca, França, Inglaterra e outras nações européias, além da Austrália. No Brasil, o kart surgiu em 1957.

O piloto de automobilismo Cláudio Daniel Rodrigues, dono de uma oficina mecânica na rua Clodomiro Amazonas, no bairro do Itaim, em São Paulo, era assinante de várias revistas norte-americanas de autos. Através delas tomou conhecimento do novo modelo. “Vou fabricar um kart”, disse para seus amigos. Pouco tempo depois foi testar seu primeiro modelo no Jardim Marajoara, um loteamento asfaltado, com poucas casas, localizado alguns quilômetros após o aeroporto de Congonhas, no caminho para o autódromo de Interlagos. Entusiasmado, Cláudio construiu mais sete karts e chamou seus amigos para competir. Na primeira corrida no Brasil, Maneco Combacau venceu uma das eliminatórias e chegou em terceiro na final, bem perto de Wilson Fittipaldi Jr, o ganhador. Pouco tempo depois, Cláudio produziu mais oito karts e o grupo se ampliou. Era o início do kartismo no Brasil.

O Jardim Marajoara se transformou em um Interlagos em miniatura. O barulho dos karts era ensurdecedor. Os moradores do loteamento chamaram a Polícia e as competições foram interrompidas. O I Campeonato Paulista de Kart, já em andamento, se transferiu para as ruas do Parque Ibirapuera. Algumas provas chegaram a ser disputadas em Interlagos.

Os pilotos pioneiros do kartismo brasileiro foram Cláudio Daniel Rodrigues, Maneco Combacau, Mário Sérgio Itapema, Wilson Fittipaldi Júnior, Serafin Chiodi Lomonaco, José Carlos Pace, Marivaldo Fernandes, Joaquim Carlos Mattos, Afonso Giaffone e vários outros. Desse grupo, dois chegaram à Fórmula-1: Wilsinho Fittipaldi e José Carlos Pace, o “Moco”. Emerson Fittipaldi acompanhava esse grupo, seguindo os passos de seu irmão, Wilsinho.

As corridas de kart eram disputadas em ruas até 1961. Em Cotia foi lançado um novo clube de campo, o Santa Cruz Week End Club. Seu presidente, Hélio Quaresma, resolveu construir o primeiro kartódromo do Brasil e pediu a colaboração dos kartistas. Os pilotos não só começaram a comprar os títulos patrimoniais do clube como também passaram a vendê-los para amigos. A pista foi feita com parte do dinheiro apurado nessas vendas. E o Campeonato Paulista passou a ser disputado no kartódromo do Santa Cruz. A modalidade esportiva cresceu, surgiram novas fábricas de kart, entre elas a Jodora e a Moplast, esta de Amaral Gurgel. Competidores menores de idade começaram a correr de kart. Émerson Fittipaldi (foto) era um deles. Até que uma lei passou a proibir a competição para menores de 18 anos.

A grande ascensão do novo esporte veio em 1963. As competições eram organizadas por uma comissão esportiva do Automóvel Clube do Estado de São Paulo (Acesp), integrada por Alvino Della Corte, Arrigo Squarzone, Giancarlo Squarzone, Adolpho Gottschald, Valter Lotaif e Osvaldo Pagano. Várias provas passaram a ser disputadas em circuitos de ruas de cidades do Interior – Araraquara, Campinas, Ribeirão Preto, Limeira, São José dos Campos – e em Santos. Três kartistas brasileiros foram participar da primeira competição internacional, o "GP Ciudad de Buenos Aires", na Argentina: Maneco Combacau, Tonico Vieira e Mário Sérgio Itapema, tendo como adversários argentinos, uruguaios e chilenos. Com máquinas fracas, emprestadas pelos promotores, não terminaram a competição.

O kartismo começou a ganhar espaço na mídia. A Rádio Record tinha um programa de automobilismo na hora do almoço. Era comandado por Wilson Fittipaldi. Dele também participava o comentarista Cláudio Carsughi. Ambos passaram a dar algum destaque à modalidade esportiva. Notas de kart também eram publicadas pelo jornalista Durval Silva na Folha de S. Paulo. Muito jovem, ainda inexperiente, eu comecei a trabalhar no jornal O Esporte em 1963. E abri espaço para o kart, um esporte de jovens, praticamente sem divulgação.

Em 15 de novembro de 63 foi realizada a primeira prova internacional de kart do Brasil, no novo kartódromo de Ribeirão Preto, com a participação de 60 competidores, entre os quais o argentino Horacio Orfila e os uruguaios Ernesto e Carlos Josefides, pilotos amigos do brasileiro Maneco Combacau. A promoção da corrida foi do jornal O Esporte e tive participação nisso. O vencedor foi o kartista brasileiro Antônio Carlos Maia. A revista argentina Coche a la Vista deu grande destaque à competição. O Campeonato Paulista de 63 foi vencido por Sérgio Bosco Rosas, do Santos Kart Club, enquanto o campeão de 62, Carol Figueiredo, ficou em segundo lugar. Três eram as fábricas da época: Rois Kart, Mo Kart e Silpo Kart.

Em 1964, os kartistas paulistanos perderam o kartódromo que ajudaram a construir em Cotia. Hélio Quaresma deixou a presidência do Santa Cruz Week End Club e seu sucessor, Eduardo Monteiro Salazar, resolveu pedir um valor elevado pela locação da pista, ignorando que os competidores haviam sido os principais responsáveis não só pela construção da pista como também pelo aumento de associados do clube. Todos os pilotos abandonaram Cotia e as competições passaram a ser realizadas em circuitos de rua nas cidades do Interior de São Paulo, em Rudge Ramos e no Parque Ibirapuera.

O kartismo paulista foi crescendo e os principais kartistas acumulando vitórias e ganhando destaque. Wilsinho Fittipaldi, José Carlos Pace, Carol Figueiredo, Marivaldo Fernandes e Émerson Fittipaldi passaram naturalmente para o automobilismo. Todos integraram a primeira equipe de competição de fábrica, a Willys Overland do Brasil, comandada por Luiz Antônio Greco e integrada por pilotos excelentes como Luiz Pereira Bueno, Bird Clemente e Francisco Lameirão.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Um Rivellino "cover" circulando pela Europa


Os agitados colegiais vienenses aguardavam com grande expectativa pela saída dos jogadores da Seleção Brasileira após um treino no Estádio Olímpico de Viena, na Áustria. Com cadernos e canetas buscavam autógrafos dos ídolos do futebol. Moças e rapazes bem vestidos e saudáveis, de cabelos loiros e olhos azuis em sua maioria, não viam a hora do encontro com os atletas sul-americanos.

Treino encerrado, um grupo de jogadores deixa o estádio e caminha calmamente em direção ao ônibus que os conduziria ao hotel onde a delegação estava hospedada. A garotada corre atrás dos jogadores. “Rivellino!”, “Rivellino”!, gritavam os jovens para o grupo de atletas. Reação rápida, “Riva” apontou para uma pessoa de um grupo de jornalistas que caminhava ao lado dos jogadores. Apontava e dizia: “Rivellino!”. Confusos, os jovens austríacos pareciam não acreditar que haviam se enganado. Diante da insistência de um Rivellino disfarçado, porém, correram atrás do jornalista que também tinha bigode e uma certa semelhança com o jogador, embora fosse um pouco mais alto e ligeiramente mais magro. Azar meu pela semelhança. Sem tempo para me refazer do susto, eu insistia em dizer que não era Rivellino. Quando vi que não alcançaria meu objetivo, tive de concordar em dar autógrafos. Um pouco distante, Rivellino ria e calmamente seguia para o ônibus sem ser assediado.

A brincadeira de Rivellino acabou se repetindo durante a excursão da Seleção Brasileira pela Europa, em 1973. Jogador famoso, um dos heróis da equipe na conquista do Mundial de 70, no México, “Riva” era perseguido pelos fãs. Mas sempre que podia, jogava a missão de atendê-los para o seu clone, o jornalista que acompanhava a excursão pelo jornal Folha de S. Paulo. Paguei esse mico algumas vezes. Em Berlim, na Alemanha, em Estocolmo, na Suécia, e em Dublin, na Irlanda.

“MALOCA”, “REIZINHO DO PARQUE”,
“PATADA ATÔMICA”, “CRACÃO DE BOLA”,
OU SIMPLESMENTE ”RIVA”


Roberto Rivellino, a “Patada Atômica”, acabou ganhando o apelido do saudoso narrador esportivo Geraldo José de Almeida durante a Copa de 70, no México. A expressão era usada por torcedores e jornalistas mexicanos para definir o potente chute de esquerda do jogador brasileiro. Geraldo gostou e a adotou nas transmissões de jogos. Ele também o chamava de “Cracão de Bola”. Hábil atleta da bola revelado no Corinthians, foi tão grande para o futebol brasileiro quanto mestre Zizinho, Jair, Didi, Gérson, Ademir da Guia.

Rivellino era uma força da natureza como jogador de futebol. Formado nas quadras de futebol de salão, principalmente no Clube Atlético Indiano, Zona Sul de São Paulo, “Maloca”, seu apelido na época, era puro reflexo, intuição e talento. Executava com perfeição enjoativa aquele drible curto, desmoralizante, onde a bola parecia estar presa por elástico ao seu pé em jogada que aprendeu com o jovem jogador Sérgio Echigo. Era capaz de fazer longos lançamentos, de 30 ou 40 metros com efeito tal que até o companheiro sofria para dominá-la. Imaginem, então, a dificuldade que o adversário tinha para cortá-la. Rivellino também arrancava com a bola dominada até disparar um daqueles petardos de canhota de quase fazer a trave ficar torta.

Canhoto genial, às vezes tinha algum acesso de raiva facilmente confundível com espasmos de estrelismo, algo cultivado desde os tempos em que era chamado de o “Reizinho do Parque”, ainda garoto, época em que jogava no time aspirante do Corinthians e fazia com que a Fiel Torcida chegasse antes ao Parque São Jorge para ver as preliminares do Timão.

“Rivellino não era um autêntico meia-armador. Não tinha nem a constância de um Ademir da Guia, nem o gênio de Zizinho, nem a malandragem de Gérson, tampouco a frieza de Didi. Seu lugar não era decisivamente ali. Era um pouco mais à frente, onde reinou Pelé e, na sua sucessão, reinaria Zico”, analisa o jornalista Alberto Helena.

O melhor momento de Rivellino no Corinthians, segundo Helena, foi sob o comando do técnico e ex-goleador Baltazar, o “Cabecinha de Ouro”, que, para achar um espaço destinado a Adãozinho, outro canhoto de rara competência, empurrou-o para a ponta de lança. “Ali “Riva” transfigurou-se num aríete irresistível. Até que um desses becões da vida enviou-o à cama de um hospital. Ainda no saguão, seu Nicola, pai de Rivellino, foi incisivo: 'Lá na frente o Riva não joga mais', determinando o seu futuro, vítima dos cabeça-de-bagre de plantão”.

Roberto Rivellino, que também teve grande sucesso no Fluminense, viu a sua carreira interrompida prematuramente por não querer continuar jogando no futebol árabe, onde tinha seu passe preso. Dedicou-se a um posto de gasolina, à sua Escolinha do Futebol, uma das primeiras comandadas por jogadores e a outras atividades comerciais. Convidado pelo narrador esportivo Luciano do Valle, foi ser comentarista esportivo de TV, onde se fixou.

Em janeiro de 2007, Rivellino recebeu do presidente Lula o prêmio como grande homenageado do III Troféu Mesa Redonda da TV Gazeta (foto Ricardo Stuckert/PR)

CRAQUE COM O FUTEBOL NO SANGUE

De família italiana, Roberto Rivellino sempre teve o futebol no sangue. Eis alguns detalhes mais de sua vida, de acordo com o site www.rivellinosportcenter.com.br, sua empresa de esportes e eventos:

Nascido em 1º de janeiro de 1946, Rivellino fez seu primeiro teste para ser jogador no Palmeiras. Não passou. Seu destino era o Corinthians, para onde chegou ainda como juvenil. Escalado pelo técnico “Rato” na equipe que disputava o campeonato de aspirantes nas preliminares de jogos do Corinthians pelo Campeonato Paulista, Rivellino transformou-se em atração. Aos dezenove anos, “Riva”, lançado pelo técnico e ex-jogador Baltazar, fez sua estréia com a camisa titular do Timão. Foi em 13 de janeiro de 1965, em um jogo no estádio da Ilha do Retiro, no Recife: 3 a 0 sobre o Santa Cruz, quando o jovem fez o seu primeiro gol no profissional.

E no mesmo ano já foi convocado para a Seleção Brasileira, participando de um amistoso contra o Arsenal e de outro contra a Hungria. Em 1966, conquistou seu único título com a camisa alvinegra: a Copa Rio-São Paulo, título que foi dividido com Botafogo, Vasco e Santos. Só voltou a ser convocado para a Seleção Brasileira em 1968, quando marcou seus dois primeiros gols com a camisa canarinho, no amistoso contra a Polônia. Com Zagallo no comando da Seleção, foi titular do Brasil na Copa de 1970, conquistando o tricampeonato mundial. Rivellino foi o terceiro maior goleador do time: marcou três gols em cinco partidas.

Ainda em 1970, “Riva” foi eleito, com méritos, para a Seleção da Copa. Os mexicanos se apaixonaram pelo seu futebol. Foi titular da Seleção também na Copa de 1974, na Alemanha, quando disputou todos os sete jogos e marcou três gols. No final do ano, o Corinthians perdeu o título do Campeonato Paulista para o Palmeiras e Rivellino foi injustamente responsabilizado pela derrota. Magoado, “Riva” foi para o Fluminense.

Estreou com a camisa tricolor em 1975, justamente contra o Corinthians. Resultado final: Flu 4x1 Corinthians, com três gols de Rivellino. Fez parte da chamada "Máquina Tricolor", time do Fluminense que foi bicampeão estadual. Convocado novamente para a Seleção pelo técnico Cláudio Coutinho, participou de três partidas na Copa de 1978, na Argentina, sem marcar gols. Nesse ano, acertou sua transferência para o El Helal, da Arábia Saudita, onde foi campeão da Copa do Rei e bicampeão nacional. Desavenças com o príncipe Kaled fizeram com que Rivellino encerrasse sua carreira mais cedo, em 1981, aos 35 anos.

Em doze anos de Corinthians, o "Reizinho do Parque" marcou 165 gols e faz parte da seleção dos melhores jogadores da história do Timão. Seus 53 gols em 158 jogos pelo Flu também lhe garantiram uma vaga entre os 11 da história do tricolor carioca.

“Riva” foi titular da Seleção por quase dez anos. Disputou 94 jogos oficiais, marcando 26 gols e só tendo sido derrotado nove vezes. Incluindo também as partidas amistosas, fez um total de 122 jogos com a camisa da Seleção e 43 gols. É o terceiro jogador que mais atuou em partidas oficiais do Brasil, perdendo apenas para Djalma Santos e Gilmar. No entanto, é o atleta que mais jogou com a camisa da Seleção, contando também as partidas amistosas. Está entre os dez maiores artilheiros da história da Seleção Brasileira



FRASES

"Se meu time estivesse perdendo, eu chorava."
(Roberto Rivellino)

"Rivellino é um dos jogadores mais hábeis que já vi jogar."
(Didi, ex-jogador da Seleção Brasileira)

"Vim ver Pelé, mas acabei vendo Rivellino."
(Franz Beckenbauer, depois do amistoso Brasil 2 x 1 FIFA, em 1968)

"Foi em Rivellino que me mirei para jogar. Até hoje, tenho em minha memória seu drible perfeito, seu passe preciso e seu chute indefensável."
(Maradona, maior craque do futebol argentino)